A Fábrica de Balas

Para o verdadeiro Rubisnag(a).
Ao som de Ruby, my dear, do Thelonious Monk.


Dez anos, dez longos anos se passaram talvez desde que apostara sua sobrevivência em cerimonialmente e sem cerimônias, sentar ou deitar-se (preferia o primeiro) pontualmente entre 11:30h e 12:00h na calçada, junto aos outros apostadores e contar piadas, comentar o jogo e o ladrão do juiz do dia anterior, reclamar das mulheres ou assobiar para o belo par de pernas que porventura ali passasse. Dez longos anos, talvez, até que descobrisse - e, quem sabe, sempre soubera - que suas fichas estavam sempre perdidas e as cartas sempre marcadas, tanto quanto seu rosto, que provocava a curiosidade dos colegas, em saber se era um acidente ou de nascença a pele retorcida e deformada do lado esquerdo, que lhe provocava um estranho sorriso sempre. Dez anos sentando junto com os outros apostadores na calçada oposta aos muros e portões da fábrica, sem precisar brigar por seu lugar ao sol, uma vez que nenhum deles nunca saíram do lugar: nem eles nem o sol nem o concreto que lhes servia de chão e consolo.

Rubisnag ou Rubisnaga ou Rubensnag ou Rubenag ou Rubinag. A pronúncia do nome era tão confusa e dissonante quanto os motivos que haviam levado seus pais - conhecera-os? Ninguém sabia - a dar-lhe aquela graça. Na favela, a grande boca pequena sempre dizia: É preto. Que se podia esperar? Preto, filho de migrante, neto de preto migrante, bisneto de escravos. Era preto e dele só se podia esperar jogar bem futebol sem tênis ou chinelo. Futebol era no pé, no campinho ou no barro ou na merda da beira do córrego, artéria da favela. Era preto e dele só se podia esperar ver cadáver na porta de casa de manhã, ou tiro no meio da noite, ter mais pelo menos cinco irmãos, já que - como estava escrito no muro da creche - se puta fosse flor aquele lugar era um jardim• (porque preto parece coelho: descuidou brota mais um), morar em barraco, ouvir samba no radinho, ter pinto grande, ser fedido e ter boca suja, ver o pai bêbado batendo na mãe à noite, pois já tinha apanhado no bar à tarde, sem trabalho pela manhã. Era preto e quando ia para a escola pública perto da favela isso ficava evidente. Calça Adidas surrada, que usava prá dormir, camiseta meio encardida, cheiro de suor sem desô, cabelo duro, com bolinhas e pêlos daquele cobertor cinza, de flanela usada, caderno com orelhas, espiral retorcida, lápis no toco, sem caneta, sempre pedindo um teco no lanche alheio. Ou tomava água para matar a fome. Não sabia escrever direito, não sabia desenhar (não como a professora queria), não sabia calcular, não sabia gramática, não sabia História ou Ciências. E como era preto, seus professores também não se importavam.

Era preto o Rubisnag. E dele se podia esperar um palavrão a qualquer hora, já que boca de preto, diziam à monumental boca miúda, era igual privada entupida: sempre bóia merda. Preto feio, preto fedido, mas sempre atacante nos times da aula de educação física que, como era preto, sempre tinha 10. Mas nunca era capitão do time, já que era preto e não tinha cabelos esvoaçando no ar, loiros ou castanhos, e nem deixava excitadas as jovens calcinhas que assistiam os jogos e os treinos nas arquibancadas da quadra.

Vale insistir que Rubisnag era preto. E com esse nome e sobrenome Da Silva, com algum outro nomezinho no meio, ele teve de deixar a escola, na sétima série, que chegara a duras penas, sem saber ler ou escrever direto ou nunca ter tido um livro dentro de casa, bombando duas vezes a quinta série. Preto que era, aos quinze anos, Rubisnag seguiu o caminho natural do seu bairro: sair às 05:30h da manhã atravessando a favela, passando por cima do córrego de merda, cumprimentando outros pretos e brancos e amarelos, apostadores e malandros, passando sobre a ponte que rangia sobre o córrego que um deputado um dia disse que... Bem, Rubisnag, o preto, sempre pensava naquele deputado ou vereador ou senador ou até mesmo o corno filho de uma puta do presidente que tinha ido à favela dizer que ia fazer ponte, estrada e construir casa e o caralho a quatro por lá.

Mas Rubisnaga, o preto, caminhava às 05:45h, saindo lá de baixo, do fim da rua, subindo o agora asfalto meio molhado, com água, com urina ou com sangue, estômago borbulhando na barriga, sol dando na cara. E de longe já ouvia as chaminés das fábricas. Sua velha calça Adidas manchada, seu tênis Bamba, a camiseta por baixo da blusa de flanela cinza cobria o corpo sem banho - o gato queimou outra vez; quase pegou fogo no barraco. E tava frio prá cacete também - que se despedia de outros corpos calibrados de média ou pinga sem pão com manteiga para começar o dia. Às vezes o preto do Rubensnag agradecia por não tomar café, porque no barraco da dona Maria Baiana, ela, a filha, o genro, o filho da filha dela, enfim, todo mundo parecia que cagava a noite toda num buraco só. E como era o primeiro barraco ao lado do córrego que ficava perto da ponte por onde o Rubisnaga passava... bom, como era o primeiro barraco, tinha uma espécie de escadinha ou escorregador - era um cano mesmo - que saía do barraco e que, pontualmente, às 05:45h da manhã alguém jogava a merda - líquida feito chocolate quente - no córrego. Às vezes aquilo dava nojo no Rubenag e ele cuspia de lado. Antes, quase vomitava. Dez anos depois, nem isso.

Rubi - é mais fácil chamar assim alguém de nome (???) incerto e que parece apelido - era alguém (???) com sobrenome (???) Da Silva e algum outro nomezinho no meio que, caso soubesse fazer conta direito saberia que um mês tem 30 dias (isso ele sabia); um ano 365 dias (ele também sabia disso, mais ou menos). Bom, uma semana tem 5 dias, mais dois do fim de semana. A semana de Rubi tinha 6, na verdade (Sábado na vida dos apostadores também conta). Por alto ou por baixo, Rubi tinha vivido 3650 dias, sendo que, pelo menos 3000 deles, sentando, como agora, a bunda naquele mesmo matinho sem vergonha, que insistia em crescer na calçada oposta à fábrica do cachorro do patrão, que não assinava carteira, não pagava direito as férias - quando ele dava - e fazia com que o preto do Rubi tivesse vontade de enfiar no rabo da mãe do patrão aquele bolinho de merda de maço de dinheiro, que ele agradecia com um sorriso amarelo todo santo dia 30. Quando recebia.

Seisemponto, o cheiro que sai da chaminé é enjoativo e com o estômago vazio, chega a doer, depois de queimar o nariz. Rubi empacotava as balas ou algo parecido. Como dizia o bosta do supervisor - quer era como o preto fedido do Rubisnag achava que o cara era, com aquele bigodinho cretino xingando os outros - nada importava muito, tanto menos a função do Rubi, que qualquer macaco podia fazer: pegar os pacotinhos de bala na esteira e ensacar. Ou então, pegar as balinhas ainda saindo quentinhas do forno e meter no plástico. E essa era a parte que mais gostava, pois podia vezemquando enfiar a mão por dentro da cueca - quando usava - e meter um pêlo no plástico. Doía, mas doía com gosto. Era a forma de se vingar e pelo menos aí o Rubi ficava feliz e ninguém denunciava: a maioria silenciosa dos apostadores fazia o mesmo, quando o merdinha do supervisor com a porra da papeleta na mão, anotando os tempos, não estava olhando.

Vezemquando Rubi lembrava que tinha nascido no dia de todos-os-santos. E nessa hora também pensava que nenhum santo deve ter quisto pôr seu nome na agenda como mais um afilhado. A velha brincadeira do Todo mundo e Ninguém. Na fábrica de balas, Rubi atendia pelo pomposo título de Ajudante de Serviços Gerais, o que no chão da fábrica significava: Mais um merda ou Merda! Mais um?! dependendo há quanto tempo a boca falante ou medrosa estava ali defendendo seu - Ahã! - emprego.

Sentado ali, mais um segundo de todos aqueles dez anos (e de todos os próximos dez que provavelmente viriam se, como preto, não fosse assassinado na calada da noite na favela e se tornasse superstar dos Aqui e Agora e Cidades Alertas da vida), Rubi se esforçava em pensar como dar um fim àquela situação. Matando? Roubando? Seqüestrando? Pfff... Àquela altura, todos os seus cagaços quanto a praticar um crime tinham dado no pé. Não era isso o que esperavam dele? Pois bem. Não era isso o que dava na TV o tempo todo, nos jornais, nos cartazes, nas propagandas - até mesmo naquelas porras de carinhas de crianças (brancas) chupando balas que servia de cartaz para a fábrica - não era? Tudo o que é preto é ruim. Preto mata, preto fode, preto estupra, preto arregaça. Quantos anjos pretos você já viu, Rubi? O demo? Será que deus era preto, com roupas, olhos e barbas pretas ou usava aquela grande merda de roupas e barbas brancas com seus ridículos olhos azuis? Rubi nem se importava se era pecado ou não pensar isso. A última vez que pisou numa igreja - fazia tempo: sempre se sentia mal nessas missas onde as pessoas te olham de cima a baixo no momento em que se entra e você tem de ficar nas últimas fileiras para não se sentir levando um tiro pelas costas ou sendo alvo de risadas - ele desistiu de rezar.

Depois que ouviu o pastor dizer que só havia duas maneiras de se ganhar dinheiro nessa vida: trabalhando (a certa) ou roubando (a errada). Rubi imediatamente pensou em qual aquele puto tinha escolhido, quando o viu no altar com seus adereços dourados, distribuindo sorrisos e afagos para os que tinham mais dinheiro - e contribuíam sempre com a eterna reforma da igreja e as festas mensais - e às suas crianças, indo embora do culto num dos últimos modelos do carro do ano.

A fábrica de balas. Não era nada e Rubi sabia disso. Nem ele nem ela eram nada. Uma fábrica velha e ultrapassada, feia, suja, fedida e cuja chaminé - preta, para variar - deixava sair aquele cheiro doce e enjoativo, impregnando todos os cantos, todos, todas as roupas, todos os narizes ali. Pelo menos numa coisa todos ali eram iguais: sentiam a mesma droga de cheiro. Mesmo o patrão e seu ar condicionado. Mesmo o supervisor e sua colônia barata. Sentado naquela mesma porcaria de calçada, junto com seus outros companheiros, pensando nisso agora, Rubi deixou passar um leve sorriso - talvez verdadeiro ou fruto de sua deformidade, nunca se soube. Mas na seqüência, se lembrou, ao entrar na fábrica, erguendo-se com os outros corpos mortos, da grande contradição. Produzia balas que não podia chupar, balas que não podia pagar no mercadinho de merda ali perto da favela (a não ser quando as recebia de troco, fato raro, pois sempre tinha o dinheiro contado). É verdade! Rubi sempre pensava nisso. E era nesse momento que também se pensava - e agia, assim como os outros escravos - colocando um pedaço seu naquele gosto doce e enjoativo, um belo tufo de pêlo. E sorria. Suava. Doía. E sorria.

MARIO AUGUSTO MEDEIROS DA SILVA
tem 22 anos, é paulistano, O autor é estudante de Sociologia, em nível de mestrado, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Autor em busca de uma editora, publicou trabalhos na extinta revista virtual TXT Magazine, editada pelo escritor André Takeda. Foi premiado nas edições de 2002 e 2003 do Festival de Poesia, Crônica e Conto de Imperatriz – MA, além de ter seus trabalhos selecionados em outros concursos nacionais.