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A coleira no pescoço
Nenhum dos dois conseguia disfarçar os danos da velhice, que
suportavam em silenciosas e mútuas acusações. O velho parecia
fazer um esforço muito grande para puxar o cão ladeira acima. A
sola seca de seus sapatos esfolava o ladrilho da calçada
arrancando-lhe um ruído ríspido, áspero, como de alguma coisa que
se arrasta, e isso irritava o cão, cuja cabeça se mantinha o
tempo todo virada para fora, o focinho apontando para o lado da
rua. Seu corpo todo era uma recusa tensa e escura e ele tinha o
olhar aborrecido de quem não pode esperar mais nada da vida além
daquela coleira no pescoço, na ponta de uma corrente.
Uma língua de vento gelado passou rente ao chão, levantando em
revoada, vida efêmera, folhas mortas de magnólia e de plátano,
que se misturavam a outros detritos da rua. Com seu grosso boné
de lã na mão direita, o velho cobriu o rosto e pensou que uma das
maneiras de se morrer pode ser assim mesmo: sufocado pelo cheiro
da própria cabeça, um cheiro de suores noturnos e pesadelos.
A caminhada estava suspensa à espera de que o vento fosse brincar
em outras bandas da cidade, em alguma rua onde, a uma hora
daquelas da manhã, ninguém cumprisse o destino de caminhar.
Enquanto isso, parado sobre as pernas muito abertas, o velho
suportava paciente as agulhadas da chuva de areia suspensa no ar.
O cão, de cabeça virada para a rua, permaneceu de olhos fechados,
espremendo muito as pálpebras em proteção, aborrecido com aquele
passeio cuja significação extraviara-se nos anos de sua
juventude. Sacudiu a cabeça, abanando suas orelhas dependuradas,
frouxas, porque era esse o modo de expressar sua recusa. Não
olhava para a frente. Um rancor muito antigo impedia que os dois
se encarassem. Mesmo por trás, e sem a vigilância daqueles dois
olhos lacrimosos presos em suas órbitas avermelhadas, a figura do
velho causava-lhe repugnância. Por isso o pescoço torto, a cabeça
virada para a rua: o lado de fora.
A manhã passava sozinha, sem auxílio nenhum do sol, que se
mantinha escondido entre nuvens grossas e leitosas. O vento
amainou e o boné voltou para o alto da cabeça. Sem proferir uma
só palavra, o velho andou coisa de três passos. Outra vez aquele
ruído áspero esfolando os ouvidos sensíveis do cão. Preso à ponta
da corrente esticada, ele apenas manteve o equilíbrio: suas patas
tentavam cravar as unhas no ladrilho do passeio, mas era uma
tentativa absurda. Moveu-se o suficiente para não cair. O cão
sabia por experiência que estava preso à ponta de uma corrente
esticada. Muitas vezes a vira, algumas vezes experimentara seus
dentes nos elos de ferro. Há muito, entretanto, tinha desistido
da liberdade. Ultimamente intuíra a existência de correntes menos
visíveis e de elos sem forma definida, mas quase todas muito mais
rígidas do que os dentes de um cão. Parado na calçada, pernas
trêmulas, ele pressentiu a proximidade da magnólia. A idade não
lhe extinguira o faro. Havia, naquele tronco, imensa variedade de
cheiros sobrepostos demarcando inutilmente o sítio. Gesto
atávico, há muito tempo destituído de qualquer significado. Preso
à corrente, nem essa ilusão de poderio lhe era concedida.
A rua subia a ladeira encolhida entre casas de janelas fechadas e
algumas árvores de folhas amarelas. Tosses e vozes mal chegavam
às venezianas: a cidade recusava o dia. Além do velho e do cão,
arrastando-se com dificuldade pela calçada, bem poucos
transeuntes, de cabeça baixa, enfrentavam o frio que ainda
restava da noite longa.
Cada um tem que cumprir seu itinerário na vida, pensava o velho
com o braço esquerdo esticado para trás, puxando seu fardo. Há
muito, entretanto, desistira de olhar-se no espelho.
Mesmo sendo um fragor conhecido, repetido a cada manhã, o cão
encolheu-se um pouco, em proteção, quando o velho levou com a mão
direita o lenço ao nariz. As orelhas pretas e caídas não se
moveram. Além do susto já fraco, de tão cotidiano, suas patas
malferidas na superfície áspera do passeio deveriam ser debitadas
também ao companheiro. O cão piscou seu desconforto à passagem de
um carro que desapareceu na primeira esquina, então foi arrastado
por mais três passos.
A dor no ombro esquerdo só poderia ter como causa a teimosia
daquele maldito cão, que nunca aceitava sem resistência as
caminhadas matinais. O médico dissera-lhe que era desgaste da
idade, a dor nos joelhos. Não havia razão para duvidar, mas o
próprio desgaste teria sido menor se o companheiro não fosse
aquele peso a ser arrastado.
As pernas secas do velho, com seus joelhos gastos, mediam o
passeio menos de quarenta centímetros a cada vez em que se
moviam. Compasso hesitante, de articulações enferrujadas, que
pouco se abria. Em sua concentração, havia indícios de uma
desconfiança antiga, principalmente quando seus pés encontraram
as arestas duras de alguns ladrilhos salientes, empurrados para
cima por raízes grossas que se escondiam debaixo da terra. Depois
de avançar meia dúzia de metros, o velho parou, suado, a mão
direita espalmada contra uma parede cinza, e então olhou para
trás. A progressão existia, realmente, ou não passava tudo de
alguma ilusão? Atrás ou na frente, o que via não eram pontos a
compor um ponto maior, o todo estático? Sempre aquelas dúvidas a
importuná-lo. O cão, pelo menos, o cão estava lá, no fim da
corrente, com a cauda escondida entre as pernas retesadas e
trêmulas, mergulhado em seu peso e seu pretume. Ir até o cão,
seria cobrir uma distância. Esse foi um pensamento indesejado,
pois jamais faria isso, mas que
lhe concedeu a paz de que tinha necessidade.
Nos últimos tempos chegaram a passar dias, semanas, às vezes, sem
a troca do menor gesto que os ligasse. E isso foi acontecendo aos
poucos, sem que percebessem. O latido rouco do cão já não tinha
qualquer significado, e o ruído desnecessário exasperava o velho,
que detinha o poder do castigo. Então espancava o companheiro,
sem dó, para depois ralhar com ele, exigindo que ficasse quieto.
O cão se encolhia todo e soltava uma espécie de gemido agudo pela
boca fechada. Modelavam-se os dois, um pelas rabugices do outro.
Por fim, aprenderam a engolir o próprio rancor em silêncio.
Quando o Sol por fim se mostrou entre galhos e platibandas, o
velho e seu cão já haviam dobrado a mesma esquina por onde o
carro tinha sumido. Primeiro sumiu o velho com sua altura
ameaçada de desabar, depois foi a vez do cão, com a cabeça virada
para trás. Os dois, acorrentados um ao outro, cumprindo uma
interminável caminhada.
MENALTON BRAFF nasceu
em Taquara-RS, no século passado. Em 1965 vê-se na contingência
de abandonar a Universidade, em Porto Alegre, transferindo-se
para São Paulo, onde mais tarde conclui o curso de Letras, na
Universidade São Judas, onde também se inicia no magistério.
Vive atualmente em Serrana, pequena cidade na região de Ribeirão
Preto, por ser um lugar em que consegue fechar os olhos e não
pensar em nada. Divide seu tempo entre o magistério (três escolas
de Ensino Médio, em cidades diferentes) e a produção literária. É
colunista da EPTV.com, retransmissora da rede Globo na região.
Tem dois livros publicados (Janela aberta e Na força de mulher),
ambos pela Editora Seiva; uma antologia de contos (À sombra do
cipreste), com que conquistou o Prêmio Jabuti 2000 - livro de
ficção do ano e um romance (Que enchente me carrega?) pela
Palavra Mágica, de Ribeirão Preto.
Seguem-se Castelos de papel – romance com que foi finalista da
Jornada de Passo Fundo – pela Nova Fronteira; A esperança por um
fio – novela juvenil – pela Ática; Na teia do sol – romance –
pela Planeta e Como peixe no aquário – novela juvenil – pela
Edições SM. Por essa mesma editora lança, este ano, o conto
infantil Gambito.
Casado com Roseli Deienno Braff, também professora.
Acha que literatura é coisa muito séria.
Representado pela Agência Literária Página da Cultura.
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