O colecionador de lágrimas

Chovia, quando o Boeing decolou de Nova York, faltando poucos minutos para as 23h. A vontade de rever o avô gerou em Carlos uma ansiedade difícil de tratar. O breve e rico tempo que experienciou com o avô, transformara sua tenra existência num torvelinho de incríveis emoções e descobertas.

Com certeza, ainda poderia encontrar no porão do amplo e aconchegante casarão, as prateleiras forradas com papel pardo, sustentando as centenas de frascos de diferentes cores e tamanhos. A repentina visão do delicado funil de acrílico dentro da terceira gaveta, trar-lhe-ia distantes e caras recordações.

- Como vai, vovô?

- Agora estou melhor com você ao meu lado. Obrigado por atender logo ao meu pedido.

- Não vim por causa dos compromissos da mamãe.

- A viagem foi boa? Você ainda tem medo de avião?

- Um pouco, principalmente durante a decolagem: fecho os ouvidos, os olhos e levanto os pés.

- Admiro sua coragem. O que me traz de novidade?

- Vô, o senhor ainda coleciona lagrimas?

- Parei, quando você resolveu partir para os EUA: perdi a motivação.

- O senhor ainda conserva os frascos e o funil?

- Sim, esta tudo como você deixou.

- O senhor quer recomeçar?

- Mentiria se dissesse que não...

- Então precisamos colocar algumas coisas em ordem.

- Concordo.

Começaram tirando o pó das prateleiras, apos espalharem os frascos sobre a grande mesa de fórmica.

- Vô, o senhor andou jogando lagrima fora?

- Apenas as mais antigas.

- Vô, o senhor por acaso ainda tem as lagrimas de Sofia?

- Tenho. Estas nem sua vô teria coragem de jogar fora.

- Ela já conhece toda a historia?

- Sim, contei-lhe na ultima noite de Natal.

- E ela?

- Ficou muito emocionada e colocou o frasco em destaque.

- Vô, Sofia foi mesmo o seu primeiro amor?

- Guarda segredo? Jamais amei tanto uma mulher.

- Conte-me como o senhor colheu as lagrimas.

- Sofia estava no seu leito de morte. As dores já provocavam alucinações. Mesmo assim, ela me reconheceu. Encostou a frágil cabeça no meu peito, libertou as lagrimas e partiu, serena.

Carlos sabia que não teria dificuldade em aumentar a coleção, bastaria pisar na calcada e andar alguns quarteirões.

- Vó, satisfaça a minha curiosidade.

- Diga.

- Que lagrimas o senhor gostaria de ter colhido?

- Pergunta interessante essa. Em certa noite de insônia, fiquei pensando nesta questão. Por exemplo: Cristo deve ter chorado naquela cruz; Judas, também, ao se arrepender; Kennedy com todas aquelas balas não deve ter tido tempo; Pasolini, barbaramente assassinado naquela maldita praia daquele maldito dia; Jim Morrison deve ter deixado lagrimas naquela banheira; Janis Joplin, ao ser expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina, deve ter ido chorar na praia; Hitler e Eva Braun na hora H, choraram?

- Não saberia responder. Agora, vó, por que aquele frasco no canto direito da terceira prateleira tem um tom avermelhado?

- Porque são lagrimas vertidas num momento de extrema violência...

- Conte-me mais.

- São as lagrimas de um grande amigo meu. Foi um extraordinário professor de filosofia, barbaramente assassinado.

- O senhor estava lá?

- Sim, e vi tudo...Quando aproveitei a ausência dos carrascos e decidi colher as lagrimas, percebi que o corpo do meu amigo estava quebrado ao meio e totalmente tingido de sangue vermelho-vivo.

Sergio amava demais aquele neto, filho de sua única filha, empresaria de sucesso. Vê-lo ali ao lado, e poder lê-lo com carinho e admiração. COMO GOSTARIA DE MERECER UM TEMPO MAIOR...

- Vó, tive uma idéia genial!

- Qual?

- Por que não misturamos as lagrimas e colocamos tudo num único frasco com uma etiqueta escrito HUMANIDADE?

- Não seria uma ma idéia, e economizaríamos espaço.

- Vô, quando o senhor colhera as minhas lagrimas?

- Ainda e muito cedo, você tem muita vida pela frente.

- E as suas, será que posso colhê-las agora?

- Como? Eu? As minhas?

- Sim, vovô, o senhor esta chorando.


ARMANDO DIORIO DE PAULA FILHO
, 44 anos, paulistano da Penha. Influências: Ray Bradbury, James Joyce, Luis F. Verissimo, P.J.O Rourke, Fausto Wolff. Cinéfilo: viu A Doce Vida, de Fellini, 12 vezes! Objetivo: encontrar, na net um canal para cutucar com força a ferida fétida e purulenta que está virando este país.