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Um naturalismo à
maneira de Hemingway
A disposição dos dois assassinos no terreno é minimalista. Al e
Max, ao entrarem no restaurante do Harry, nem sequer o fazem com
a eficaz estratégia exigida às mentes preparadas para o mal. A
encenação da sua entrada foi para dar nas vistas, na pacata e
quente Summit, no Ilinóis.
Com seus «Os Assassinos», ou «Matadores» (1), no original «The
Killers»,
Ernest Hemingway tem entre mãos os ingredientes para a violência
dos subterrâneos urbanos, mas rejeita assim inscrever-se, avant
la lettre, na escrita americana dos hard boiled ( Os Duros de
Roer ), aos quais a sua sombra se estendeu por toda uma geração,
atingindo até o romance dos chamados profissonais, a literatura
negra dos incontornáveis Dashiell Hamett e Raymond Chandlers.
A simplicidade dos recursos estético-literários a que Hemingway
recorreu, a vivacidade jornalística da sua linguagem (2), colocam
essa short story, inicialmente publicada na revista Scribners, em
1927, no topo das obras-primas do conto moderno. Geralmente, o
autor de «Por Quem os Sinos Dobram» prefere o discurso directo,
com recurso a uma dialogia curta e simples, quase banalizada em
função dos protagonistas, como é o caso paradigmático de «Os
Assassinos».
Hemingway foi um escritor que viu as suas ficções; um dos seus
vários prefaciadores, Philip Young, escreveria que «como sucede a
muitos ficcionistas, a relação entre a obra de Hemingway e os
acontecimentos da sua própria vida é imediata e complexa.»
O naturalismo à maneira de Hemingway, isto é, a narração do que
ele conhecia, do que tinha observado, abre ao leitor a porta de
uma «reportagem», iniciada num estilo jornalístico, de um clima
de suspense, de mistério, que faz o transporte da ironia para a
expectativa, do peso volátil da incerteza para a força do que se
chamaria fate ou o destino.
A breve representação em um acto de índole satírica que existe
nos discursos directos dos assassinos profissionais, contratados
para matar um boxeur que acaba por quebrar a sua própria rotina
não indo ao restaurante por volta das seis horas, sustenta-nos
nesse clima de suspense, porquanto os actores principais são
verdadeiros comediantes, com um estranho non-sense que raia o
absurdo. São inimitáveis as suas frases espirituosas que levaram
alguns críticos literários académicos a classificar o conto como
uma soberba peça de vaudeville.
«-Que é que se faz aqui, à noite? - perguntou Al », quando se
refere ironicamente à pacatez da cidade.
«-Janta-se - mofou o amigo. - Reúne-se aqui tudo a mastigar a
jantarada.»
«-Porque é vocês vão matar Ole Andreson? Que é que ele lhes fez?
– Pergunta George, o empregado do restaurante que logra manter um
discurso temerário perante os assassinos.
«-Nunca teve oportunidade de nos fazer nada. Nem nunca nos viu,
sequer.»,
afirma com a ironia que se adivinha, o gangster Max.
«-E só vai ver-nos uma única vez- disse Al », o outro gangster.
Estas e outras falas, sobretudo dos matadores, oferecem, na sua
ingenuidade de diálogo de comédia, uma «amostra do mal sob a
forma de uma conversa aparentemente banal» - segundo o escritor
cubano Cabrera Infante, falecido este ano -, em que a simples
conversa conduz à violência que está escondida em toda a
narrativa.
Mas o conto tem sobretudo uma estrutura psicológica. Induz ao
medo. E exprime também uma filosofia, cujos contornos escondem a
relação dramática do ser humano com o Bem e o Mal, com o destino
religioso e existêncial do homem, o tal ser-para-morte de que
Heidegger escreveu, e que está bem representado no protagonista
que motiva a short story mas só aparece no final da mesma, quase
sem rosto, resignado, sem poder alterar seu destino.
Esse par de criminosos inicia a sua jornada vespertina mais pela
conversa, do que pela acção, a fim de liquidar o boxeur sueco. E
a causa dessa sentença de morte? Só o próprio sabia qual era e o
que motivara a sua sentença, segundo as regras do sub-mundo do
crime organizado.
-«A questão é que eu não procedi bem.- Falava num tom monocórdico.-
Não há mesmo nada a fazer.»
Não se conhecendo assim a identificação da causa, estava
preparado o campo para o castigo incontrolado pelo homem, que só
poderia aguardar a morte.
O candidato a ser assassinado exprime em bom rigor filosófico o
drama da condição humana, no que concerne à espera da morte e
como por ora logra burlá-la. A sua não reacção ao seu destino,
sendo atípica, é no entanto o paradigma do protagonista resignado
à fatalidade, que pode fugir, mas já se não interessa por
fazê-lo.
«-Não. Não há nada a fazer. Daqui a bocadinho, levanto-me e vou
para o meio da rua.»
Tanto ele como os seus assassinos, já alguém o afirmou num ensaio
crítico, podem ser uma representação da teoria de Einstein e o
princípio de Walter Heisemberg, respectivamente a da relatividade
e o das incertezas.
Neste conto, de facto, o que parece ser irreversível, repleto de
certezas, porquanto o enredo assim exige a sua realização, e o
leitor assim espera, afinal vem a verificar-se estar à mercê de
um simples acaso do tempo e do espaço. E o desfecho é relativo. E
o que se previa como comportamento futuro da intriga do conto, o
seu desfecho, não acontece pelo princípio da indeterminação.
«- Vamos, Al - disse Max - É melhor irmos embora. Ele já não
vem.»
«- O melhor é dar-lhe mais cinco minutos - disse Al da cozinha.»
(3)
(1) Vd. «Matadores», in Bestiário-Revista de Contos, nº 10, Dezº
2004
(2) José Guilherme Merquior, in Formalismo & Tradição Moderena,
Editora Forense-Universitária, S.Paulo, 1974
(3) Contos de Nick Adams, Edição Livros do Brasil, Lisboa, pág.
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JOÃO TOMAZ
PARREIRA nasceu em Lisboa,em 1947. Jornalista free-lancer da
imprensa especializada nas áreas da Literatura, Artes Plásticas e
Teologia. Poeta. Autor de 5 livros publicados entre 1973 e 1996.
Participante em várias Antologias poéticas, a última das quais
editada em 2003. Conferencista, tendo trabalhado nesta área com
palestras sobre Vergílio Ferreira e José Saramago, em 2003 e
2004.
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