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Kate (Irinéia) A noite tropeça no alto da torre da Catedral da Sé e esparrama escuridão por todos os ângulos da Praça João Mendes. Automáticas luzes aninham-se no pelourinho dos postes, no vermelho-verde dos semáforos, nos neuróticos faróis dos carros, nas tímidas cafuas ratos espreitam sonos. Sobressaltados sapatos tênis chinelos botas sandálias tamancos botinas escalavrados pés evoluem negromanto atropelam cruzamentos enfaram pontos de ônibus comprimem escadas do metrô besuntam cachorros-quentes hambúrgueres palram suam ensimesmam-se
18:46 as pernas descobertas o vento focinha gelado fareja Kate 13º recostada abarca-se azul jaqueta de náilon barraca de flores perto-vizinho o Fórum engravatados tailleurs idos vindos celular pasta-de-couro Ah o edredon de ramagens verdes Oi! paixão à primeira Ê vai à merda! bateu o olho é esse Quanto? Quanto? São Paulo terra da 13º 18:51 cinco prestações Lojas Brasileiras Você não é nenhuma Dá o fora então! quietinha quentinho luxento ah Oi! chaveiro volteando no indicador direito Oi! Lá vem o Doutor Feijó-ó! Dr. Feijó! Uma vez, à cama dobrado, Anita... tão nova... Câncer no seio... coitada... Gostava tanto de Dr. Feijó... Vai pegar uma constipação, menina... Ah! Dr. Feijó, adoro quando o senhor me chama de
menina que mané menina já tem até peitinho deixa ver nossa senhora vem cá deixa dar um beijinho vem abraça eu tem problema não não vai falar com a sua mãe heim
- Quantos? - Vinte e três. Quatro abortos. - Quatro? Têm uns aqueles que apreceiam história. Inventa, se insistem. Eu? um buraco... você num deve de ter ouvido falar... Aparecida de Goiás. E você, de onde? Minas Gerais... sou mineira, uai... Não, peguei sotaque nenhum não... Num alembro... era um toquinho assim...
Como você... assim... veio... parar aqui? - É que meu negócio é dar... Desde pequena... Imagina!, ganhar a vida trepando... - Vim pra São Paulo... emprego certo... casa-de-família... Na rodoviária levaram a mala... fiquei sem nada, documento, dinheiro... Só a roupa do corpo... - Cheguei aqui... bobona... roceira... namorei um moço... virou minha cabeça... me fez mal... me desgraçou... - Casei com um fulano... a polícia bateu lá no barraco falando que ele era traficante... bateram nele... prenderam... mandaram eu sumir... - Uma novela! Meu pai morreu, eu tinha nem dez, onze anos... minha mãe amigou com um sujeito... ele bebia... deu pra me cercar... - ...camisinha? - E num falo? Só que nesse antro tem anjo não... O bode vem cafungando e dá porrada e morde e mete as coisas pra em-dentro e esfola... e vez em vez amanhece e o sangue não
mãe o seu carlos está abusando de mim ele 13° a barriga descoberta os dedos do vento acariciam Kate 18:59 perambula Oi! doem as juntas “Friagem” lenço na cabeça blusinha de flanela descalça avança rarefeita paisagem branca barulha o brejo Irinéia! Irinéia! Irinéia! mugem sapos-bois. Metida! Uma bolsa-capanga ampara a novata – acertam passo, rumam à pensão. Também, dezesseis anos... se tanto... Duros peitos que intimam a homaria. Oi! - irinéia? onde seu pai estava com a cabeça Os cubículos – cama-de-mola rinchadeira “Os homens gostam de ouvir a função” – retalham-se em folhas de compensado. À direita à esquerda arranham onomatopéias, da rua distantes sirenas polícia bombeiros, pregões, palavras que se soltam de frases balões desgarrados Fotonovelas preto-e-branco revolve os sebos as coisas tudo no final 19:02
Dra. Maria Christina Arruda O MENOR PREÇO. VENHA NOS CONSULTAR - ...necessidade profissional... Pode arrancar... Oi! 13º o mendigo rondava rodeava espojado na imundície dos cinco vira-latas na desarranjada carroça de papel na veste preta de fuligem. De pena, cuidava-o da noite, embriagado em barba de muitas marquises. Confiado, garrou a espaventar fregueses, aspergindo catinga, bramindo pedaços de pau, estumando oligofrênicos cachorros. Amigos à paisana ausentaram-no. Oi! 19:09 - ...e em último caso até mesmo a 19:11 É aqui pertinho... 13º - Ligar as trompas? Quê! Ainda vou ter uma montoeira de filho! 12° entrefecha a janela 02:11
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