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O Avestruz e o Não
Eu detesto não.
Vivo dizendo não aos os outros com algum prazer sádico, alguma
coisa a ver com adolescência, rejeição, auto-estima, vingança,
sabe-se lá de onde veio isso e agora eu também não quero saber
que o assunto não é análise aqui. Então eu raramente aceito um
não. Se me dão um não eu trato de transformá-lo em alguma outra
coisa, em sim, em socorro, em qualquer coisa. Mas não, não.
Conheço um menino há muito tempo, quer dizer, não conheço direito
e nem há tanto tempo assim, sempre trocamos umas palavras
totalmente irrelevantes e eu ficava ali olhando, olhando,
esperando o dia certo para dar o bote. Porque eu descobri que sou
uma predadora, uma caçadora, como diz a minha antepassada
imediata. Eu estava esperando o momento de ataque e algumas
coisas requerem paciência e boa vontade. Como eu nunca encontrava
o tal rapaz, não pensava muito a respeito então tudo ficava na
mesma. Era uma coisinha branquinha e virginal com cara de sacana,
se é que isso é possível, e que devia ter uma barriguinha de
cerveja por baixo daquelas roupas e que me dava muita vontade de
jogar na parede e que eu nem conhecia direito, nem sabia como
seriam vinte minutos ininterruptos de conversa com ele. O pessoal
de casa desaprovava, diziam porra, eu sou contra essa atração aí,
frisava em capslock contra! contra! e eu dizia ah, vá pra porra.
Mas quem acabou indo pra porra fui eu, e não ao pé da letra, o
que seria legal, mas passei uma das maiores vergonhas da minha
vida. Isso porque antes eu não tinha vergonha, era cara-de-pau
mesmo e fim. E talvez naquela época eu também soubesse ser mais
sutil, mais de cantinho, sacudindo o chocalho e dizendo “venha
cá, querido, que eu vou te dar uma injeção especial” como a Clara
Crocodilo que tanto me chamavam na infância. Pensam que essas
coisas não grudam no subconsciente da pessoa? Grudam. Agora eu
virei uma cavalona insensível. E fiz uma coisa que me dá vontade
de enterrar a cabeça no chão até ela brotar e virar uma
beterraba.
Primeiro preciso me explicar, é claro que eu não estava no meu
perfeito estado de consciência pra fazer uma coisa daquelas. Eu
tinha participado de um debate onde eles só ofereciam água e eu
ainda não tenho cacife para fazer exigências de camarim, por mais
básicas que sejam, como cerveja, poxa, cerveja é uma coisa
totalmente básica para um debate, onde já se viu subir na frente
das pessoas sóbria? Não dá, não dá, a mão sua, eu sofro, gaguejo,
esqueço o que disse, esqueço o que perguntam. Não dá. Então eu
fui ali bem rapidinho e comprei umas seis latinhas de cerveja,
seis latinhas inocentes de cervejinha e ficava andando com a
minha sacolinha pra lá e pra cá. Chegou a hora do debate, eu
segui para o palco com a minha sacolinha e mandei umas quatro das
seis, sendo as outras duas consumidas no debate seguinte. Alguns
não acham de bom-tom ficar bebendo em debates, mas olha, eu sou
isso aí mesmo, se quiserem me chamar de bêbada é verdade. O meu
avô dizia que a gente bebe quando está feliz para comemorar, bebe
quando está triste para esquecer e bebe para acontecer alguma
coisa quando nada acontece.
Depois o debate seguimos para um bar, eu atrasada, mas achando na
minha cabeça de bêbada que era o dia de fazer as coisas
acontecerem – eu e a cervejinha – então fui me insinuando
sutilmente, ou achando que sutilmente, e me metendo no carro
dele. Assuntos amenos, amigos junto, eu atrasada para o
compromisso posterior – e tinha mais um depois, valha-me deus,
quanta coisa pra fazer. E ainda aquilo, afinal de contas aquilo
era uma coisa pra fazer. Não era? Era sim. Na minha cabeça, era.
Chegamos no bar, meu bar que eu adoro, e eu tive a idéia de
jerico de deixar o meu casaco no carro, aquele casaco me
estorvando a noite inteira e arrastando no chão. Era sincera a
minha deixada de casaco, nem era uma desculpa, mas é que ele
estaria mais seguro ali dentro do carro quentinho do que no meio
daquela corja de bêbados (eu inclusa) esbarrando e sujando meu
casaco.
Eu não tinha muito tempo. Sentei ao lado dele, tomei um gole de
cerveja e mandei, totalmente fora de hora, acho que botei a mão
na perna dele e tudo, meu deus que vergooonha, cheguei no ouvido
dele e disse:
- Tem uma coisa que eu quero fazer há muito tempo. Posso te dar
um beijo?
Gostaria de lembrar que isso aconteceu numa mesa de bar na frente
de umas quinze pessoas, todas conhecidas dos dois. Talvez por
isso eles nem tenham dado muita pelota – pelo menos na hora –
porque já me viram fazendo coisas muito piores.
- Não. Eu tenho namorada.
ARGHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E eu ainda fui perguntar por quê. POR QUÊ. Atrasada, na frente de
todo mundo fazendo papelão. Ele falou alguma coisa sobre morar
junto, alguma coisa sobre “porra, olha o jeito que você fala as
coisas”, não lembro direito porque estava vermelha e surda de
vergonha. O amigo dele ainda fez o grande favor de dizer:
- Opa, que resposta foi essa, rolou uma proposta?
- Sim.
Filho da puta, me entregou, maldito. Isso obviamente chamou toda
a atenção para a situação. Eu com toda a adrenalina da vergonha
subindo por todos os meus poros fui levantando, fui indo, olha,
eu estou atrasada.
- Mas e o seu casaco? – ele fez questão de lembrar. Eu não ia até
o carro com ele nem sem ele pegar um casaco, mas não ia mesmo,
olha a humilhação, a coisa já estava bem feia e vexamosa para o
meu lado.
- Não quero.
- Esse é o velho truque índio pra me ver de novo, não? Eu conheço
isso.
Montanha abaixo vamos eu e minha dignidade rolando alegremente, a
coisa não pode piorar mesmo, já virou a piada do bar então que se
foda.
- Pode jogar fora. Sei lá, dá pra sua namorada.
Não sei se ele concordou, se riu, eu já não estava prestando
atenção em mais nada naquela hora.
- E quando você não tiver mais namorada, me avise.
- Tá bom, pode deixar.
Muito bem! Muito bem! A piada do bar, Clarah Averbuck a grande
palhaça fazendo uma gracinha na hora certa, aplausos por favor,
mas agora eu e o meu nariz vermelho vamos indo, divertiremos o
respeitável público em outro momento, em outro local, eu aviso,
eu mando email para todos, adeus! Adeus! Obrigada pela atenção.
E fim.
E até agora eu lembro disso e tenho vontade de sumir. Um não bem
dado foi o que eu ganhei, uma coisa tão rara, uma coisa que eu
aceito tão mal. Não tive escolha. Não é não, eu tento ensinar
isso para minha filha a toda hora e agora eu finalmente entendi.
Não é não.
E a cabeça abaixo da terra, criando umas raízes.
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