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Diário de saque
Estamos no jardim dos cronistas. Eu e mais alguns que não importa
aqui citar. Falamos de tudo e de todos. E pela primeira vez na
vida moçambicana a liberdade de expressão está na literatura.
Hoje não se vai falar da poesia de combate, nem da poesia de
espionagem, muito menos da poesia de guerrilha urbana. Hoje é dia
de descanso. Estamos sentados num dos bancos do jardim. Falamos
dos nossos sonhos de adolescência. Nossos fracassos e nossas
conquistas. Lembramos da chegada do Samito que depois se tornou
músico e superou-nos em fama. Lembramos do Cassamo que preferiu
emigrar no estrangeiro, do Casimiro que voltou a província, do
Félix com a sua bondade que superava a humildade religiosa.
Lembramos do Tuca, do John e do “dread” Matias. Lembramos das
garotas que os nossos olhos “sacaram” para reflectir nos nossos
sonhos e inspirações poéticas. Lembramos da Zizi, da Avaida, da
Élice e tantas outras que compartilharam uma geração connosco.
Uma geração se calhar sem nome…
Hoje estamos aqui sentados. Talvés mais gastos. Alguns com “dread
locks” vulgarmente designados rastas. Outros com óculos de vista.
Outros ainda com barbas gigantescas. O tempo corrompeu-nos e
sacou-nos a juventude mas não nos tirou o espírito de amizade.
Por isso aqui estamos. Mesmo entre conflitos socias, académicos,
económicos, intelectuais e políticos, nós permanecemos ligados na
mesma força solidária.
Enquanto conversamos há quem esteja preocupado em sacar o
telemóvel de um fulano num machimbombo ou chapa. Enquanto
conversamos há quem esteja preocupado em sacar a carteira de um
beltrano numa loja da capital. Enquanto conversamos há um cicrano
que não é atendido num posto médico por falta de pagamento.
Enquanto conversamos há quem esteja preocupado em falsificar um
cheque do banco. Enquanto conversamos há quem esteja preocupado
em ganhar um concurso de compra de uma empresa recém privatizada,
mesmo sabendo que não tem dinheiro. Enquanto conversamos há um
professor que penaliza os alunos pelo seu baixo salário auferido.
Enquanto conversamos há quem esteja a piratar as músicas do nosso
amigo. Enquanto conversamos há um director que se entende
profundamente com a sua secretária. Enquanto conversamos há um
mendigo que é assaltado a luz do dia. Enquanto conversamos há um
sujeito que é acidentado. Enquanto conversamos a um tipo que vê o
seu berço de ouro transformar-se em berço de chumbo. Enquanto
conversamos há pessoas como tu que não tem com quem conversar.
Na ausência desses mundos do universo maputense… e por que não
moçambicano? Já que a nossa capital é Estado e nação ao mesmo
tempo. Na ausência desses mundos, dizia, conversamos. E parece
que estamos a perder tempo, mas não. Conversando a gente
rejuvenesce e preserva a amizade. Conversando a gente evita
riscos indesejáveis. Conversando a gente cria nosso próprio
universo e vive nele de acordo com as nossas próprias regras.
Conversando a gente caminha sob nossa própria órbita e inventa
novas crónicas distanciadas de Areosa Pena.
Domingos Carlos Pedro é o nome de registro de DOMI CHIRONGO.
Nasceu na Cidade de Maputo (Capital de Moçambique) aos 16 de
Abril de 1975. É o último filho de uma família de 5 irmãos
nascidos do casal Luis João Pedro (natural de Tete) e Amélia
Chongo (natural de Gaza). Teve uma infância coberta de viagens
com a família pelas diferentes províncias do país. Mas, é no
Niassa onde passa maior parte da sua infância. Ele é licenciado
em Psicologia e Pedagogia. Para além da educação formal, Domingos
Pedro teve influência religiosa chegando mesmo a ser catequista.
Entretanto, o escritor já participou em diversas conferências,
seminários e palestras. Em 1999 participa no projecto de pesquisa
ao trabalho infantil. No ano 2000 participa no projecto de
integração psicosocial das vítimas das cheias. Em 2001 trabalha
como professor na Escola Comunitária da Polana. Em 2001-2002
trabalha como administrador dos recursos humanos na MOZAL. Em
2002-2003 trabalha como coordenador de recursos humanos na
British American Tobacco (BAT) onde posteriormente rescinde o seu
contracto para ter mais tempo de se dedicar aos estudos. Com
efeito, ele tem colaborado com vários órgãos de informação
nacional e estrangeira. Domingos Carlos Pedro é membro do SNJ
(Sindicato Nacional dos Jornalistas), MISA-Moçambique (Instituto
de Comunicação Social da África Austral), Cine-Clube, da
associação “Esperança para Todos” e membro de direcção da SOMAS
(Sociedade Moçambicana dos Autores). Actualmente é também
Coordenador da União Nacional dos Escritores, uma associação da
qual é fundador.
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