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O Baile de Máscaras de
Howe
Nathaniel Hawthorne, 1804-1864
Tradução de
Josimara Tonella-Estigarribia
Uma tarde, no último verão, enquanto caminhava pela Rua
Washington, meu olhar foi atraído por uma tabuleta que se
destacava numa estreita passagem em arco, quase oposta à igreja
Old South. O letreiro ficava na frente de um imponente edifício,
o qual tinha sido chamado de a Velha Casa da Província, mantida
por Thomas Waite”. Eu, estava alegre por ser lembrado, então, de
um propósito,de grande entretenimento, nutrido há muito tempo, o
de visitar e passear pela mansão dos antigos governadores reais
de Massachussets; e entrando no arco, que passava pelo meio de
várias lojas de tijolinho, alguns passos me levavam do centro
agitado da moderna Boston a um pequeno e isolado pátio. Ali, de
um lado ficava a fachada quadrangular da Casa da Província de
três andares, uma cúpula no alto, e, no topo, um Índio dourado,
que se destacava com seu arco tencionado e sua flecha em posição
de ataque, como que apontando para o cata-vento do pináculo da
Old South. A figura tem mantido essa posição por setenta anos ou
mais, desde que o admirável Deacon Downe, um habilidoso
entalhador de madeira assim o colocou desde o início, em seu
longo posto de sentinela da cidade.
A Casa da Província é feita de tijolos, parecendo ter sido recém
pintada com uma camada de tinta clara. Um lance de escada, com
degraus de pedras de cantaria* vermelhas, protegido por um
corrimão de excêntrico ferro batido, vai desde o pátio até a
espaçosa varanda, sobre a qual há uma sacada com uma grade de
ferro, de padrão semelhante aquele de baixo. Letras e números
como estes -- 16 P. S. 79-- estão fundidos na grade da sacada e,
provavelmente mostram a data do edifício, com as iniciais do nome
do seu fundador. Uma porta enorme, com dupla abertura, me levou
ao hall de entrada, à direita do qual fica o bar.
Neste aposento, eu presumo, os antigos governadores ofereciam
suas recepções, com pompas de vice-reis, rodeados por militares,
conselheiros, juízes e outros oficiais da Coroa, enquanto toda a
lealdade da Província se juntava para prestar-lhes homenagem.
Mas, este mesmo aposento, na sua atual condição, não pode
vangloriar-se, nem de longe, de tal suntuosidade.
O lambril artesanal é coberto por uma tinta desbotada e adquire
uma tonalidade mais escura de um sombreado profundo, no qual a
Casa da Província fica escondida pela quadra de tijolos que a
cerca desde a Rua Washington.
Jamais um raio de sol entrou neste lugar, a não ser o clarão das
tochas festivas extintas desde a época da Revolução. O objeto
mais decorativo e venerável é uma cornija* redonda sobre a
lareira, com azulejos holandeses de porcelana azul, representando
cenas da Escritura; e pelo que sei, a dama de Pownall ou Bernard,
deve ter se sentado junto a esta lareira, e contou a seus filhos
a história de cada azulejo azul . Um bar, em estilo moderno,
contendo muitas vasilhas para decantar, garrafas, caixas de
charuto, ensacas de renda com limões , equipado com uma bomba de
chope e um gaseificador de água, fica de um lado da sala. Quando
entrei, uma pessoa idosa estava estalando seus lábios, com tanto
prazer, que fui convencido de que as adegas da Casa da Província
ainda armazenavam boas bebidas alcoólicas, embora, sem dúvida, as
que os antigos governadores tomavam eram de outra safra. Após ter
bebido um port-sangaree, preparado pelas mãos hábeis do Sr.
Thomas Waite, implorei para que o tão ilustre sucessor e
representante de tantas personagens históricas me guiasse pela
sua antiga mansão.
Ele prontamente concordou, mas, para dizer a verdade, fui forçado
a usar minha imaginação para descobrir o que era interessante em
uma casa que, sem referências históricas, teria parecido
simplesmente uma taberna, como é freqüentemente lembrado pelas
mais respeitáveis pessoas da cidade e, por antiquados senhores do
interior.
Os quartos, que provavelmente eram espaçosos em outros tempos,
foram agora desfeitos e subdivididos em lugares pequenos e
apertados , comportando cada um uma estreita cama e uma
penteadeira, para um locatário solteiro.
A escadaria principal, no entanto, dever ser descrita, sem muita
hipérbole, como um ponto de grandiosidade e magnificência. Sua
forma de caracol começa no meio da sala; seus largos degraus
terminam em uma plataforma quadrada, de onde se sobe em direção à
cúpula.
Um corrimão entalhado, recentemente pintado nos degraus
inferiores, mas ficando mais sujo conforme subíamos, ladeia a
escadaria, com seus pilares fantasticamente retorcidos e
entrelaçados de alto a baixo.
No alto dessas escadas ficavam as botas militares, ou talvez
sapatos gotosos*, que muitos dos governadores calçaram, para se
chegar até a cúpula, o que lhes concedia uma vista bem ampla da
metrópole e de toda a redondeza.
A cúpula é um octágono, com várias janelas e uma porta que dá
acesso ao terraço. Eu me deleitava imaginando, que, deste lugar,
Gage viu sua desastrosa vitória de Bunker Hill (pelo menos um dos
três montes interferiu) e, de onde Howe notou a aproximação do
exército de Washington que cercava a cidade; embora as
edificações construídas na vizinhança tivessem fechado quase
todas as lojas, a torre da Old South, que parecia estar a um
palmo de alcance, foi preservada. Descendo da cúpula, parei no
sótão a fim de observar a maciça estrutura de carvalho branco,
muito mais pesada do que das casas mais modernas, e desse modo
parecendo uma antiga carcaça em desuso. As paredes de tijolos,
cujos materiais foram importados da Holanda, e todo o
madeiramento, ainda continuam em perfeito estado; o piso, porém,
e outras partes internas estão bem deterioradas; pensa-se em
destruir tudo e construir uma nova casa, usando a estrutura
antiga e a mesma obra de alvenaria.Dentre outras conveniências do
edifício em questão, meu anfitrião mencionou que qualquer abalo
ou deslocamento de terra seria capaz de sacudir a poeira velha do
teto de um quarto até o chão daquele abaixo dele.
Passando por uma enorme porta frontal chegamos à sacada, de onde,
nos velhos tempos, era costume , sem dúvida, o representante do
Rei mostrar-se para o povo fiel, retribuindo seus hurras e
chapéus atirados ao alto, com flexões majestosas de sua nobre
pessoa. Naquela época, a frente da Casa da Província ficava
voltada para a rua; esta parte agora está ocupada por um conjunto
de lojas de tijolinho, assim como o pátio atual foi coberto por
canteiros de grama, obscurecido por árvores e confinado por uma
cerca de ferro batido.
Hoje o velho edifício aristocrático esconde seu visual gasto pelo
tempo, atrás de uma pretensiosa casa moderna. Numa das janelas de
trás, observei algumas belas moças costurando, conversando e
rindo, dando de vez em quando uma olhadinha para a sacada.
Descendo dali, fomos novamente para o bar, onde o senhor idoso
mencionado acima e cujo estalar dos lábios tão bem descreviam a
boa bebida do Sr. Waite, ainda descansava em sua cadeira. Parecia
ser, um hóspede ou, pelo menos um visitante assíduo da casa, que
supostamente deveria ter sua conta regular no bar, seu assento
junto à janela descerrada no verão, e seu canto determinado junto
ao fogo, no inverno. Como possuía um aspecto sociável, arrisquei
dirigir-lhe a palavra, fazendo uma observação, calculada para que
ele manifestasse suas reminiscências históricas, se é que
existissem algumas em sua mente. Foi gratificante descobrir que
entre memória e tradição, o velho senhor realmente possuía
algumas fofocas muito divertidas sobre a Casa da Província.
A parte da conversa dele que mais me interessou foi o resumo da
lenda que se segue. Ele me declarou que quem a contou, com uma ou
duas mudanças, foi uma testemunha ocular, mas esta dedução,
aliada ao tempo decorrido, com certeza deu oportunidades para
muitas variações da narrativa; de modo que,mesmo desesperançoso
da verdade literal e absoluta, não hesitei em fazer mudanças
adicionais que pareciam contribuir para o proveito e deleite do
leitor.
Em uma das festas dadas na Casa da Província, durante a última
fase do cerco a Boston, aconteceu um episódio que nunca foi
satisfatoriamente explicado.
Os oficiais do exército inglês e a pequena nobreza leal, muitos
dos quais tinham sido recolhidos da cidade sitiada, foram
convidados para um baile de máscaras, pois a política de Sir Howe
era ocultar as aflições e perigos da época e o aspecto
desesperador do cerco, sob uma ostentação de festejos. O
espetáculo desta noite, se os membros mais velhos da Corte
provincial pudessem acreditar, foi o acontecimento mais alegre e
deslumbrante já ocorrido na história do governo. Os aposentos,
esplendidamente iluminados, ficaram repletos de pessoas que
pareciam ter saído das telas escuras de retratos históricos, ou
terem partido das mágicas páginas de um romance, ou pelo menos,
terem voado para cá de um dos teatros de Londres, sem trocarem os
trajes. Cavaleiros de aço da época da conquista, diplomatas
barbados da Rainha Elizabete, e senhoras da corte com golas
rufadas*, misturavam-se com personagens da comédia, tais como um
multicolorido Bobo da Corte, chacoalhando seu gorro e seus
sininhos; um Bufão, quase tão provocativo de risadas quanto o seu
protótipo, e um Dom Quixote com um varapau* como lança e uma
tampa de panela como armadura.
Mas a principal algazarra era provocada por um grupo de
indivíduos ridiculamente vestidos com uniformes militares
antigos, os quais pareciam ter sido adquiridos em uma feira de
objetos usados, ou roubados de um esconderijo de roupas perdidas
dos dois exércitos franceses e ingleses. Partes daqueles trajes
provavelmente devem ter sido usadas durante o cerco militar de
Louisburg, e os casacos de corte mais modernos devem ter sido
alugados e destruídos por espada, bala ou baioneta, tempos atrás
na vitória de Wolfe. Uma dessas preciosidades, um tipo alto,
esguio, erguendo uma espada enferrujada de imensa longi-tude,
pretendia ser nada menos do que a personagem do General George
Washington e os outros oficiais importantes do exército
americano, tais como Gates, Lee, Putman, Schuyler, Ward e Heath,
eram representados por espantalhos semelhantes.Uma entrevista
entre os rebeldes e o comandante supremo britânico, no estilo
herói-cômico, foi recebida com muitos aplausos, sendo que os som
mais alto vinha dos legalistas da colônia. Havia um, entretanto,
que à distância, olhava estas palhaçadas com severidade e
desprezo e, imediatamente franzia as sobrancelhas e sorria com
tristeza.
Era um homem idoso, que no passado ocupara um alto posto e de
grande reputação na Província, e que tinha sido um soldado muito
famoso no seu tempo. Para a surpresa de todos, a tal pessoa, de
conhecidos princípios whig* como o Coronel Joliffe, estava velho
demais para participar do tal baile, e que deveria ter ficado em
Boston durante o cerco e, especialmente que ele deveria concordar
em mostrar-se na mansão do Sr. William Howe. Mas, de lá ele veio,
com uma formosa neta debaixo do braço; e lá, entre toda a alegria
e bufonaria, manteve sua velha figura austera, o caráter mais
sofrido do baile, pois que ele representava tão bem o espírito de
sua pátria. Os outros convidados afirmaram que, a carranca
puritana do Coronel Joliffe formava uma sombra negra em torno
dele, embora, apesar de sua sombria influência, a alegria deles
começava a brilhar mais intensamente, como (uma comparação de mau
agouro) o trêmulo de uma lâmpada prestes a se apagar. Meia hora
atrás, onze batidas ressoavam no relógio da Old South, quando um
rumor circulou no grupo: um novo espetáculo ou concurso estava
para ser exibido, o que completaria as esplêndidas
festividades da noite perfeitamente.
“Que nova brincadeira teria Sua Excelência nas mãos?” perguntava
o Reverendo Mather Byles, cujos escrúpulos presbiterianos não o
impediram de se divertir. “Confie em mim, senhor, eu já ri mais
do que meu traje me permite da sua confabulação homérica com o
malandro esfarrapado General dos
rebeldes.Mais uma dessas ruidosas alegrias, e eu terei de me
desfazer da minha peruca e faixa eclesiásticas.”
“Nem tanto, caro Doutor Byles, contestou Sir William Howe. Se
hilariedade fosse crime, o senhor jamais teria conseguido seu
doutorado em Teologia. Quanto a essa nova loucura, não sei nada
mais do que o senhor; talvez nem tanto. Agora, honestamente,
Doutor, não teria o senhor incitado os cérebros ajuizados de
alguns de seus compatriotas a representar uma cena no nosso baile
de máscara?”
“Talvez, maliciosamente comentou a neta do Coronel Joliffe, cujo
alto entusi-asmo tem sido ferido pelos inúmeros insultos contra a
Nova Inglaterra; talvez nós estejamos prestes a ter um baile de
figuras alegóricas.
VITÓRIA, com troféus desde Lexington até Bunker-Hill. ABUNDÂNCIA,
com sua superabundante cornucópia, para simbolizar a atual
fartura desta boa cidade e, GLÓRIA, com uma coroa de flores para
a fronte de Sua Excelência.
Sir Howe sorriu após essas palavras, as quais ele poderia ter
respondido com um de seus mais perversos ares de censura,
tivessem eles sido expressos por lábios que usassem barba.. Ele
foi poupado da necessidade de um revide por uma simples
interrupção.
Um som musical foi ouvido do lado de fora da casa, como se viesse
de uma orquestra inteira de instrumentos militares que, parados
na rua, tocavam não melodias festivas próprias à ocasião, mas uma
lenta marcha fúnebre.
Os tambores pareciam desordenados e os trompetes emanavam um
sopro lamentoso, o que imediatamente silenciou a alegria ruidosa
dos ouvintes, deixando todos maravilhados e alguns apreensivos.
Ocorreu a muitos a idéia de que ou um funeral de alguém muito
famoso tivesse parado em frente à Casa da Província, ou que um
defunto, em um caixão coberto de veludo muito bem decorado,
estava prestes a se levantar do portal. Após escutar um
momento,Sir William Howe perguntou com voz severa ao líder dos
músicos quem havia previamente animado as festividades com
melodias leves e alegres. O homem era o tambor-mor de um dos
regimentos britânicos.
“Dighton”, pergunta o General, “ o que significa esta palhaçada?
Ordene que sua banda silencie aquela marcha fúnebre, ou, palavra
de honra, que eles terão motivo suficiente para suas tristes
músicas! Silencie-a, homem!”
”Por favor, Vossa Senhoria, respondeu o baterista-mor, cuja face
avermelhada tinha perdido toda a sua cor, a culpa não é minha. Eu
e minha banda estamos todos juntos aqui, e eu me pergunto se
existe algum homem entre nós que possa tocar aquela marcha sem a
partitura. Eu só a ouvi uma vez, antes desta, e foi no funeral de
sua Majestade, o falecido Rei George II.”
“Bem, bem”! disse Sir William Howe, restabelecendo a compostura
“é o prelúdio de alguma excentricidade do baile de máscara. Deixe
para lá”
Uma figura se apresentava agora, mas dentre as várias fantásticas
máscaras que haviam se dispersado pelos aposentos, ninguém podia
dizer precisamente de onde ela vinha. Era um homem com uma
vestimenta antiga, de sarja preta, com aparência de camareiro ou
mordomo da casa de um nobre, ou um inglês proprietário de terras.
Esta personagem avançou para o lado exterior da porta da mansão
e, escancarando as duas partes, recuou um pouco para o lado,
olhou para trás, em direção à escadaria, como se esperasse alguém
descer. Ao mesmo tempo, a música na rua anunciava mensagens altas
e tristes.
Os olhos de Sir William Howe e seus convidados estavam dirigidos
para a escadaria, e de lá , na parte mais alta que se distinguia
de baixo, apareceram várias personagens descendo em direção à
porta.
O primeiro era um homem de aspecto horrível, usando um chapéu de
formato de campanário e um solidéu embaixo dele; um capote escuro
e enormes botas pregueadas, que vinham até metade de suas pernas.
Embaixo do braço tinha uma bandeira enrolada, que parecia ser a
bandeira da Inglaterra, mas estranhamente separada e rasgada. Ele
tinha uma espada na sua mão direita, e com a esquerda, segurava
uma Bíblia.
A outra figura tinha um aspecto mais suave, também com ares de
dignidade.
Portava um vasto rufo sobre o qual caía uma barba, uma capa de
veludo barrado, um colete e calça estreita de cetim preto.
Carregava em sua mão um manuscrito enrolado.
Bem atrás desses dois, vinha um jovem de comportamento e feições
muito impressionantes, com um profundo, contemplativo e leve
entusiasmo no olhar.
Seus trajes, assim como a de seus predecessores, eram de uma moda
antiga e havia uma mancha de sangue em seu rufo. No mesmo grupo
com esses, havia outros três ou quatro, todos homens dignos e de
evidente autoridade e exibiam-se como artistas acostumados a
olhares atentos da multidão.
Foi idéia dos espectadores, que estas figuras se juntassem ao
misterioso funeral parado em frente à Casa da Província, porém,
isso não parecia ser coerente com o clima de triunfo com que eles
acenavam as mãos quando passaram pela soleira da porta e
desapareceram pelo pórtico.
“O que é isto, em nome do Diabo?, resmungou Sir Howe para um
cavalheiro ao lado dele: uma procissão de juízes regicidas do Rei
Charles, o mártir?”
“Estes”, disse o Coronel Joliffe, quebrando o silêncio quase que
pela primeira vez aquela noite ; estes, se eu os interpreto de
maneira correta, são os governadores puritanos, os dirigentes da
velha e original democracia de Massachussets. Endicott, com a
bandeira, da qual ele rasgou o símbolo do domínio e, Winthrop, e
Sir Henry Vane e Dudley, Haynes, Bellingham e Leverett.
“Por que aquele jovem tem uma mancha de sangue no seu rufo?”,
perguntou a senhorita Joliffe.
“Porque, anos depois,” respondeu o avô, “ ele sacrificou a cabeça
mais sábia da Inglaterra no bloqueio, em favor dos princípios da
liberdade.”
“Sua Excelência não irá mandar sair a guarda?”, cochichou Lorde
Percy, que como outros oficiais ingleses tinha agora se juntado
ao General.” Deve haver uma conspiração sob estes atores
mascarados”
“Ora! Não há nada a temer”, despreocupadamente respondeu Sir
William Howe.
“Não pode haver pior traição no caso do que uma zombaria, e isto
é de um certo modo a mais sem graça. Mesmo que fosse mordaz e
amarga, nossa melhor tática seria dar pouca importância. Olhe! Aí
vem mais dessa gente!”
Um outro grupo tinha agora descido pela escadaria. O primeiro era
um respeitável patriarca de barbas brancas, que cuidadosamente
achou seu caminho de descida com a ajuda de um criado.
Atrás dele, com barulho e apressadamente, esticando sua mão
esquelética para a frente, como se quisesse agarrar o ombro do
velho, uma figura alta, parecida com soldado, com um capacete
emplumado de aço, uma brilhante armadura peitoral e carregando
ruidosamente uma longa espada viu-se um homem corpulento. Usava
um traje rico e elegante, mas seu comportamento não era adequado;
seu andar tinha o balanço de um marinheiro e se arriscando a
tropeçar na escada, ele de repente se enfureceu e resmungou uma
praga.
Foi seguido por um personagem do tipo nobre, com peruca de
cabelos cacheados, tais como são representados nos retratos do
tempo da princesa Anne e antes; e o peitilho do seu casaco era
decorado com uma estrela bordada. Enquanto avançava para a porta,
ele fez reverência para o lado
direito e para o esquerdo, com um estilo muito gracioso e
insinuante, mas quando passou pela soleira da porta, ao contrário
dos governadores puritanos anteriores, ele parecia apertar suas
mãos com tristeza.
“Por favor, coopere conosco, caro Doutor Byles”, disse Sir
William Howe.” Que pessoas notáveis são estas?”
“Se Sua Excelência me permite, eles viveram um pouco antes dos
meus dias,” respondeu o Doutor, mas, sem dúvida, nosso amigo o
Coronel, foi carne e unha com eles.”
“Seus rostos vivos, eu nunca os observei, disse em tom sério o
Coronel Joliffe; embora eu tenha falado “cara à cara”com muitos
governadores desta terra ,e deva ainda saudar um outro com minha
benção de homem idoso, antes que eu morra. Mas, nós falamos
dessas figuras: eu atribuo o venerável patriarca a Bradstreet, o
último dos puritanos, que era governador aos 90
anos ou mais ou menos isso. O seguinte é Sir Edmund Andros, um
tirano, como qualquer estudante da Nova Inglaterra lhe dirá; e
por esta razão, o povo mandou-o do seu alto posto para a
masmorra. Depois vem Sir William Phips, pastor, tanoeiro, capitão
do mar e governador Oxalá muitos dos seus compatriotas subissem
tão alto quanto foi a sua origem humilde! Por último, você viu o
gracioso Conde de Bellamont, que nos governou durante o reinado
do Rei William”
“Mas qual é o significado de tudo isso?”, perguntou Lorde Percy.
“Agora, fosse eu um rebelde”, disse meio alto a senhorita Joliffe,
“eu gostaria que os fantasmas desses antigos governadores
tivessem sido convocados para formar a procissão fúnebre da
autoridade real da Nova Inglaterra”
Muitas outras figuras eram agora vistas na curva da escada. A que
estava na frente tinha uma expressão facial pensativa, ansiosa e
um pouco maliciosa, e apesar de seus modos arrogantes, o que
evidentemente eram resultados tanto de um espírito ambicioso
quanto de uma longa permanência em altos postos, ele não parecia
incapaz de curvar-se para alguém superior, senão para si mesmo.
Uns poucos passos atrás vinha um oficial em uniforme escarlate
bordado, de um modelo tão antigo que poderia ter sido usado na
época do Duque de Malborough. Seu nariz tinha um tom avermelhado,
o que junto com o brilho do seus olhos deve tê-lo marcado como um
amante do copo de vinho e da camaradagem. Não suportando
quaisquer lembranças, ele parecia constrangido e inquieto.
Freqüentemente dava uma olhadela ao seu redor, como se apreensivo
de alguma maldade oculta.
Depois vinha um cavalheiro corpulento, usando um casaco de tecido
felpudo, forrado de veludo sedoso; portava no rosto juízo,
astúcia e humor, e embaixo do braço um volume de páginas. Mas,
seu aspecto era o de um homem aborrecido e atormentado além de
toda paciência, e exaurido quase até a morte.
Ele passou apressadamente, seguido de uma pessoa séria, vestindo
um traje completo de veludo roxo, com um bordado muito rico; seu
comportamento teria muita imponência, mas um doloroso ataque de
gota forçou-o a manquejar de degrau em degrau, com contorções no
rosto e no corpo. Quando o Doutor Byles olhou para esta
personagem, ele tremia como se tivesse convulsão, mas continuou a
observá-lo firmemente, até que o cavalheiro gotoso tivesse
atingido a entrada, feito um gesto de dor e desespero e
desaparecido na mais profunda melancolia, onde a música fúnebre o
chamava.
“Governador Belcher!, meu antigo paciente!- em sua verdadeira
forma e vestimenta!”, disse o Doutor Byles com a voz
entrecortada.” Isto é uma brincadeira de mau gosto”!
“Na verdade, uma tolice entediante”, disse Sir William Howe, com
um ar de indiferença. “Mas, quem eram os três que o precederam?”
“Governador Dudley, um astuto político _ no entanto, certa vez,
sua habilidade levou-o à prisão”, respondeu o Coronel Joliffe
“Governador Shute, anteriormente um Coronel no governo de
Malborough, e que aterrorizava as pessoas da província; e o
conhecido Governador Burnet, aquele que a legislatura atormentou
até a febre mortal.”
“Parece-me que eles eram homens infelizes, esses governadores
reais de Massachussets”, observou a senhorita Joliffe. “Oh céus,
como tudo vai ficando mais escuro!”
Era certamente uma verdade que a enorme lâmpada que iluminava a
escadaria, agora queimava mais escura e sombriamente, de maneira
que muitas das personagens que apressadamente desciam pelas
escadas e saiam pela varanda, mais pareciam sombras, do que gente
de carne e osso.
Sir William Howe e seus convidados pararam nas portas dos
aposentos contíguos, observando o desenrolar desse desfile
extraordinário com vários tipos de emoção: raiva, contentamento
ou medo quase desconhecido, mas mesmo assim, com uma curiosidade
aflitiva. As formas, que agora pareciam
apressadas para se juntar à misteriosa procissão, eram
reconhecidas mais por suas formidáveis peculiaridades na
vestimenta ou por suas características nas atitudes, do que por
quaisquer semelhanças físicas perceptíveis com seus protótipos.
Seus rostos invariavelmente permaneciam incógnitos. Ouvia-se
dizer que o Doutor Byles e outros cavalheiros que há tempos
conheciam os sucessivos governadores da província, cochichavam os
nomes como Shirley, Pownall, Sir Francis Bernard, e do famoso
Hutchinson, com isso admitindo que os atores, quem quer que
fossem eles, neste desfile espectral de governadores, tinham
triunfado na arte de retratar personagens reais. Assim que eles
entravam por outra porta, ainda suas imagens ficavam sacudindo
seus braços na escuridão da noite, com uma terrível manifestação
de desgraça. Após a mímica representativa de Hutckinson, veio uma
figura militar segurando na frente do rosto o chapéu de bicos que
ele havia tirado de sua cabeça reduzida à pó,
mas suas dragonas e outros emblemas enfileirados eram de um
oficial graduado, e alguma coisa no seu aspecto, lembrava os
observadores daquele que recentemente tinha sido o dono da Casa
da Província e senhor de toda a terra.
“A imagem refletida de Gage, tão perfeito como se fosse um
espelho”, exclamou Lorde Percy, empalidecendo.
“Não exatamente”, gritou a senhorita Joliffe, rindo
histericamente. “não poderia ser Gage, ou Sir William teria
saudado seu velho companheiro de armas! Talvez ele não deixará
passar o próximo sem ser contestado”
“Esteja certa disso, jovem”, respondeu Sir William Howe, fixando
os olhos com a expressão bem acentuada sobre o rosto impassível
do avô dela.” Demorei bastante para render homenagens de um
anfitrião a estes convidados que estão saindo. O próximo que for
embora, receberá a merecida cortesia.”
Um violento e lúgubre som musical entrava pela porta aberta.
Parecia que a procissão, que pouco a pouco vinha executando suas
escalas, estava agora pronta para seguir, e que este alto som dos
seus trompetes lamentosos e o rufar abafado dos tambores, eram um
chamado para qualquer um apressar o passo. Muitos olhares, por um
impulso irresistível, eram dirigidos para Sir
William Howe, como se fosse ele que tivesse convocado a música
fúnebre para o funeral do poder extinto.
“Vejam! Aí vem o último,” sussurrou a Senhorita Joliffe,
apontando seu dedo trêmulo para a escadaria.
Apareceu uma figura como se estivesse descendo as escadas; o
lugar de onde ela surgiu estava tão escuro, que alguns
espectadores acreditaram que eles tinham visto esta figura humana
se formando de repente no meio da escuridão.
A figura descia com um caminhar altivo e marcial, e alcançando o
degrau mais inferior, foi observado ser um homem alto, usando
botas e uma capa militar, que estava enrolada em volta do rosto,
de modo a tocar a borda saliente de um chapéu de cordão amarrado.
Os traços, no entanto, estavam completamente escondidos. Os
oficiais britânicos, porém achavam que já teriam visto aquela
capa militar antes, e até reconheceram o bordado puído no
colarinho, assim como a bainha dourada de uma espada que saía das
dobras do manto e brilhava como um vívido raio de luz. Deixando
de lado estes fúteis pormenores, havia características no seu
modo de andar e agir que incitavam os convidados maravilhados a
olharem de soslaio para a figura encoberta e para Sir William
Howe, como se lhes agradasse o fato de que seu anfitrião não
tivesse desaparecido de repente.
Com um sinistro ataque de fúria , eles viram o General puxar sua
espada e ir em direção ao personagem da capa, antes que esse
último pisasse no salão.
“Patife, revele-se!”, ele gritou. “Não dê mais um passo!”
O mascarado, sem se esquivar um milímetro da espada que estava
apontada para seu peito, fez uma solene pausa e baixou a pelerine
que cobria o rosto, ainda que não o suficiente para que todos
pudessem vê-lo nem de relance. Mas, Sir William Howe,
evidentemente viu o bastante. A austeridade
de sua fisionomia deu lugar a um olhar de extremo espanto, senão
de horror, à medida que retrocedia alguns passos dele, deixando
sua espada cair no chão. A figura marcial voltou a esconder seus
traços com o manto e passou adiante; porém, na soleira da porta,
com suas costas voltadas para os convidados, ele foi visto bater
o pé e levantar suas mãos cerradas. Depois disso, afirmou-se que
Sir William Howe repetiu aquele mesmo gesto de fúria e tristeza,
quando pela última vez , sendo o último governador real, passou
pelo portal da Casa da Província.
“Ouçam! a procissão está andando”, disse a senhorita Joliffe A
música ia sumindo ao longo da rua, e seus acordes melancólicos se
misturavam com o tocar dos sinos à meia noite no campanário da
Old South, e com o som ruidoso da artilharia, anunciando que o
exército assediante de Washington havia se entrincheirado num
monte mais próximo do que antes. Quando o forte estrondo do
canhão bateu em seus ouvidos, o Coronel Joliffe levantou-se o
mais alto que sua idade permitia, sorrindo para o General
Britânico friamente.
“Sua Excelência investigaria mais a fundo o mistério do
desfile?”, disse ele: “Cuidado com sua cabeça encanecida”, gritou
Sir William Howe, furiosamente, porém com o lábio trêmulo. “Ela
permaneceu tempo demais sobre os ombros de um traidor”.
“Então você deve se apressar em cortá-la fora logo”, respondeu
calmamente o Coronel, “visto que daqui a algumas horas, nem todo
o poder de Sir William Howe, nem do seu mestre, causarão um
desses fios grisalhos cair. O Império da Inglaterra, nesta antiga
província, nesta noite, está no seu último suspiro; enquanto
estou falando um corpo é morto , e me parece que os fantasmas dos
velhos governadores suprem o luto para o seu funeral.
Após estas palavras o Coronel vestiu sua capa apressadamente, e
encaixando o braço de sua neta no seu, retirou-se da última festa
que um soberano inglês tinha promovido na velha província da Baía
de Massachussets. Supôs-se que o Coronel e a jovem guardavam
alguns segredos com respeito ao misterioso baile daquela noite.
Entretanto, isto seria provável, e tal conhecimento nunca foi
confirmado. Os atores em cena sumiram na mais profunda
obscuridade, mais do que aquele grupo de índios selvagens que
jogaram o carregamento de navios de chá no mar e ganharam lugar
na história, mesmo que não deixassem nomes.
Mas, entre outras lendas deste casario, conta a superstição, que
sempre na noite do aniversário da derrota britânica, os fantasmas
dos antigos governadores de Massachussets ainda passam
furtivamente pelos portais da Casa da Província. O último a
passar é uma figura envolta em uma capa militar, levantando suas
mãos cerradas e batendo suas botas de ferro ordinário sobre os
largos degraus de cantaria, num profundo estado de desolação, mas
sem o som de um andar pesado.
Quando o velho senhor terminou de me contar aquelas verdades, eu
respirei fundo e olhei à minha volta, lutando com a melhor
energia da minha imaginação, para dar um toque de romance e
magnitude histórica sobre as realidades da cena, mas minhas
narinas sentiram um cheiro de fumaça de
charuto, nuvens nas quais o narrador emitiu por meio de um
emblema visível, eu suponho, a nebulosa obscuridade do seu conto.
Além do mais minhas lindas fantasias foram lamentavelmente
perturbadas pelo tilintar de uma colher no copo que o Senhor
Thomas Waite preparava uma mistura de ponche e uísque para um
visitante. Nem tão pouco isto acrescentou à pitoresca aparência
das paredes almofadadas o fato da lista de atores do teatro de
Brookline estar pendurada nelas, ao invés do escudo heráldico de
algum governador do passado.
Um dirigente de teatro, sentado junto a uma das janelas, lia um
jornal popular do dia, o Boston Times, que apresentava alguém que
de jeito algum poderia aparecer em nenhuma parte do Times in
Boston, setenta ou cem anos atrás.
No assento próximo à janela, encontrava-se um pacote
cuidadosamente embrulhado em jornal antigo, cuja manchete eu tive
a vã curiosidade de ler: _ “Senhorita Susan Muggins na Casa da
Província”. Uma linda hóspede, sem dúvida.
Em verdade, é um trabalho muito difícil quando queremos dar aos
lugares do passado um toque de magia, o qual o mundo atual e os
dias que estamos vivendo deveriam fazer.
No entanto, enquanto eu olhava a escadaria de cima a baixo, de
onde o desfile dos antigos governadores tinha descido, e enquanto
eu passava pelo venerável portal, onde suas figuras tinham vindo
antes de mim, alegrou-me estar convicto da sensação de respeito.
Assim, atravessando o estreito arco, alguns largos passos me
transportavam para a mais densa multidão da Rua Washington.
Glossário
1. pedra de cantaria (Arquit.) : pedra esquadrejada, usada em
construção.
2. cornija (Arquit.) 1. ornato sobre o friso de uma obra. 2.
molduras sobrepostas formando saliências na parte superior da
porta, lareira,etc.
3. sapatos gotosos : sapatos especiais mais largos e confortáveis
para quem sofria do mal de gota, doença comum na época.
4. rufo: guarnição de pano franzido usada como gola em vestuários
antigos.
5. varapau: pessoa alta e magra ou bambu.
6. whig: partidário da revolução contra a Inglaterra.
JOSIMARA TONELLA-ESTIGARRIBIA formou-se em Letras no
Brasil e Nutrição nos Estados Unidos. Especializou-se em Fonética
Inglesa e Língua Portuguesa. Tem mestrado em Lingüística e
doutorado na área da saúde. Morou nos Estados Unidos, Europa e
Ásia, onde foi professora de português e inglês, tradutora e
intérprete (inglês, francês e italiano).
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