Feriado Bancário
(Bank Holiday)

Tradução de Leonardo Vieira de Almeida

Um homem corpulento, com faces rosadas, veste calças de flanela branca, casaco azul com um lenço rosa à mostra e um chapéu de palha, muito pequeno para ele, inclinado para trás da cabeça. Ele toca violão. Um rapazinho, com sapatos brancos de lona, o rosto encoberto pelo chapéu de feltro, como uma asa partida, sopra a flauta; e seu companheiro, alto e magro, com as botas demasiado surradas, puxa fios – longos, enroscados, desfraldados fios – de melodia do violão. Eles estão, sem sorrir, mas não de todo sérios, em plena luz do sol, no lado oposto à loja de frutas. A mão, parecendo uma aranha cor de rosa, toca guitarra; a mãozinha atarracada, com um anel de turquesa e bronze, força a relutante flauta; e o braço do violinista tenta serrar o violino em dois.

Um grupo se forma, comendo laranjas e bananas, arrancando as cascas, dividindo, compartilhando. Uma jovem tem uma cesta de morangos, mas não os prova. “Como são bonitos!” Ela olha as pequeninas e pontudas frutas, como que com medo delas. O soldado australiano sorri. “Aqui, venha, não há muito deles...” Mas, ele não quer que ela os coma, tampouco. Ele gosta de observar sua pequena face arredondada; seus olhos perplexos, erguidos para ele; “Não são um tesouro!?” Ele avança o peito e seu largo sorriso. Velhas gordas em corpetes de veludo – velhos broches e coxins empoeirados -; descarnadas velhas feiticeiras como surrados guarda-chuvas com toucas trêmulas nos topos; mulheres jovens, em musselinas, com chapéus que crescem nas sebes, e altos sapatos pontiagudos; homens de cáqui, marinheiros, empregados em andrajos, jovens judeus em trajes finos, com ombreiras alcochoadas e calças amplas, garotos de hospital em azul – o sol descortina-os – a forte, nítida música sustenta-os juntos num grande laço por um momento. Os jovens estão brincando, puxando cada um o outro intermitentemente do chão, esquivando-se, acotovelando-se; os velhos falam: “Então, eu disse que, se quisesse um médico só para ele, fosse buscar. Foi assim mesmo que eu disse”.

“Depois que ficaram cozidos não preenchiam a palma de minha mão”.

Só estão quietas as crianças maltrapilhas. Elas aproximam-se dos músicos tanto quanto podem, as mãos atrás das costas, os olhos grandes. Ocasionalmente, uma perna salta, um braço agita-se. Uma criancinha brinca em ziguezague, dá a volta duas vezes, senta-se solene e, então, continua.

“Não é apaixonante?”, sussurra uma garotinha com a mão sobre a boca.

E a música fragmenta-se em partículas brilhantes, que se juntam, de novo se partem; e é dissolvida, a multidão se dispersa, movendo-se lentamente pela colina.

Na esquina da estrada barracas aparecem.

“Coçadores! Dois pences um coçador! Alguém quer um coçador? Deliciem-se com eles, garotos.” Pequenas vassouras macias com cabos de arame. Elas são rapidamente vendidas para os soldados.

“Compre um espantalho! Dois pences um espantalho!”

“Compre um burro saltador! Todo de verdade –oh!”

“Su-perior chicle! Comprem alguma coisa, garotos.”

“Comprem uma rosa. Dê uma rosa para ela, garoto. Rosas, senhora?”

“Plumas! Plumas!” Difícil resistir. Apaixonantes, ondeantes plumas, esmeraldas, rubras, azul-brilhantes, amarelo-canário. Até os bebês vestem plumas, enrodilhadas em seus gorros.

E uma velha, com chapéu de papel de três pontas, chora, como um último conselho de advertência, o único modo de salvar alguém e trazê-lo à realidade: “compre um de três pontas, minha querida, e o coloque!”

É um dia oscilante, meio sol, meio vento. Quando aparece uma nuvem, o sol se esconde; quando ele ressurge, é cor de fogo. Os homens e mulheres sentem-no arder em suas costas, peitos e braços; sentem seus corpos se expandindo, tornando-se mais vivos... então, fazem gestos de abraços , levantam os braços, por nada, investem contra uma garota, inadvertidamente, às gargalhadas.

Limonada! Um tanque cheio dela, em cima de uma mesa coberta com toalha; e limões, como peixes cegos, borbulhando na água amarela. Ela parece consistente, como uma geléia, nos copos espessos. Por que não bebê-la, sem derramá-la? Todos fazem isso, e depois o vidro deixa escorrer as últimas gotas, formando um anel.

Em torno do carrinho de sorvete, com o toldo listrado e a brilhante tampa de metal, as crianças se agrupam. Pequenas línguas lambem, lambem as cornetas de sorvete, ao longo da rua. A tampa mantém-se erguida, a colher de madeira mergulha; alguém fecha os olhos para saborear, silenciosamente, mastigando.

“Deixe os passarinhos contarem a você sobre o futuro!” Ela está ao lado da gaiola, uma enrugada italiana sem idade, abrindo e fechando as mãos escuras. Sua face, um tesouro de delicados entalhes, está envolvida por um cachecol dourado e verde. Em sua prisão, os pássaros do amor batem as asas na direção dos papelotes, na gamela de sementes.

“Você tem grande força de caráter. Você vai casar com um homem de cabelos vermelhos e ter três filhos. Tome cuidado com a mulher loura. Preste atenção! Preste atenção! Um automóvel, dirigido por um chofer gordo, vem correndo pela estrada, precipitando-se – correndo para sua vida – Tome cuidado! Cuidado!”

“Senhoras e senhores, sou leiloeiro por profissão, e se o que eu contar para vocês não for verdade, sou capaz de ter minha licença arrancada e uma boa prisão”. Ele passa a licença pelo peito; o suor jorra da face para o colarinho; seus olhos parecem congelados. Quando ele tira o chapéu, um sulco franzido de carne irritada aparece na testa. Ninguém compra um relógio.

Preste atenção, de novo! Uma enorme caleça vem balançando pela colina, com um casal de velhos, velhos bebês dentro dela. Ela suspende a sombrinha; ele suga a saliência de sua bengala. E os corpos velhos e gordos rolam pelas rochas escarpadas; o cavalo, fumegante, deixa uma trilha de estrume pelo caminho.

Debaixo de uma árvore, o professor Leonard, com casquete e roupão, põe-se ao lado de seu estandarte. Ele está aqui “por um dia”, vindo da exposição de Londres, Paris, Bruxelas, para ler nas faces das pessoas a sua fortuna. Ele se mantém, sorrindo encorajadamente, como um dentista desajeitado. Então, homenzarrões, traquinando e praguejando um momento depois, as mãos apertando seus seis pences e, detendo-se, subitamente tornam-se sérios, silenciosos, tímidos, quase envergonhando-se de como a rápida mão do Professor marca o cartão impresso. Eles são como criancinhas tentando apanhar a bola num quintal proibido pelo dono, medindo os passos atrás de uma árvore.

O topo da colina é alcançado. Como está quente! Que bom tempo! A hospedaria está aberta, a multidão se comprime. A mãe senta-se na beira da calçada com seu bebê, o pai mostra-lhe um copo com bebida escura, e então, selvagemente, abre caminho com os cotovelos, para dentro, de novo. Fumaça de cigarro flutua da hospedaria, um barulho clamoroso e estrépito de vozes.

O vento diminui, o sol queima mais ferozmente do que antes. Do lado de fora das portas de vaivém há uma massa compacta de crianças, como moscas na entrada de um pote de doce.

E vêm, da colina vêm as pessoas, com coçadores e espantalhos, rosas e plumas. Vêm, vêm elas, impulsionadas dentro da luz e do calor, gritando, sorrindo, bradando, como se impelidas por algo maior, muito longe, junto ao sol, à frente delas – levando-as completamente; brilhante, encantadora auréola para... o quê?


O tradutor, LEONARDO VIEIRA DE ALMEIDA, é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no jornal Panorama e nos sites literários Paralelos e Bestiário.


KATHERINE MANSFIELD nasceu em 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia. Filha de pais ingleses, de 1903 a 1906 estudou na Inglaterra. Voltou a Wellington, onde exerceu atividade literária principiante. Convenceu seu pai a continuar seus estudos na Inglaterra, para lá retornando em 1908. Faz e desfaz no mesmo dia um casamento, em março de 1909, em Londres. Fica grávida, já em outra ligação amorosa. Passa uma temporada na Alemanha com sua mãe, e em junho sofre um aborto. Volta a Londres em 1910 e um ano depois publica In a German Pension, seu primeiro volume de contos. Em meio a uma conturbada vida afetiva, sexual e social, vê seu irmão morrer, em 1915, durante a guerra. Surgem os primeiros acessos de tuberculose. Em 1918 publica seu segundo volume de contos: Prelude. Em 1920, outro volume: Je Ne Parle Pas Français. Em 1921, Bliss and Other Stories. Em 1922, The Garden Party and Other Stories. Com o agravamento da tuberculose, tenta tratar-se na Suíça, em 1922. Morreu no dia 09 de janeiro de 1923, aos 34 anos de idade. Sua consagração ocorreu após a morte. Teve mais de dez títulos póstumos, entre relatos curtos, cartas e diários. Hoje é considerada um dos maiores nomes da literatura inglesa. Dela disse Virginia Woolf, que a considerava o maior nome de contista na língua inglesa: "eu tinha ciúme do que ela escrevia".