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Dois contos
Vitrais
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Antes de mais nada,
Deus, muito obrigada pela comida. É pouca mas não veio a fome.
Até meu irmão comeu. Obrigada por me deixar longe do pó e do suco
cor de sangue. E da minha mãe. Gosto dela em dias frios e gostava
de suas histórias. Mas agora é melhor ficar longe.
Por favor, Deus Pai, faça com que ela largue aquele bandido. Sei
que não é certo ter raiva, mas por que ele fez aquilo com o
Marquinho? Tão pequeno e ingênuo e bonito... Entre a morte e
aquele homem, que minha mãe fique com a morte. É questão de
tempo, eu sei. Tem o vírus.
Muito obrigado, meu Deus, por ter inventado o vírus, assim minha
mãe não vai ficar velha nem em cadeira de rodas como a vovó, e o
Marquinho não vai chegar a entender o que aconteceu. Perdão pelos
meus pensamentos. Por fugir e roubar e comer o que não era meu.
Por matar a cada dia aquela criança alegre. Por acreditar menos
em amor. Por abraçar e beijar a quem me deseja. E por desejar a
quem não merece. Perdão, Senhor, sei que não sou digna dos
pedidos, por isso agora me calo. Daqui de fora você fica melhor
nos vitrais do que na cruz. Dormirei virada para os vitrais.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Eutanásia
Você diz não querer viver, Daniela. Eu sei, foi sua mãe quem me
contou. Lágrima nos olhos, voz baixa. Ela estava com o mesmo
vestido rosa de quando a conheci, linda e simples e alegre. Você
não pode imaginar como fizemos planos. Ela queria tanto uma casa
na praia, uma casa em que nos dias de mar alto as ondas regassem
os girassóis do pátio. Uma casa cheia de areia, janelas sempre
abertas, ventos e muitas cortinas para mostrar a força do vento.
Como admirei ela ter conseguido entrar na medicina. Não que eu
duvidasse daqueles ossos pequenos, mãos tão suaves e finas, só
poderiam ser mãos de anjo e ela só poderia mesmo ser médica.
Vibrei com sua aprovação e chorei muito quando ela teve de parar.
Neste país os médicos são muitos, são ricos, tem de ser assim.
Sua mãe não conseguiu pagar aquele empréstimo. Seu avô nunca mais
seria o mesmo.
Mudaram-se para longe de mim. Nos falamos bastante, depois, mas
ela nunca levou nossos planos a sério. Conheceu teu pai numa
noite, um pouco embriagada, lutando para ser o oposto da
adolescente linda e dedicada. Ela teimava em parecer comum.
Depois que ele começou a freqüentar a casa, tive que abandoná-la.
Você um dia precisa ler as cartas. Nunca entreguei, mas as
escrevia com paixão. Fugi para uma cidadezinha do interior e é de
lá que soube da notícia.
Não, você não pediu para nascer. Mas como fez bem para sua mãe,
você era um pouco daquela onda sobre os girassóis e ela não
parava de dizer que jamais teria conhecido teu pai e te concebido
não fosse ter largado a Medicina. Começou a acreditar em destino
e voltou a acreditar em Deus. Me escreveu para vir no teu
batizado. Depois no teu um ano.
Eu sei, você prefere morrer. Você precisa morrer. Já fez sua
parte, está cansada. Seu corpo é pequeno, os ossos fracos, o
rosto dói, a cabeça. A cabeça... Não, não chore pelos cabelos. O
que te faz a menina linda e adorada por todos não são os cachos
loiros. Chore de orgulho, se precisa chorar. Chore e reze.
Pedir a Nossa Senhora para ela te levar e deixar tua mãe nessa
terra de desilusões... Será que ela agüentaria? Por tanto tempo
sonhou contigo e só te tem há oito anos... Não, você não pode
deixá-la. Mas eu sei que você precisa, eu sei, a dor é muita.
Você e sua mãe são estrelas distantes, muito distantes deste
mundo de loucos. Estão se apagando, temores ou tumores estão
levando vocês deste covil. Mas não, não se deixe morrer.
O mundo é diferente dos livros que você lê, disso você precisa
saber. Não há um país das maravilhas e os Pinóquios não são de
mentira. Os pequenos príncipes crescem, as cinderelas depois da
meia noite não viram abóboras. Mas o mundo precisa de você, sua
mãe precisa de você. Não escolhemos a dor, não escolhemos a
solidão, nem a perda. Sofreremos todos, dói a todos. Lágrimas
aliviam e atormentam. O choro é sincero. A pele branca demais, os
ossos aparecem demais. Tua mãe te ama e de tanto amor não sabe se
pode ou não atender teu desejo cruel e sincero.
Pediu para eu conversar com você. Contar dos nossos planos e
falar sobre o mar, as flores, as coisas boas que te fariam querer
viver. Mas eu sei, pequena Daniela, eu sei que é difícil escolher
entre a paz ao lado de Nossa Senhora e a dor ao lado dos seus
pais. Mesmo que exista o colo quente e a mão angelical.
Sim, prometo que vou segurar na mão dela.
Não, eles não brigaram por tua causa.
Talvez, talvez ela vá te visitar nos sonhos.
Escritor e jornalista, MARCELO SPALDING é formado em
jornalismo pela UFRGS, vice-presidente da Associação Gaúcha de
Escritores, editor do website Veredas, autor do livro 'As cinco
pontas de uma estrela' e membro do grupo Casa Verde.
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