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Espirros
(Dizem que uma pessoa pode morrer se trancar um espirro. Uma veia
importante pode estourar e dar início a uma hemorragia. Eu tenho
rinite crônica. A cada dia eu passo por aproximadamente 80
situações de risco de vida. Isso porque eu não sei espirrar. Não
me ensinaram. Me diziam que era feio espirrar alto então até hoje
eu prendo o nariz. E toda vez eu imagino que alguma veia lá
dentro está ficando fraca, cada vez mais fraca, esperando o dia
de explodir e sangrar até que eu morra. Que escrevam na minha
lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morto de espirro.)
Ele era o que se podia chamar de uma pessoa sem rótulos. Não que
isso fosse necessariamente bom. Ele era como aqueles garrafões de
vinho que a gente nunca sabe a procedência. Pode nos deixar
alegre por uma noite inteira ou nos fazer vomitar por uma semana.
Ele se chamava Gustavo. Ele tinha os olhos castanhos mais azuis
que eu já vi. Passava uma sensação estranha quando me olhava,
como achar um poema na calçada ou abrir um panfleto de proteção
aos animais e cair de dentro um cartão de uma churrascaria. A
gente não sabe muito bem o que significa, mas sabe que significa
alguma coisa.
(Quando vi Ana senti medo. Sabia que eu deveria me aproximar, não
sabia como. Dei 12 voltas pelo bar, tomei 5 doses de gim, fumei 7
cigarros e espirrei 15 vezes. Me senti leve. Fui até ela.)
A primeira vez que vi Gustavo foi num bar meio deprimente.
Aqueles bares que seriam ainda mais deprimente se fossem escuros
então colocam luzes ofuscantes e algumas mesas de sinuca por dez
reais a hora. A primeira vez que vi Gustavo ele estava curvado
pra frente, os cabelos saíam de sua cabeça completamente
desordenados e ele não parecia se importar muito com a rebeldia
de seus pelos. Mesmo sua barba crescia em pequenos chumaços,
deixando lacunas pelo rosto, como uma ovelha tosada por um
portador de Parkinson. Logo depois ele se aproximou e sentou na
minha mesa.
(As mulheres sempre me pareceram fascinantes. Eu tive poucas
mulheres na vida, a maioria delas é que me teve. Eu sobrecarrego
as mulheres com informação. Eu derramo em cima delas minhas
idéias, meu passado, meus sonhos. Derramo em cima delas todas as
minhas conclusões estúpidas sobre a vida, todas minhas
frustrações e piadas sem graça. Como se não fosse o suficiente eu
derramo nelas a minha bebida. As mulheres sempre me levam a
beber, e a bebida me deixa com as mãos tremendo mais que o de
costume. Depois, quando me dada a chance de passar a noite com
uma mulher eu derramo nela todo meu sêmen, minha tesão, meu suor
e minha saliva. E então me sinto vazio.)
Aquela noite quase só eu falei. Gustavo me ouviu pacientemente e
me olhava como se tivesse uma pergunta a fazer mas ainda não
soubesse qual era. Ele bebia demais e tinha as mãos geladas
tremelicando na mesa. Pensei na barba e ri. Ele se assustou com o
meu riso e apagou rápido o cigarro, os olhos arregalados, a boca
meio aberta, olhou pra baixo e ficou imóvel. Eu o levei pra minha
casa e deixei-o no sofá. Quando acordei ele estava sentado como
se nem tivesse se deitado.
-Como é que tu ta?
-Cheio.
Gustavo nunca me disse muita coisa e eu nunca compreendia muito
bem o pouco que ele falava. A verdade é que ele me irritava, nada
me irritava mais que os espirros do Gustavo e aqueles lenços de
papel que ele tinha por todos os cantos dele mesmo. Mas existia
algo ali, que não estava em mim, nem estava nele, era algo que
ocupava o espaço entre nós, algo tão terrível e sufocante que nós
passávamos o tempo todo juntos, o mais perto possível.
Não sei quantos dias passaram até a primeira vez que dormimos
juntos. Sei que ele não tinha saído da minha casa desde o
primeiro dia em que chegou. Não sei se eu ainda tinha o meu
emprego, nem se ele tinha o dele. Não sei se foi por desejo de
sentir a pele um do outro ou se foi por não agüentarmos mais
sentir nossas roupas. Sei que ele nunca gozou em mim. Ele me dava
quantos orgasmos eu agüentasse, mas não queria nenhum pra ele. Eu
achava que talvez fosse uma doença e fazia perguntas que ele não
respondia. Ele se irritava e começava a se vestir e passar as
mãos no cabelo nervosamente e eu só pedia por favor não vai pra
longe. Ele nunca ia. Gustavo tinha um beijo seco e gosto de
ameixa.
(Eu me entrelacei em toda beleza que Ana pôs ao meu redor. A
todas as mulheres que eu tive antes eu pedia liberdade e elas nem
sabiam que eram minhas donas. Eu me algemava e escondia a chave
de mim mesmo pra ter uma desculpa pra sair do mundo e todas suas
coisas que me invadiam. Ana ficou por perto só por querer. Ana
tinha pureza saindo pelos poros. Depois de cada noite de sexo com
Ana eu olhava pro seu corpo dormente e me acalmava saber que ali
não ficara nada de mim.)
Gustavo via em mim coisas que não estavam lá. Mas ele não
conseguia olhar pra si mesmo. A verdade é que não sei o que eu vi
nele. Perdi os parâmetros de comparação. Não consigo lembrar de
nada que veio antes de Gustavo.
(Ana tinha maravilhas que nem ela conhecia. Só eu. Só eu. O
explorador das cavernas de Ana e seus cristais. Ela me ensinou a
ver. Ela me ensinou que uma mulher pode levar um homem a loucura.
E na maioria das vezes leva.)
Ele dormia pouco. Suspeito que nem dormisse mais, na verdade.
Quando ia pra cama se deitava de lado, o corpo encolhido,
segurando o queixo entre o polegar e o indicador. Se balançava
para os lados como se estivesse embalando a si mesmo. Os olhos
dilatados só pareciam vivos quando eu caminhava pelo quarto e ele
me acompanhava. Se me sentava, ele me olhava por alguns segundos
e depois desaparecia de novo.
Eu voltei a sair de casa durante o dia. Eu passava o tempo, nada
mais. Me distanciava daquele olhar controlador que o Gustavo
tinha sem nem saber. Era impossível ser livre diante dele, era
impossível mudar o tom de voz, tirar os pés do chão ou rir alto,
porque podia perder o encanto. Eu não podia perder o encanto. Eu
não podia ir embora. Eu não queria perder o encanto.
Quando eu chegava em casa Gustavo sempre havia feito algumas
pequenas mudanças. Primeiro tirou o tapete da sala, o carpete do
quarto e em poucos dias a casa não tinha mais nada cobrindo o
chão em parte alguma. Então foram os lustres. Em uma tarde todas
as lâmpadas ficaram penduradas em fios que saíam direto do teto.
Tudo que o corpo agora magro e fraco do Gustavo conseguira tirar
dali fora parar na rua e depois juntado pelos garis. Restavam
apenas os móveis, a geladeira, o fogão e por um motivo qualquer
ele poupara as almofadas e os colchões. Foi então que ele começou
a desfiar o que restava do nosso improvável lar. Eu o encontrava
no meio da madrugada, agachado diante dos armários do quarto,
arrancando os trincos, puxando parafusos com os dentes, tirando o
verniz com as próprias unhas e, em volta dele, diversos montinhos
de pó, sujeira, lascas de madeira e metal, que ele juntava com as
palmas da mão e depois recolhia com a camisa e jogava da janela.
Ele definhava junto com a casa.
(Ana era uma visão. Uma aparição de luz que me era concedida por
momentos. Ela saía, ia pra rua e voltava pra mim. Ana tinha
coragem, ela sabia que eu não queria sair, eu não tinha o que
fazer lá fora, seria dor pra mim, então ela ia. Ela saía por nós.
Ana capturava o brilho e o calor do sol e trazia pra mim, ela
vinha envolta em luz branca e mais tarde, quando o brilho estava
gasto ela saía para buscar mais.
Enquanto ela não estava do meu lado eu limpava tudo em que Ana
colocaria as mãos. Tirava dali tudo que não fosse digno dela e
deixava tudo vazio porque nada é digno dela e ela preenche tudo e
a presença dela ocupa todo espaço. Eu mesmo me sentia apertado
contra as paredes quando Ana tomava conta do lugar. Era
necessário tirar tudo dali e depois demolir as paredes.)
Ele não bebia mais, também não fumava, nem espirrava. Fazia dois
dias que eu não ouvia sua voz quando ele me pegou pelo pescoço e
me prendeu contra a parede. Eu estava saindo da cozinha e deixei
cair os copos que tinha na mão. Os olhos dele faiscavam que não
se podia ver que expressão tinham no fundo. Ele passou mais de
meia hora com a mão esquerda quase me tirando o ar e a mão
direita secando as minhas lágrimas enquanto me contou toda sua
vida. Aos berros.
Depois me soltou, caiu no chão e começou a revirar os cacos de
vidro e me dizia tu sente a explosão dentro de mim, Ana? tu sente
tudo que está dentro de mim? Ele tinha as mãos dilaceradas e
continuava procurando um caco maior enquanto eu gritava o nome
dele e o chutava pra longe dos copos.
(Foram 32 chutes até que ela conseguisse me deixar inconsciente.
Eu sei porque contei os hematomas. Quando acordei ela não estava
aqui, eu tinha na mão o vidro perfeito pra cortar quantas veias
conseguisse antes de desmaiar e me esvaziar por inteiro. Mas eu
precisava que Ana estivesse aqui. Ela precisa ver que de mim não
restará nada e que eu morrerei puro como ela. Faz quase dois anos
que Ana saiu. Eu tenho jogado fora tudo que ainda estava dentro
da casa. Quando ela voltar estarei eu e meu caco de vidro apenas,
e depois que eu for, ela vai poder viver aqui como ela merece.
Sem nada, só ela. Só ela. Assim que ela voltar. Que escrevam na
minha lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morreu por Ana. Assim que
ela voltar.)
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