O Baile de Máscaras de Howe

Nathaniel Hawthorne, 1804-1864

Tradução de Josimara Tonella-Estigarribia


Uma tarde, no último verão, enquanto caminhava pela Rua Washington, meu olhar foi atraído por uma tabuleta que se destacava numa estreita passagem em arco, quase oposta à igreja Old South. O letreiro ficava na frente de um imponente edifício, o qual tinha sido chamado de a Velha Casa da Província, mantida por Thomas Waite”. Eu, estava alegre por ser lembrado, então, de um propósito,de grande entretenimento, nutrido há muito tempo, o de visitar e passear pela mansão dos antigos governadores reais de Massachussets; e entrando no arco, que passava pelo meio de várias lojas de tijolinho, alguns passos me levavam do centro agitado da moderna Boston a um pequeno e isolado pátio. Ali, de um lado ficava a fachada quadrangular da Casa da Província de três andares, uma cúpula no alto, e, no topo, um Índio dourado, que se destacava com seu arco tencionado e sua flecha em posição de ataque, como que apontando para o cata-vento do pináculo da Old South. A figura tem mantido essa posição por setenta anos ou mais, desde que o admirável Deacon Downe, um habilidoso entalhador de madeira assim o colocou desde o início, em seu longo posto de sentinela da cidade.

A Casa da Província é feita de tijolos, parecendo ter sido recém pintada com uma camada de tinta clara. Um lance de escada, com degraus de pedras de cantaria* vermelhas, protegido por um corrimão de excêntrico ferro batido, vai desde o pátio até a espaçosa varanda, sobre a qual há uma sacada com uma grade de ferro, de padrão semelhante aquele de baixo. Letras e números como estes -- 16 P. S. 79-- estão fundidos na grade da sacada e, provavelmente mostram a data do edifício, com as iniciais do nome do seu fundador. Uma porta enorme, com dupla abertura, me levou ao hall de entrada, à direita do qual fica o bar.

Neste aposento, eu presumo, os antigos governadores ofereciam suas recepções, com pompas de vice-reis, rodeados por militares, conselheiros, juízes e outros oficiais da Coroa, enquanto toda a lealdade da Província se juntava para prestar-lhes homenagem. Mas, este mesmo aposento, na sua atual condição, não pode vangloriar-se, nem de longe, de tal suntuosidade.
O lambril artesanal é coberto por uma tinta desbotada e adquire uma tonalidade mais escura de um sombreado profundo, no qual a Casa da Província fica escondida pela quadra de tijolos que a cerca desde a Rua Washington.
Jamais um raio de sol entrou neste lugar, a não ser o clarão das tochas festivas extintas desde a época da Revolução. O objeto mais decorativo e venerável é uma cornija* redonda sobre a lareira, com azulejos holandeses de porcelana azul, representando cenas da Escritura; e pelo que sei, a dama de Pownall ou Bernard, deve ter se sentado junto a esta lareira, e contou a seus filhos a história de cada azulejo azul . Um bar, em estilo moderno, contendo muitas vasilhas para decantar, garrafas, caixas de charuto, ensacas de renda com limões , equipado com uma bomba de chope e um gaseificador de água, fica de um lado da sala. Quando entrei, uma pessoa idosa estava estalando seus lábios, com tanto prazer, que fui convencido de que as adegas da Casa da Província ainda armazenavam boas bebidas alcoólicas, embora, sem dúvida, as que os antigos governadores tomavam eram de outra safra. Após ter bebido um port-sangaree, preparado pelas mãos hábeis do Sr. Thomas Waite, implorei para que o tão ilustre sucessor e representante de tantas personagens históricas me guiasse pela sua antiga mansão.

Ele prontamente concordou, mas, para dizer a verdade, fui forçado a usar minha imaginação para descobrir o que era interessante em uma casa que, sem referências históricas, teria parecido simplesmente uma taberna, como é freqüentemente lembrado pelas mais respeitáveis pessoas da cidade e, por antiquados senhores do interior.
Os quartos, que provavelmente eram espaçosos em outros tempos, foram agora desfeitos e subdivididos em lugares pequenos e apertados , comportando cada um uma estreita cama e uma penteadeira, para um locatário solteiro.
A escadaria principal, no entanto, dever ser descrita, sem muita hipérbole, como um ponto de grandiosidade e magnificência. Sua forma de caracol começa no meio da sala; seus largos degraus terminam em uma plataforma quadrada, de onde se sobe em direção à cúpula.
Um corrimão entalhado, recentemente pintado nos degraus inferiores, mas ficando mais sujo conforme subíamos, ladeia a escadaria, com seus pilares fantasticamente retorcidos e entrelaçados de alto a baixo.
No alto dessas escadas ficavam as botas militares, ou talvez sapatos gotosos*, que muitos dos governadores calçaram, para se chegar até a cúpula, o que lhes concedia uma vista bem ampla da metrópole e de toda a redondeza.
A cúpula é um octágono, com várias janelas e uma porta que dá acesso ao terraço. Eu me deleitava imaginando, que, deste lugar, Gage viu sua desastrosa vitória de Bunker Hill (pelo menos um dos três montes interferiu) e, de onde Howe notou a aproximação do exército de Washington que cercava a cidade; embora as edificações construídas na vizinhança tivessem fechado quase todas as lojas, a torre da Old South, que parecia estar a um palmo de alcance, foi preservada. Descendo da cúpula, parei no sótão a fim de observar a maciça estrutura de carvalho branco, muito mais pesada do que das casas mais modernas, e desse modo parecendo uma antiga carcaça em desuso. As paredes de tijolos, cujos materiais foram importados da Holanda, e todo o madeiramento, ainda continuam em perfeito estado; o piso, porém, e outras partes internas estão bem deterioradas; pensa-se em destruir tudo e construir uma nova casa, usando a estrutura antiga e a mesma obra de alvenaria.Dentre outras conveniências do edifício em questão, meu anfitrião mencionou que qualquer abalo ou deslocamento de terra seria capaz de sacudir a poeira velha do teto de um quarto até o chão daquele abaixo dele.

Passando por uma enorme porta frontal chegamos à sacada, de onde, nos velhos tempos, era costume , sem dúvida, o representante do Rei mostrar-se para o povo fiel, retribuindo seus hurras e chapéus atirados ao alto, com flexões majestosas de sua nobre pessoa. Naquela época, a frente da Casa da Província ficava voltada para a rua; esta parte agora está ocupada por um conjunto de lojas de tijolinho, assim como o pátio atual foi coberto por canteiros de grama, obscurecido por árvores e confinado por uma cerca de ferro batido.
Hoje o velho edifício aristocrático esconde seu visual gasto pelo tempo, atrás de uma pretensiosa casa moderna. Numa das janelas de trás, observei algumas belas moças costurando, conversando e rindo, dando de vez em quando uma olhadinha para a sacada.
Descendo dali, fomos novamente para o bar, onde o senhor idoso mencionado acima e cujo estalar dos lábios tão bem descreviam a boa bebida do Sr. Waite, ainda descansava em sua cadeira. Parecia ser, um hóspede ou, pelo menos um visitante assíduo da casa, que supostamente deveria ter sua conta regular no bar, seu assento junto à janela descerrada no verão, e seu canto determinado junto ao fogo, no inverno. Como possuía um aspecto sociável, arrisquei dirigir-lhe a palavra, fazendo uma observação, calculada para que ele manifestasse suas reminiscências históricas, se é que existissem algumas em sua mente. Foi gratificante descobrir que entre memória e tradição, o velho senhor realmente possuía algumas fofocas muito divertidas sobre a Casa da Província.
A parte da conversa dele que mais me interessou foi o resumo da lenda que se segue. Ele me declarou que quem a contou, com uma ou duas mudanças, foi uma testemunha ocular, mas esta dedução, aliada ao tempo decorrido, com certeza deu oportunidades para muitas variações da narrativa; de modo que,mesmo desesperançoso da verdade literal e absoluta, não hesitei em fazer mudanças adicionais que pareciam contribuir para o proveito e deleite do leitor.

Em uma das festas dadas na Casa da Província, durante a última fase do cerco a Boston, aconteceu um episódio que nunca foi satisfatoriamente explicado.
Os oficiais do exército inglês e a pequena nobreza leal, muitos dos quais tinham sido recolhidos da cidade sitiada, foram convidados para um baile de máscaras, pois a política de Sir Howe era ocultar as aflições e perigos da época e o aspecto desesperador do cerco, sob uma ostentação de festejos. O espetáculo desta noite, se os membros mais velhos da Corte provincial pudessem acreditar, foi o acontecimento mais alegre e deslumbrante já ocorrido na história do governo. Os aposentos, esplendidamente iluminados, ficaram repletos de pessoas que pareciam ter saído das telas escuras de retratos históricos, ou terem partido das mágicas páginas de um romance, ou pelo menos, terem voado para cá de um dos teatros de Londres, sem trocarem os trajes. Cavaleiros de aço da época da conquista, diplomatas barbados da Rainha Elizabete, e senhoras da corte com golas rufadas*, misturavam-se com personagens da comédia, tais como um multicolorido Bobo da Corte, chacoalhando seu gorro e seus sininhos; um Bufão, quase tão provocativo de risadas quanto o seu protótipo, e um Dom Quixote com um varapau* como lança e uma tampa de panela como armadura.

Mas a principal algazarra era provocada por um grupo de indivíduos ridiculamente vestidos com uniformes militares antigos, os quais pareciam ter sido adquiridos em uma feira de objetos usados, ou roubados de um esconderijo de roupas perdidas dos dois exércitos franceses e ingleses. Partes daqueles trajes provavelmente devem ter sido usadas durante o cerco militar de Louisburg, e os casacos de corte mais modernos devem ter sido alugados e destruídos por espada, bala ou baioneta, tempos atrás na vitória de Wolfe. Uma dessas preciosidades, um tipo alto, esguio, erguendo uma espada enferrujada de imensa longi-tude, pretendia ser nada menos do que a personagem do General George Washington e os outros oficiais importantes do exército americano, tais como Gates, Lee, Putman, Schuyler, Ward e Heath, eram representados por espantalhos semelhantes.Uma entrevista entre os rebeldes e o comandante supremo britânico, no estilo herói-cômico, foi recebida com muitos aplausos, sendo que os som mais alto vinha dos legalistas da colônia. Havia um, entretanto, que à distância, olhava estas palhaçadas com severidade e desprezo e, imediatamente franzia as sobrancelhas e sorria com tristeza.

Era um homem idoso, que no passado ocupara um alto posto e de grande reputação na Província, e que tinha sido um soldado muito famoso no seu tempo. Para a surpresa de todos, a tal pessoa, de conhecidos princípios whig* como o Coronel Joliffe, estava velho demais para participar do tal baile, e que deveria ter ficado em Boston durante o cerco e, especialmente que ele deveria concordar em mostrar-se na mansão do Sr. William Howe. Mas, de lá ele veio, com uma formosa neta debaixo do braço; e lá, entre toda a alegria e bufonaria, manteve sua velha figura austera, o caráter mais sofrido do baile, pois que ele representava tão bem o espírito de sua pátria. Os outros convidados afirmaram que, a carranca puritana do Coronel Joliffe formava uma sombra negra em torno dele, embora, apesar de sua sombria influência, a alegria deles começava a brilhar mais intensamente, como (uma comparação de mau agouro) o trêmulo de uma lâmpada prestes a se apagar. Meia hora atrás, onze batidas ressoavam no relógio da Old South, quando um rumor circulou no grupo: um novo espetáculo ou concurso estava para ser exibido, o que completaria as esplêndidas
festividades da noite perfeitamente.

“Que nova brincadeira teria Sua Excelência nas mãos?” perguntava o Reverendo Mather Byles, cujos escrúpulos presbiterianos não o impediram de se divertir. “Confie em mim, senhor, eu já ri mais do que meu traje me permite da sua confabulação homérica com o malandro esfarrapado General dos
rebeldes.Mais uma dessas ruidosas alegrias, e eu terei de me desfazer da minha peruca e faixa eclesiásticas.”

“Nem tanto, caro Doutor Byles, contestou Sir William Howe. Se hilariedade fosse crime, o senhor jamais teria conseguido seu doutorado em Teologia. Quanto a essa nova loucura, não sei nada mais do que o senhor; talvez nem tanto. Agora, honestamente, Doutor, não teria o senhor incitado os cérebros ajuizados de alguns de seus compatriotas a representar uma cena no nosso baile de máscara?”

“Talvez, maliciosamente comentou a neta do Coronel Joliffe, cujo alto entusi-asmo tem sido ferido pelos inúmeros insultos contra a Nova Inglaterra; talvez nós estejamos prestes a ter um baile de figuras alegóricas.
VITÓRIA, com troféus desde Lexington até Bunker-Hill. ABUNDÂNCIA, com sua superabundante cornucópia, para simbolizar a atual fartura desta boa cidade e, GLÓRIA, com uma coroa de flores para a fronte de Sua Excelência.

Sir Howe sorriu após essas palavras, as quais ele poderia ter respondido com um de seus mais perversos ares de censura, tivessem eles sido expressos por lábios que usassem barba.. Ele foi poupado da necessidade de um revide por uma simples interrupção.

Um som musical foi ouvido do lado de fora da casa, como se viesse de uma orquestra inteira de instrumentos militares que, parados na rua, tocavam não melodias festivas próprias à ocasião, mas uma lenta marcha fúnebre.
Os tambores pareciam desordenados e os trompetes emanavam um sopro lamentoso, o que imediatamente silenciou a alegria ruidosa dos ouvintes, deixando todos maravilhados e alguns apreensivos. Ocorreu a muitos a idéia de que ou um funeral de alguém muito famoso tivesse parado em frente à Casa da Província, ou que um defunto, em um caixão coberto de veludo muito bem decorado, estava prestes a se levantar do portal. Após escutar um momento,Sir William Howe perguntou com voz severa ao líder dos músicos quem havia previamente animado as festividades com melodias leves e alegres. O homem era o tambor-mor de um dos regimentos britânicos.

“Dighton”, pergunta o General, “ o que significa esta palhaçada? Ordene que sua banda silencie aquela marcha fúnebre, ou, palavra de honra, que eles terão motivo suficiente para suas tristes músicas! Silencie-a, homem!”

”Por favor, Vossa Senhoria, respondeu o baterista-mor, cuja face avermelhada tinha perdido toda a sua cor, a culpa não é minha. Eu e minha banda estamos todos juntos aqui, e eu me pergunto se existe algum homem entre nós que possa tocar aquela marcha sem a partitura. Eu só a ouvi uma vez, antes desta, e foi no funeral de sua Majestade, o falecido Rei George II.”

“Bem, bem”! disse Sir William Howe, restabelecendo a compostura “é o prelúdio de alguma excentricidade do baile de máscara. Deixe para lá”

Uma figura se apresentava agora, mas dentre as várias fantásticas máscaras que haviam se dispersado pelos aposentos, ninguém podia dizer precisamente de onde ela vinha. Era um homem com uma vestimenta antiga, de sarja preta, com aparência de camareiro ou mordomo da casa de um nobre, ou um inglês proprietário de terras. Esta personagem avançou para o lado exterior da porta da mansão e, escancarando as duas partes, recuou um pouco para o lado, olhou para trás, em direção à escadaria, como se esperasse alguém descer. Ao mesmo tempo, a música na rua anunciava mensagens altas e tristes.
Os olhos de Sir William Howe e seus convidados estavam dirigidos para a escadaria, e de lá , na parte mais alta que se distinguia de baixo, apareceram várias personagens descendo em direção à porta.
O primeiro era um homem de aspecto horrível, usando um chapéu de formato de campanário e um solidéu embaixo dele; um capote escuro e enormes botas pregueadas, que vinham até metade de suas pernas. Embaixo do braço tinha uma bandeira enrolada, que parecia ser a bandeira da Inglaterra, mas estranhamente separada e rasgada. Ele tinha uma espada na sua mão direita, e com a esquerda, segurava uma Bíblia.
A outra figura tinha um aspecto mais suave, também com ares de dignidade.
Portava um vasto rufo sobre o qual caía uma barba, uma capa de veludo barrado, um colete e calça estreita de cetim preto. Carregava em sua mão um manuscrito enrolado.
Bem atrás desses dois, vinha um jovem de comportamento e feições muito impressionantes, com um profundo, contemplativo e leve entusiasmo no olhar.
Seus trajes, assim como a de seus predecessores, eram de uma moda antiga e havia uma mancha de sangue em seu rufo. No mesmo grupo com esses, havia outros três ou quatro, todos homens dignos e de evidente autoridade e exibiam-se como artistas acostumados a olhares atentos da multidão.
Foi idéia dos espectadores, que estas figuras se juntassem ao misterioso funeral parado em frente à Casa da Província, porém, isso não parecia ser coerente com o clima de triunfo com que eles acenavam as mãos quando passaram pela soleira da porta e desapareceram pelo pórtico.

“O que é isto, em nome do Diabo?, resmungou Sir Howe para um cavalheiro ao lado dele: uma procissão de juízes regicidas do Rei Charles, o mártir?”

“Estes”, disse o Coronel Joliffe, quebrando o silêncio quase que pela primeira vez aquela noite ; estes, se eu os interpreto de maneira correta, são os governadores puritanos, os dirigentes da velha e original democracia de Massachussets. Endicott, com a bandeira, da qual ele rasgou o símbolo do domínio e, Winthrop, e Sir Henry Vane e Dudley, Haynes, Bellingham e Leverett.

“Por que aquele jovem tem uma mancha de sangue no seu rufo?”, perguntou a senhorita Joliffe.
“Porque, anos depois,” respondeu o avô, “ ele sacrificou a cabeça mais sábia da Inglaterra no bloqueio, em favor dos princípios da liberdade.”

“Sua Excelência não irá mandar sair a guarda?”, cochichou Lorde Percy, que como outros oficiais ingleses tinha agora se juntado ao General.” Deve haver uma conspiração sob estes atores mascarados”

“Ora! Não há nada a temer”, despreocupadamente respondeu Sir William Howe.
“Não pode haver pior traição no caso do que uma zombaria, e isto é de um certo modo a mais sem graça. Mesmo que fosse mordaz e amarga, nossa melhor tática seria dar pouca importância. Olhe! Aí vem mais dessa gente!”

Um outro grupo tinha agora descido pela escadaria. O primeiro era um respeitável patriarca de barbas brancas, que cuidadosamente achou seu caminho de descida com a ajuda de um criado.
Atrás dele, com barulho e apressadamente, esticando sua mão esquelética para a frente, como se quisesse agarrar o ombro do velho, uma figura alta, parecida com soldado, com um capacete emplumado de aço, uma brilhante armadura peitoral e carregando ruidosamente uma longa espada viu-se um homem corpulento. Usava um traje rico e elegante, mas seu comportamento não era adequado; seu andar tinha o balanço de um marinheiro e se arriscando a tropeçar na escada, ele de repente se enfureceu e resmungou uma praga.
Foi seguido por um personagem do tipo nobre, com peruca de cabelos cacheados, tais como são representados nos retratos do tempo da princesa Anne e antes; e o peitilho do seu casaco era decorado com uma estrela bordada. Enquanto avançava para a porta, ele fez reverência para o lado
direito e para o esquerdo, com um estilo muito gracioso e insinuante, mas quando passou pela soleira da porta, ao contrário dos governadores puritanos anteriores, ele parecia apertar suas mãos com tristeza.

“Por favor, coopere conosco, caro Doutor Byles”, disse Sir William Howe.” Que pessoas notáveis são estas?”

“Se Sua Excelência me permite, eles viveram um pouco antes dos meus dias,” respondeu o Doutor, mas, sem dúvida, nosso amigo o Coronel, foi carne e unha com eles.”

“Seus rostos vivos, eu nunca os observei, disse em tom sério o Coronel Joliffe; embora eu tenha falado “cara à cara”com muitos governadores desta terra ,e deva ainda saudar um outro com minha benção de homem idoso, antes que eu morra. Mas, nós falamos dessas figuras: eu atribuo o venerável patriarca a Bradstreet, o último dos puritanos, que era governador aos 90
anos ou mais ou menos isso. O seguinte é Sir Edmund Andros, um tirano, como qualquer estudante da Nova Inglaterra lhe dirá; e por esta razão, o povo mandou-o do seu alto posto para a masmorra. Depois vem Sir William Phips, pastor, tanoeiro, capitão do mar e governador Oxalá muitos dos seus compatriotas subissem tão alto quanto foi a sua origem humilde! Por último, você viu o gracioso Conde de Bellamont, que nos governou durante o reinado do Rei William”

“Mas qual é o significado de tudo isso?”, perguntou Lorde Percy.

“Agora, fosse eu um rebelde”, disse meio alto a senhorita Joliffe, “eu gostaria que os fantasmas desses antigos governadores tivessem sido convocados para formar a procissão fúnebre da autoridade real da Nova Inglaterra”

Muitas outras figuras eram agora vistas na curva da escada. A que estava na frente tinha uma expressão facial pensativa, ansiosa e um pouco maliciosa, e apesar de seus modos arrogantes, o que evidentemente eram resultados tanto de um espírito ambicioso quanto de uma longa permanência em altos postos, ele não parecia incapaz de curvar-se para alguém superior, senão para si mesmo. Uns poucos passos atrás vinha um oficial em uniforme escarlate bordado, de um modelo tão antigo que poderia ter sido usado na época do Duque de Malborough. Seu nariz tinha um tom avermelhado, o que junto com o brilho do seus olhos deve tê-lo marcado como um amante do copo de vinho e da camaradagem. Não suportando quaisquer lembranças, ele parecia constrangido e inquieto.
Freqüentemente dava uma olhadela ao seu redor, como se apreensivo de alguma maldade oculta.

Depois vinha um cavalheiro corpulento, usando um casaco de tecido felpudo, forrado de veludo sedoso; portava no rosto juízo, astúcia e humor, e embaixo do braço um volume de páginas. Mas, seu aspecto era o de um homem aborrecido e atormentado além de toda paciência, e exaurido quase até a morte.
Ele passou apressadamente, seguido de uma pessoa séria, vestindo um traje completo de veludo roxo, com um bordado muito rico; seu comportamento teria muita imponência, mas um doloroso ataque de gota forçou-o a manquejar de degrau em degrau, com contorções no rosto e no corpo. Quando o Doutor Byles olhou para esta personagem, ele tremia como se tivesse convulsão, mas continuou a observá-lo firmemente, até que o cavalheiro gotoso tivesse atingido a entrada, feito um gesto de dor e desespero e desaparecido na mais profunda melancolia, onde a música fúnebre o chamava.

“Governador Belcher!, meu antigo paciente!- em sua verdadeira forma e vestimenta!”, disse o Doutor Byles com a voz entrecortada.” Isto é uma brincadeira de mau gosto”!

“Na verdade, uma tolice entediante”, disse Sir William Howe, com um ar de indiferença. “Mas, quem eram os três que o precederam?” “Governador Dudley, um astuto político _ no entanto, certa vez, sua habilidade levou-o à prisão”, respondeu o Coronel Joliffe “Governador Shute, anteriormente um Coronel no governo de Malborough, e que aterrorizava as pessoas da província; e o conhecido Governador Burnet, aquele que a legislatura atormentou até a febre mortal.”

“Parece-me que eles eram homens infelizes, esses governadores reais de Massachussets”, observou a senhorita Joliffe. “Oh céus, como tudo vai ficando mais escuro!”

Era certamente uma verdade que a enorme lâmpada que iluminava a escadaria, agora queimava mais escura e sombriamente, de maneira que muitas das personagens que apressadamente desciam pelas escadas e saiam pela varanda, mais pareciam sombras, do que gente de carne e osso.
Sir William Howe e seus convidados pararam nas portas dos aposentos contíguos, observando o desenrolar desse desfile extraordinário com vários tipos de emoção: raiva, contentamento ou medo quase desconhecido, mas mesmo assim, com uma curiosidade aflitiva. As formas, que agora pareciam
apressadas para se juntar à misteriosa procissão, eram reconhecidas mais por suas formidáveis peculiaridades na vestimenta ou por suas características nas atitudes, do que por quaisquer semelhanças físicas perceptíveis com seus protótipos.
Seus rostos invariavelmente permaneciam incógnitos. Ouvia-se dizer que o Doutor Byles e outros cavalheiros que há tempos conheciam os sucessivos governadores da província, cochichavam os nomes como Shirley, Pownall, Sir Francis Bernard, e do famoso Hutchinson, com isso admitindo que os atores, quem quer que fossem eles, neste desfile espectral de governadores, tinham
triunfado na arte de retratar personagens reais. Assim que eles entravam por outra porta, ainda suas imagens ficavam sacudindo seus braços na escuridão da noite, com uma terrível manifestação de desgraça. Após a mímica representativa de Hutckinson, veio uma figura militar segurando na frente do rosto o chapéu de bicos que ele havia tirado de sua cabeça reduzida à pó,
mas suas dragonas e outros emblemas enfileirados eram de um oficial graduado, e alguma coisa no seu aspecto, lembrava os observadores daquele que recentemente tinha sido o dono da Casa da Província e senhor de toda a terra.

“A imagem refletida de Gage, tão perfeito como se fosse um espelho”, exclamou Lorde Percy, empalidecendo.

“Não exatamente”, gritou a senhorita Joliffe, rindo histericamente. “não poderia ser Gage, ou Sir William teria saudado seu velho companheiro de armas! Talvez ele não deixará passar o próximo sem ser contestado”

“Esteja certa disso, jovem”, respondeu Sir William Howe, fixando os olhos com a expressão bem acentuada sobre o rosto impassível do avô dela.” Demorei bastante para render homenagens de um anfitrião a estes convidados que estão saindo. O próximo que for embora, receberá a merecida cortesia.”

Um violento e lúgubre som musical entrava pela porta aberta. Parecia que a procissão, que pouco a pouco vinha executando suas escalas, estava agora pronta para seguir, e que este alto som dos seus trompetes lamentosos e o rufar abafado dos tambores, eram um chamado para qualquer um apressar o passo. Muitos olhares, por um impulso irresistível, eram dirigidos para Sir
William Howe, como se fosse ele que tivesse convocado a música fúnebre para o funeral do poder extinto.

“Vejam! Aí vem o último,” sussurrou a Senhorita Joliffe, apontando seu dedo trêmulo para a escadaria.

Apareceu uma figura como se estivesse descendo as escadas; o lugar de onde ela surgiu estava tão escuro, que alguns espectadores acreditaram que eles tinham visto esta figura humana se formando de repente no meio da escuridão.
A figura descia com um caminhar altivo e marcial, e alcançando o degrau mais inferior, foi observado ser um homem alto, usando botas e uma capa militar, que estava enrolada em volta do rosto, de modo a tocar a borda saliente de um chapéu de cordão amarrado. Os traços, no entanto, estavam completamente escondidos. Os oficiais britânicos, porém achavam que já teriam visto aquela capa militar antes, e até reconheceram o bordado puído no colarinho, assim como a bainha dourada de uma espada que saía das dobras do manto e brilhava como um vívido raio de luz. Deixando de lado estes fúteis pormenores, havia características no seu modo de andar e agir que incitavam os convidados maravilhados a olharem de soslaio para a figura encoberta e para Sir William Howe, como se lhes agradasse o fato de que seu anfitrião não tivesse desaparecido de repente.

Com um sinistro ataque de fúria , eles viram o General puxar sua espada e ir em direção ao personagem da capa, antes que esse último pisasse no salão.
“Patife, revele-se!”, ele gritou. “Não dê mais um passo!”

O mascarado, sem se esquivar um milímetro da espada que estava apontada para seu peito, fez uma solene pausa e baixou a pelerine que cobria o rosto, ainda que não o suficiente para que todos pudessem vê-lo nem de relance. Mas, Sir William Howe, evidentemente viu o bastante. A austeridade
de sua fisionomia deu lugar a um olhar de extremo espanto, senão de horror, à medida que retrocedia alguns passos dele, deixando sua espada cair no chão. A figura marcial voltou a esconder seus traços com o manto e passou adiante; porém, na soleira da porta, com suas costas voltadas para os convidados, ele foi visto bater o pé e levantar suas mãos cerradas. Depois disso, afirmou-se que Sir William Howe repetiu aquele mesmo gesto de fúria e tristeza, quando pela última vez , sendo o último governador real, passou pelo portal da Casa da Província.

“Ouçam! a procissão está andando”, disse a senhorita Joliffe A música ia sumindo ao longo da rua, e seus acordes melancólicos se misturavam com o tocar dos sinos à meia noite no campanário da Old South, e com o som ruidoso da artilharia, anunciando que o exército assediante de Washington havia se entrincheirado num monte mais próximo do que antes. Quando o forte estrondo do canhão bateu em seus ouvidos, o Coronel Joliffe levantou-se o mais alto que sua idade permitia, sorrindo para o General Britânico friamente.

“Sua Excelência investigaria mais a fundo o mistério do desfile?”, disse ele: “Cuidado com sua cabeça encanecida”, gritou Sir William Howe, furiosamente, porém com o lábio trêmulo. “Ela permaneceu tempo demais sobre os ombros de um traidor”.
“Então você deve se apressar em cortá-la fora logo”, respondeu calmamente o Coronel, “visto que daqui a algumas horas, nem todo o poder de Sir William Howe, nem do seu mestre, causarão um desses fios grisalhos cair. O Império da Inglaterra, nesta antiga província, nesta noite, está no seu último suspiro; enquanto estou falando um corpo é morto , e me parece que os fantasmas dos velhos governadores suprem o luto para o seu funeral.
Após estas palavras o Coronel vestiu sua capa apressadamente, e encaixando o braço de sua neta no seu, retirou-se da última festa que um soberano inglês tinha promovido na velha província da Baía de Massachussets. Supôs-se que o Coronel e a jovem guardavam alguns segredos com respeito ao misterioso baile daquela noite. Entretanto, isto seria provável, e tal conhecimento nunca foi
confirmado. Os atores em cena sumiram na mais profunda obscuridade, mais do que aquele grupo de índios selvagens que jogaram o carregamento de navios de chá no mar e ganharam lugar na história, mesmo que não deixassem nomes.
Mas, entre outras lendas deste casario, conta a superstição, que sempre na noite do aniversário da derrota britânica, os fantasmas dos antigos governadores de Massachussets ainda passam furtivamente pelos portais da Casa da Província. O último a passar é uma figura envolta em uma capa militar, levantando suas mãos cerradas e batendo suas botas de ferro ordinário sobre os largos degraus de cantaria, num profundo estado de desolação, mas sem o som de um andar pesado.

Quando o velho senhor terminou de me contar aquelas verdades, eu respirei fundo e olhei à minha volta, lutando com a melhor energia da minha imaginação, para dar um toque de romance e magnitude histórica sobre as realidades da cena, mas minhas narinas sentiram um cheiro de fumaça de
charuto, nuvens nas quais o narrador emitiu por meio de um emblema visível, eu suponho, a nebulosa obscuridade do seu conto. Além do mais minhas lindas fantasias foram lamentavelmente perturbadas pelo tilintar de uma colher no copo que o Senhor Thomas Waite preparava uma mistura de ponche e uísque para um visitante. Nem tão pouco isto acrescentou à pitoresca aparência das paredes almofadadas o fato da lista de atores do teatro de Brookline estar pendurada nelas, ao invés do escudo heráldico de algum governador do passado.
Um dirigente de teatro, sentado junto a uma das janelas, lia um jornal popular do dia, o Boston Times, que apresentava alguém que de jeito algum poderia aparecer em nenhuma parte do Times in Boston, setenta ou cem anos atrás.
No assento próximo à janela, encontrava-se um pacote cuidadosamente embrulhado em jornal antigo, cuja manchete eu tive a vã curiosidade de ler: _ “Senhorita Susan Muggins na Casa da Província”. Uma linda hóspede, sem dúvida.
Em verdade, é um trabalho muito difícil quando queremos dar aos lugares do passado um toque de magia, o qual o mundo atual e os dias que estamos vivendo deveriam fazer.
No entanto, enquanto eu olhava a escadaria de cima a baixo, de onde o desfile dos antigos governadores tinha descido, e enquanto eu passava pelo venerável portal, onde suas figuras tinham vindo antes de mim, alegrou-me estar convicto da sensação de respeito.
Assim, atravessando o estreito arco, alguns largos passos me transportavam para a mais densa multidão da Rua Washington.

Glossário
1. pedra de cantaria (Arquit.) : pedra esquadrejada, usada em construção.
2. cornija (Arquit.) 1. ornato sobre o friso de uma obra. 2. molduras sobrepostas formando saliências na parte superior da porta, lareira,etc.
3. sapatos gotosos : sapatos especiais mais largos e confortáveis para quem sofria do mal de gota, doença comum na época.
4. rufo: guarnição de pano franzido usada como gola em vestuários antigos.
5. varapau: pessoa alta e magra ou bambu.
6. whig: partidário da revolução contra a Inglaterra.


JOSIMARA TONELLA-ESTIGARRIBIA formou-se em Letras no Brasil e Nutrição nos Estados Unidos. Especializou-se em Fonética Inglesa e Língua Portuguesa. Tem mestrado em Lingüística e doutorado na área da saúde. Morou nos Estados Unidos, Europa e Ásia, onde foi professora de português e inglês, tradutora e intérprete (inglês, francês e italiano).