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Danúbio
Ia o ano de 1945
na Alemanha e em toda a parte. Foi no fim do Outono, morreram os
primeiros. Depois morreram mais, e mais depois. Era Inverno e
noite. Havia dias, mas curtos e escuros, de maneira que muitos
não sabiam que havia dia e se portavam assim como quem atravessa
uma longa escuridão que de qualquer forma não pode parar, que não
deixa acender os homens e a esperança. A escuridão inevitável do
Inverno, que trouxe neve e que trouxe frio e que levou os velhos
e os nus, os pobres. Os indigentes e os doentes. Os que estão
menos seguros a isto, e que se lhes desfazem um pouco da vida é
como se lhes partissem tudo, porque aquele pequeno pedaço
desfeito era o fio era o fino fio de estar vivo.
A um velho a quem tiraram o relógio, aconteceu morrer. Era o
relógio do pai que lhe tinha faltado há muitos anos, antigamente,
e levaram também para cúmulo o que estava gravado nas costas do
objecto: podia ler-se numa inscrição “16 de Novembro de 1873,
cinco minutos depois das seis”, o instante que tinha visto surgir
o seu pai. Para esse velho, morrer foi muito parecido com aquilo,
com perder o momento em que nasceu o pai de antigamente.
Havia outros, os que duravam, os que aguentavam tudo. Percorriam
as ruas e os parques bravios do descuido e lembravam a breve
passagem estial dos estorninhos, a enegrecer os céus por toda a
parte, a aproveitar a liberdade de voar para enegrecer os céus.
Ia 1945, e morreu demasiada gente. Começou a reconstrução. A
Alemanha enfim livre de judeus como sonhou Hitler, o estado de
Israel roubado ao deserto, mais tarde. A Terra Prometida e o
sonho de Jerusalém.
Para o ano, ver-nos-emos por lá, dizia-se. Lá passarão os
estorninhos, a caminho de África.
E o senhor alemão, que aproveitou como pôde as oportunidades que
lhe ofereceu o fim da guerra, a ocupação e partilha da cidade
pelos aliados, o início da reconstrução. Trocava informações por
cigarros e cigarros por mulheres e mulheres por alguma paz e a
paz por memórias doces por memórias de ser pequeno. As margens do
Danúbio a norte de Ausburg, as efémeras a cobrirem o rio depois
da cópula, as pessoas da aldeia. O relógio de corrente que teve
no bolso quase trinta e cinco anos, atrasado exactamente seis
minutos por dia, e que vendeu por sessenta cigarros e mais um que
fumou quando da venda e alguns destes pela rapariga morena e
bonita e que cheirava e sabia bem. As sardas na cara dela e os
olhos negros e rasgados e a pele entre os seios lisa e suada do
seu suor e das suas lágrimas que ela recebeu perplexa e a que
fugiu. Disse-lhe que a amava e que era disso que a amava, das
lágrimas que lhe caíram e que ela tomou, e de lhes ter fugido,
mas não era verdade. Queria sinceramente que ela fosse feliz,
queria não ter estado dentro de uma mulher que lembra o cheiro do
Danúbio e não lhe dizer sequer que a amava. Que o cheiro e a
frescura do Verão às margens verdes era ela que era a efémera e
que morria pelas águas dali, como ele morria pelas águas dali.
Que eram companheiros de desgraça. Que ele cheirava a bêbado e a
cão porque era a guerra que tinha sido perdida e com ela a
dignidade, e a dela a dignidade dela. Que sofriam os dois e eram
os dois os corpos de bichos que voam e se afogam já mortos no
rio. E a míuda levantou-lhe a cabeça com as mãos e olhou-lhe para
a cara no fundo da cara dos olhos e lamentou-o por ser um velho
dentro dela e por lhe ter vendido o corpo por cigarros e por lhe
ter vendido o corpo e ele chorar. Por haver lágrimas ali naquela
pequena e elementar tragédia que não as dela que precisava tanto
de chorar, eram lágrimas de um velho lírico que achava que o
mundo era uma memória do Danúbio. Levou os cigarros e secou o
peito babado e húmido e levantou-se e vestiu-se sem se lavar e
saiu a levar com ela o cheiro do Danúbio. Ele nunca mais a viu,
mas agradou-lhe que houvesse gente a cheirar a memória e repetia
para si esta esperança que todas as raparigas morenas eram
mergulhar no rio e que era salvação daquele inverno mergulhar no
rio.
Acabou rico, depois de trocar cigarros suficientes. Não rico
rico, mas o suficiente para viver uma vida digna: uma casa,
amigos, jantares. Comprou duas padarias e fornecia pão para
alimentar quase duas mil pessoas, todos os dias. Era um homem
bom, que alimentava duas mil pessoas e enriquecia. Acabou por
comprar mais, e dois golpes de sorte permitiram-lhe deixar o chão
dali e levantar-se uns bons mil e quinhentos metros acima do mar.
Da suíça, podia ver-se o mundo inteiro. Produzia talheres por
falência de um bom amigo e outra desventura de um outro homem
levou-o a adquirir uma razoável linha de produção, eficiente,
fundada na prática de fazer munições. Porque um operário que sabe
fazer uma bala aprende com facilidade a produzir um talher e na
Alemanha não faltam por esta altura pessoas que se lembrem como
se fazem balas.
Na suíça, meditava na reconstrução.
Tomou o nome de Mackay, de se ter sentado a conversar com um
tenente-coronel do exército americano. um dos que estavam em
Berlim. Em casa da senhora Hildebraun, que pertencera ao seu
falecido marido e depois aos alemães crianças soldados nos
últimos dias e depois ao exército americano, que tinha usado as
grandes caves para armazenar quadros e estátuas e que lhe
permitia o usufruto dos andares superiores, fracamente
restaurados mas habitáveis, e de acordo com a sua condição. A
residência da senhora Hildebraun servia muitas vezes de messe dos
oficiais americanos e ingleses, onde se reuniam informalmente e
discutiam o dia-a-dia da guerra que tinham passado e esgotavam os
vinhos que se amontoavam num anexo da cozinha. Um Pinot Noir
francamente aceitável aos bárbaros que se acumulavam dentro das
muralhas e que saqueavam assim, delicadamente, confortavelmente
instalados na sala aquecida e entretidos pelo inglês sem mácula
da senhora e pelo fogo sem mácula da lareira e saqueavam assim,
ao serão. Numa conversa com o tenente-coronel John Mackay,
nascido em Brooklin 49 anos antes desta noite, e que provava
vinho pela primeira vez, com uma naturalidade, um à-vontade
espantoso. Espantoso também o sorriso franco que lhe inundava a
cara, um sorriso de perfeita e plácida felicidade. O sorriso do
fogo que lhe iluminava a cara larga e os olhos míudos de natureza
e do vinho. A senhora Hildebraun que comentou algo acerca da neve
e do Inverno, que fingiu comoção ao lembrar que o marido era
montanhista, que em dias de Inverno se punha a passear pelas ruas
de Berlim a esperar a neve. Que tinha estado no topo do monte
branco três vezes e que ela, em cuidados e saudade, lhe escrevia
cartas que ele não podia receber. Que tudo se tinha passado antes
da guerra, antes de casarem, ela uma criança de 17 anos a
suspirar pelo homem que alcançava o cimo do mundo, ele a alcançar
o cimo do mundo e a suspirar por não chegar ao céu. Dois anos
depois, numa cerimónia discreta, professaram amor eterno e ela
esperou 9 meses que nascesse o filho, e ele partiu outra vez. O
senhor Hildebraun que morreu e está perdido e morto nas neves do
monte branco. Ela que remata a história perguntando a Mackay
senhor Mackay, pois pedia sempre desculpa a todos que lhe
perdoassem não se recordar das patentes e preferia os nomes,
senhor Mackay, o senhor é casado
e o tenente-coronel modorrento recorda a mulher que deixou em New
Jersey e responde que sim, que se chama Audrey e que lhe deu duas
filhas, Molly e Mary. Que graças a Deus estão para casar e não
desfeitas na Europa. A senhora Hildebraun
que sim que deve sentir-se feliz
e dois minutos depois, a cortar o silêncio, avisa com um ar
trágico que deseja ser sepultada nas encostas do Monte Branco.
E Mackay e o senhor alemão que saem simultaneamente despedindo-se
da senhora Hildebraun e desejando-lhe uma boa noite e agradecendo
o magnífico serão, mas que têm de ir, que sentem já estar a impor
a sua presença e abandonam a casa e entram no ar frio e seco e o
cheiro ainda sempre por toda a parte de madeira queimada
misturado com pó o cheiro das ruínas e a pólvora e o metal dos
tanques e o óleo e o combustível. O tenente-coronel Mackay que
cortesmente se prontifica a oferecer uma boleia no jeep ao que
acede o senhor alemão que no carro pelas ruas ouve com algum
gosto a história do futuro que é um campo de pasto e uma casa
longínqua num país que não conhece e a liberdade de se mover pela
terra no dorso de um cavalo que leva um homem a pensar que o
mundo não tem fim. E se tem família o senhor alemão
não. a minha Annah morreu com a guerra
e filhos?
os russos, em Kalinnegrado
então está só
sim
deve ser difícil para si. sinto muito
obrigado. é realmente difícil
mas porque não casa outra vez?
é um pouco cedo e já me sinto velho
mas não. a vida deve continuar
sim, claro, a vida deve continuar. não deixo de me sentir feliz
admiro-o. é um homem corajoso, o senhor. combateu também, claro?
mostrou que a luva esquerda escondia que não havia mão esquerda
são tempo difíceis, estes. para todos
já foram mais. agora desejo apenas que isto passe depressa
mas o senhor é um dos actores desta reconstrução
mas involuntariamente
sim, mas um agente importante
de reconstruir este país desta insensatez
uma insensatez, sim
e parou o jeep à porta de sua casa.
deseja subir? posso oferecer-lhe pouco, mas será bem-vindo
obrigado, mas também devo ir
e despediram-se com um aceno e com um toque no ombro Mackay fez
sinal ao condutor que avançasse. O recolher obrigatório não
afectava os que privavam com oficiais americanos, mas não seria
prudente deixar-se ficar à porta de sua casa, sozinho, pelo que
entrou embora quisesse ver um pouco as estrelas e fumar um
cigarro e pensar.
E pensar no quê? Pensar para quê? Pensar na mulher morta e nas
crianças e naquelas coisas que se dizem
os teus filhos são a tua continuação
e ele condenado a viver das memórias dos filhos e raramente a
compreender como se pode continuar um homem pela vida pelas
memórias. não era a solidão nem os dias longos os chás o
pequeno-almoço duramente engolido, pedaço a pedaço a torrada a
compota o chá o cigarro americano os dedos a brincar com as
dobras do guardanapo de linho monogramado para outra pessoa
qualquer. a chávena de um serviço lascado mas que gostara de ver
no chão delicadamente pousada dir-se-ia propositadamente pousada
de forma a que o fumo que se levantava do chão lembrava o calor
que traz o chá quente no Inverno frio, e aquela singela imagem o
fumo a subir da chávena no ar escuro arruinado provocou no corpo
do velho a primeira sensação de calor que teve desde que lhe
morreram os filhos. e ele levantou do chão a chávena e o pires
onde tinha sido deixada e arrumou um e outro num trapo que
apanhou do chão e guardou os restos empoeirados cuidadosamente
guardou-os no casaco.
Quando eles já não anunciavam aos pais as mortes porque os pais
estavam provavelmente mortos ou desalojados e a máquina alemã de
Hitler desfazia-se em peças era um soçobro ver os soldados de 13
anos empunhar as armas como quem experimenta sapatos do pai e o
susto abafado resolutamente o medo contido os olhos demasiado
grandes para combater as mãos firmemente presas à espingarda.
eles que vão morrer saúdam quem ainda está vivo. eles que se
alinhavam e o velho louco de dor pelas ruas a soluçar que era o
fim era o fim e indiferente a tudo a velha sentada na escada que
não ia dar a edifício nenhum.
o vento a trazer cheiro a morte. a morte cheira a roupa queimada
e a carne grelhada. cheira a fezes. cheira a carvão de lenha e a
pó. a morte cheira a pólvora e a metal. a morte cheira a suor a
morte cheira se nos aproximarmos dela a ferrugem a sangue seco.
E o velho ao lado dos mortos, como hoje faz sozinho na sua casa
de restos de outros homens, estendeu o trapo que envolvia a
chávena colocou-a sobre o pires e tomou chá.
Sonhava pouco. Dormia três, às vezes quatro horas, para acordar
com um cansaço de não haver nada para fazer até ao dia em que se
morre. Considerou o suicídio, muitas vezes, a morte que levaria
tudo, a morte que alivia na escuridão perfeita a claridade
demasiado real da vida a claridade dos corpos dos putos que são
parecidos nos membros com os corpos dos filhos. Uma mão morta é
surpreendentemente igual a um objecto qualquer: se passar tempo
suficiente o hábito ameniza tudo. Ao fim de uma semana, afastava
naturalmente com o sapato cadáveres para revolver as ruínas. O
frio conservava os corpos, de maneira que um morto com cinco
mesmo seis dias podia estar no chão com o sorriso ou a dor que o
matou, juntamente com a bala. Conservou o hábito, mesmo passados
anos, de não conseguir olhar para as mãos de alguém sem as
imaginar decepadas e sujas de terra.
Não se matou não sabe porquê. Acabou por se molhar de lágrimas
nos corpos das jovens e por se lembrar do rio e das efémeras. Não
sabe porquê.
às vezes, sabes, acordamos e parece tudo igual
E conservava uma resplandecente ironia que lhe permitia rir ao
pensar que matar-se era destruir esta perfeita harmonia era pôr
cobro à homogeneidade dos dias.
E deu por si a trocar cigarros por informações falsas. Várias
altas patentes nazis e responsáveis por fábricas e empresários
tentavam escapar ao inevitável Nuremberga e outras vinganças. Os
soviéticos, mais práticos, matavam sumariamente os que não
representavam ameaça mas que tinham de alguma forma participado
no horror. Os americanos e os ingleses, presos à ideia de justiça
(como se houvesse justiça capaz de punir ou reparar o que foi
feito), procuravam pistas que levassem à captura deste ou daquele
indivíduo. Que lhes era delatado por algum subserviente mandado,
que provavelmente matou com as mãos mas matar com as mãos a mando
de outro é quase uma bênção, é fazer sofrer sem responsabilidade,
é a perfeita liberdade que tem o sol e o tempo, o universo
impassível nas suas revoluções, surdo. E ele, nas ruas de Berlim
caída, oferecia informações mediante cigarros. Tinha conhecido a
velha sentada nas escadas e outros velhos e outros corpos e,
destes, tantos apresentavam documentos ou identificações que foi
capaz de recolher dados que lhe permitiram ter uma perspectiva
bastante razoável do que se passava em Berlim. A velha
perguntou-lhe da filha e ele perguntou-lhe o nome e ela respondeu
e ele disse que lhe tinha visto o corpo junto ao canal e ela
disse-lhe que num quarto escondido vivia ainda à espera de fuga
um SS. E isto trocou por cigarros e os cigarros entregou-os à
jovem que encontrou descalça para que comprasse pão e lhe
aceitasse o pénis por dentro e lhe desejasse as lágrimas.
A prova de que tudo se mantinha igual era o serão hoje e a cara
familiar de Mackay e a senhora Hildebraun a pedir-lhe que
acompanhasse ao piano duas nostálgicas canções que fizeram furor
em Berlim por toda a Alemanha de facto mas principalmente em
Berlim quando ainda havia bailes e festas quando eram todos
felizes e confiantes do fim célere da guerra e da vitória
inevitável do povo alemão todos felizes e olhando uns para os
outros sabiam estar em frente a um ou uma exemplar magníficos de
ser humano Goering preocupado por vezes mas sempre um cavalheiro
e galanteador e os altivos oficiais nos seus esticados uniformes
e agora substituir tudo pela vergonha da derrota e do erro parece
um sonho ou isto este medíocre Mackay e os seus enervantes amigos
americanos alguns fleumáticos ingleses mas aquela franqueza
insuportável dos americanos que recusam os aperitivos e pedem
lugar ao piano e se recordam de milheirais com saudade e o alemão
velho o padeiro que se senta empoeirado e rico com roupas e peças
que evidentemente não lhe pertencem uma metáfora demasiado
evidente da nação afundado na cadeira a ruminar os seus rios e a
espreitar por detrás dos olhos para o brilho dos candelabros
ainda resplandecem nem tudo morreu parecem dizer e as toalhas de
linho rendadas e brancas imaculadas a mesa absurdamente grande
enorme poder-se-iam sentar e sentaram de facto, ainda não há dois
anos sentaram-se ali quase sessenta pessoas.
O piano ligeiramente desafinado o melhor afinador era judeu, está
morto, podiam ter deixado os bons lembra-se de ouvir alguém dizer
numa festa.
Claro que é demasiado tarde, agora não há nada a fazer. Por toda
a Alemanha, os pianos começam a desafinar são como as últimas
peças que se desfazem de tudo que está em ruínas e que enfim
vomitam os sons de que está tudo na mesma.
Ainda sabem tocar o Fur Elise mas não se comovem. A senhora
Hildebraun arrepia-se com os acordes tortos e o tempo bêbado
desencontrado, americano. Não se salvará de ouvir mais esta
música antes de ser sepultada no sopé do monte que não chega ao
céu.
e o senhor alemão que lhe pergunta
no sopé
sim, no sopé
e volta a encolher-se na cadeira e a rir-se com Mackay que bêbado
relata a quem queira ouvir a sua infância em brooklin e as
virtudes de haver basebol
nunca me considerei um desportista
diz o senhor alemão se bem que se note ainda que foi, no seu
tempo, um homem forte que teve pelo menos a força para se lançar
na guerra e para criar dois filhos e esta certeza que teve Mackay
que lhe parecia ler qualquer coisa nos olhos escondidos
enterrados nele enterrado no sofá esses olhos disseram a Mackay
você perdeu os dois filhos nesta guerra
sim
e a mulher de quem os teve
sim
e continua porquê
e assim foi inevitável que eu tomasse o nome dele assim foi
inevitável porque há um momento na minha vida em que estou em
frente a um homem que se julga meu espelho e um homem em frente a
um espelho reconhece-se, é impossível que não se reconheça e
assim abandonei o salão enorme e apertado e assim me dirigi em
passos apressados para a porta que dividia o andar de cima dos
armazéns e assim me vi na rua a caminhar na escuridão da cidade
ocupada por todos menos por nós e assim ao olhar para cima para
as estrelas
entrou no quarto dela e nos braços dela e dentro dela com a
cabeça a chorar por dentro não sabia explicar como mas todos os
pensamentos eram os de um menino um menino perdido aqui e aqueles
braços abraçavam pelo calor que deitavam para fora. e o toque
macio da pele rígida do nojo do toque de repente não lhe foi
importante e ele chamou minha efémera e ela interrogativamente a
olhar para os olhos dele secos mas tristes e o lamento infinito
que era aquilo tudo e aquele sítio e aquela paz imposta e pensou
eu sou só um homem eu sou só um homem nisto tudo
e não pôde encontrar na vida consolo que viesse de se continuar
pelos filhos e pelo bem e pela glória e pela guerra e pela luta e
pelo amor era só estar ali estar ali naquela maneira patética de
estar perdido e não conseguir fazer-se chorar
e abandonou-lhe o quarto que era a coisa mais parecida com casa
que tinha e foi-se deitar de olhos negros no cadeirão em que
dormia as suas quatro horas e quando se levantou e considerou o
chá e a chávena e o fumo que aquecera mas não aquecia agora e a
janela a deixar ver a magra claridade quando se olhou nisto tudo
pensou que ele, Mackay
havia de ir morrer ao sopé do monte branco
e ainda havia de ir ver as suas pequenas as duas correr atrás uma
da outra nos milheirais e enlaçá-lo os braços à roda do pescoço e
a rir a rir tanto meu deus como se não houvesse nada mais puro
e ainda havia de se lembrar da Brooklin e da pobreza e dos
prédios cinzentos da cidade a figura imponente do Empire State a
fazer duvidar que se pode dividir claramente o céu e a terra
e de se terem escondido três atrás do irmão mais velho para irem
ver no cinema os beijos das estrelas e depois sonhar para os
corpos curvos e as saias justas e os seios grandes e rijos e
desejar como bêbados fazer coisas tocar mexer cheirar aqueles
corpos cheios e sentir os beijos e a mão no cabelo a descer a
espinha
e o nevoeiro
e a doce voz sulista o sass húmido da mulher que lhe deitaria os
olhos e as mãos lhe agarraria o corpo pelas mãos pelo pescoço
pela barba pelo cheiro dos braços o hálito a voz a certificar-se
que era o mesmo que era igual que ainda a amava que ainda a
desejava que és mesmo tu John não acredito que és mesmo tu e ele
claro que não era o mesmo mas aquela paz segura e familiar era
tudo
e havia de se lembrar do marido louco que percorre ainda as ruas
de Berlim a ver a neve a sonhar com o monte o brilho nos olhos
dele a lembrar
Annah como se é feliz lá em cima
que quer dizer liberdade
e há de intuir vagamente que aquela liberdade é tudo e como ela
há de morrer ao sopé daquilo e descer feliz para o chão uns bons
mil e quinhentos metros acima do mar
e levar o piano
EDUARDO BRANDÃO é escritor português, trabalhou em teatro
uns anos, até que se iluminou que quando era pequenino queria ser
cientista e ingressou em física e matemática em Lisboa e
Amesterdão. Agora faz investigação, ganha uns prémios literários
para jovens, dá explicações de matemática, escreve um romance que
nunca mais acaba e trabalha num bar ao fim de semana.
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