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Philip Roth:
afrontando a América.
Uma análise de “Lição de Anatomia”
Não é preciso que todo texto sobre Philip Roth comece falando a
respeito de Complexo de Portnoy. Mas pode-se fazê-lo sem
problemas. Afinal, nunca é demais voltar àquele romance de 1969
que é uma longa fala de Alexander Portnoy, jovem professor de
literatura bem sucedido que repassa com seu terapeuta sua
experiência de judeu americano. Pode-se falar a respeito de
Complexo de Portnoy porque sempre existirá aquele que não terá
ainda tomado consciência deste relato extraordinariamente mordaz,
sarcástico até a medula e de uma franqueza absurda. Existirão
aqueles que não sabem do choque inicial com que os críticos
receberam este livro, uma hora acusando-o de pornográfico, até se
renderem à qualidade indiscutível do texto de Philip Roth, e de
tudo o que ele produziu daí para frente (certo, no entanto, é que
já desde o seu primeiro livro, Goodbye Columbus, o autor
conquistou antipatia dos que consideraram extremamente inadequado
e desrespeitoso o tratamento dado aos judeus no texto). E talvez
existam até aqueles que não se deram conta da – embora a
francamente explícita exposição masturbatória do adolescente
Portnoy possa por vezes confundir a atenção – visão aguçada de
Philip Roth sobre uma América fraturada e como, ainda que através
de um tecido tênue que pode tornar baço para os menos atentos a
sua estratégia, Roth constrói com palavras precisas uma crítica
perfeita sobre um país mais do que individualista, mas marcado
por perversões de uma sociedade americana por muitas vezes
enojante.
Embora seja um ato extremamente reducionista tentar definir a
obra de um autor através de poucas palavras (como se ele
cometesse, invariavelmente, versões de mesmas intenções em toda a
sua obra), se não é definidora, ao menos serve como auxílio para
compreender um tanto sobre os romances de Roth as três palavras
que o romancista John Updike utilizou sobre seu trabalho:
literatura, ereção e Israel. Auxilia por que dá conta das
discussões sobre literatura que estão sempre norteando os
personagens-narradores (em especial o alter ego de Roth, Nathan
Zuckermann), escritores, professores, grandes leitores, e suas
preocupações ou obsessões de ordem sexual, e, lógico, a mais
identificadora característica de Philip Roth, as discussões sobre
judaísmo em que seus personagens estão sempre envolvidos – que
tanto podem assumir características de auto-ironia, como pode
passar por zombaria dos costumes e tradições israelitas
(recebendo até mesmo acusações de fomentação de preconceito
contra o povo judeu) como pode comportar quase ensaios sobre
judaísmo e Israel, tão complexos que provavelmente só um
estudioso do assunto poderia elaborar sínteses que possam ir além
da superfície e do risco de se enganar sobre as reais intenções
de Roth. Um exemplo notório desta última forma da questão do
judaísmo se sobressair no texto de Philip Roth é o romance de
1993, Operação Shylock, um delírio ensandecido em que o próprio
Roth é narrador mas também personagem, envolvido com um
trapaceiro que se faz passar por Philip Roth em Israel e prega a
Nova Diáspora como única saída para o impasse do Oriente Médio.
Se é uma discussão séria ou piada nonsense de Roth, isto é algo
que seu sarcasmo e humor corrosivo não tem nenhuma preocupação de
nos tornar claro. O que importa é o grande achado literário que
acabou sendo para a sua carreira seu constante tom entre
humorístico e amargurado e a falta de auto-piedade judaica que,
ainda que traga emanações por vezes violentas, capazes de evocar
para alguns um ressentimento beirando o preconceito, na verdade
se traduz somente como um reflexo inteligente deste grande autor
sempre em contínua auto-avaliação.
O fato é que os dramas de Roth são na verdade representações
individualistas. Não é preciso ser gênio para enxergar não
somente em Nathan Zuckermann o autor de ego hiperdesenvolvido e
narcísico – em todos seus livros se escutam os ecos de constante
investigação própria sobre os novos territórios por ele
explorados. Não é estranho, portanto, que, aos 71 anos, sempre se
atualizando, em O Teatro de Sabbath, de 1995, nos apresente um
romance sobre velhice, desagregação e erotismo. Lógico, que, não
perdendo o jeito, a abordagem da velhice é decadente, sem
sabedoria e sórdida. E, nos três romances seguintes, Roth se
livra um tanto do autocentramento e propõe um Nathan Zuckermann
que, pelas seqüelas de um câncer de próstata nefasto, padece de
impotência sexual e narra a vida alheia em uma trilogia onde as
obsessões de Roth (literatura, ereção e judaísmo) estão novamente
em extrema evidência: Pastoral Americana, de 1997, Casei-me com
um Comunista, 1999 e A Marca Humana, de 2000.
Se o humor amargo destas narrativas provém do ponto de vista do
velho e impotente Zuckermann, ao retornarmos para 1983, em Lição
de Anatomia encontraremos este personagem escritor, ainda que no
auge de sua carreira literária, se questionando enormemente sobre
a função de sua atividade. Padecendo do início ao fim do romance
de um mal que lhe acomete dores insuportáveis no pescoço, braços
e ombros – uma dor que “tornava difícil caminhar mais que alguns
quarteirões, ou mesmo ficar em pé mais tempo” – mesmo assim
consegue dar vazão aos seus quase incontroláveis impulsos
sexuais. Por isso, na falta de uma mãe que lhe cuide quando
doente, já que afirma que todo homem quando adoece anseia pela
figura materna, Zuckermann cerca-se de quatro amantes para lhe
servir. Assim, mesmo que envolvido em uma coleira ortopédica que
lhe imobiliza o trapézio e o faz ficar esticado durante todo o
dia em um colchão de plástico para crianças – assistindo à
televisão com um óculos de prisma que lhe permite ver em ângulo
reto –, “coito, felação e cunnilingus eram coisas que Zuckermann
conseguia realizar quase sem dor, mesmo que estivesse deitado de
costas, mantendo a enciclopédia debaixo da cabeça como apoio.”
Lição de Anatomia é a saga de um Zuckermann atordoado de uma dor
que cresce a cada tentativa sua para dizimá-la. Seus esforços são
vãos em todas as suas formas, nenhum médico tem um diagnóstico
eficiente para o seu problema. E é assim desde a primeira página,
já que o primeiro fato do qual somos informados é a respeito da
dor que o atormenta. O psicanalista insinua que a sua dor é um
pretexto para cercar-se de mulheres; o acupunturista enche
Zuckermann de agulhas e não obtém nenhum resultado; o médico de
vitaminas lhe aplica injeções; o esteopata repuxa seus músculos;
o fisioterapeuta, o ortopedista, o radiologista, o
neurologista... Todos empreendem buscas acirradas para solucionar
seu problema. Que se agrava página após página. E que o faz
perder cabelo e apelar para uma clínica tricológica. Que só lhe
faz conhecer outra mulher para saciá-lo sexualmente enquanto
nenhum médico o sacia no seu desespero pela tranqüilidade física.
Os aborrecimentos na vida de Nathan Zuckermann o vão cercando de
maneira claustrofóbica. O escritor do grande best-seller
“Carnovski” se perde cada vez mais em delírios sobre os motivos
de sua agonia. Os significados ocultos para ele por vezes se
escondem como penitência pelo grande sucesso do livro – o romance
é o retrato de uma família judia, cuja mãe é apresentada com um
mau gosto que ofendera a milhões de leitores, entre eles seu
próprio irmão, Henry, que o culpa pela morte da matrona e de
precipitar o ataque coronário do pai. Poucos compreendem a
literatura de Zuckermann: os que conseguem, o idolatram; aqueles
que não, o detestam, o acusam de preconceituoso, violento e
sarcástico no trato com os judeus. Como se ele próprio não fosse
um. Como se Philip Roth também não.
Zuckermann cria, por conta própria, um fronte de ataque que o
persegue por todos os lados: a maldição do pai moribundo não
consegue fazer com que escreva uma página decente desde a
decepção que para ele representou o “Carnovski” e, para piorar,
insiste em atribuir a autoria de uma carta anônima com ofensas
terríveis à sua falecida mãe à Milton Appel, o crítico que julgou
seus primeiros contos como“vivos, imperiosos, exatos” e que,
catorze anos depois, reconsiderara o que chamava o “Caso
Zuckermann”. Agora, depois do seu livro de estréia, “Educação
Superior”, os livros seguintes de Nathan apresentavam judeus
deformados vulgarmente, seus livros se tornaram romancezinhos
perversos, desagradáveis e o que escritor produzia era
subliteratura. Quase uma ode ao anti-semitismo.
Não bastasse, portanto, a consagração de sua carreira, seu sólido
trabalho como escritor, Nathan Zuckermann toma como extremamente
importante a opinião de Milton Appel sobre o seu trabalho. Que
ele somente seja um ressentido editor de uma segmentada e pequena
revista de público judaico, a Inquiry, isto não importa. Importa
a mágoa que vai no coração de Zuckermann, levando até mesmo para
as suas amantes o amargor que significou para a sua vida a
crítica dura de Appel. Não importa quão medíocre tenha sido a
infância de Appel, que talvez parte de seu ódio para com a
literatura de Zuckermann seja decorrente de uma infância judaica
sofrida, de um pai do qual se envergonhava. São atenuantes que,
para Zuckermann não servem para minimizar o ataque gratuito de
Appel. Somente para enfurecê-lo ainda mais. O que Nathan não
enxerga, no entanto, é a inveja de Appel por ele ter conseguido
chega a um público além do reduto judaico. Tanto é verdade isto,
que Appel apela indiretamente para que Zuckermann escreva um
artigo em apoio ao Estado de Israel, quando este é atacado por
egípcios e sírios. O que Zuckermann toma como provocação. Como se
o autor acusado de anti-semita, desagregador dos judeus agora
pudesse fazer um favor por que é conveniente para Appel. É a sua
chance de ser desbocado, de desancar Appel, de magoar-lhe também.
E, não bastando sua negativa, faz isso com um telefonema
agressivo – como se Appel se importasse.
Somente Zuckermann se importa. Zuckermann está com os nervos à
flor da pele. Appel lhe incomoda e nem mesmo conhecer uma
estudante secundarista para realizar os seus delírios eróticos
lhe faz melhor. Ela lhe considera infantil, um estúpido por
querer confrontar as críticas de Appel. Se nega a datilografar
uma carta desaforada de Zuckermann para Appel. Ela lhe joga na
cara a sua importância, a sua carreira como escritor; ela lhe
fala quem ele é, lhe diz que são os seus livros os lidos em sala
de aula. Nada disso importa. Zuckermann questiona a utilidade da
carreira de escritor (“E se vinte anos escrevendo foram mera
impotência diante de uma compulsão – a submissão a uma compulsão
inconseqüente e vil, que dignifiquei com todos os meus
princípios, provavelmente uma compulsão não inteiramente
diferente daquela que fazia minha mãe limpar a casa cinco horas
todo dia? Então, em que ponto estou?”)
Então, Nathan Zuckermann decide estudar Medicina. Simples assim.
O que parece um palavrório que irrita tanto a secundarista a
ponto de fazê-la sumir de sua vida, se transforma em outra
obsessão de Zuckermann. Recuperar o tempo perdido, abandonar a
literatura, rumar para Chicago, estudar Medicina. Encontrar na
Medicina a redenção não alcançada através dos escritos. Ser útil
à sociedade, salvar a vida de pessoas, ter um dia prático. Saber
que A + B foram os esforços necessários para fazer o bem para
outras pessoas. Chegar feliz ao final do dia. Combinar as drogas
necessárias para aliviar a dor de outrem. O que Nathan não sabe é
que ele procura alguma droga para aliviar a sua própria dor. E já
que não sabe, ele o faz inconscientemente. Enfileirando os vidros
das mais diversas farmacologias, auto-medicação para tentar se
livrar da dor: Percodan, cigarros de maconha, uma conveniente
garrafinha de vodca no bolso do paletó. É Zuckermann voando para
Chicago completamente chapado para a entrevista de admissão para
a Escola de Medicina. É Zuckermann em Chicago tentando horrorizar
os incautos com sua atuação como “Milton Appel, o editor da
Lickety Split, o rei da indústria pornô” – uma atuação que lhe
custa os dentes, é verdade. Zuckermann insano, Zuckermann levando
uma bota na cara. Zuckermann somando dores sobre dores,
descobrindo que o seu teste para o ingresso no fantasioso mundo
maravilhoso da Medicina não passa sequer pela inspeção do buraco
no rosto da senhora que tratou um câncer com curativos.
O final de Lição de Anatomia não leva Zuckermann à redenção. Não
lhe mostra os caminhos que deve percorrer para voltar a acreditar
no que quer que seja. Ao final de Lição de Anatomia, sobra
somente uma grande interrogação. Não é possível saber dali quais
serão os passos de Zuckermann. Zuckermann não sabe para onde vai.
ALESSANDRO GARCIA é escritor e publicitário. Em 2005 terá
publicada sua novela “Submersão” no livro “Prosa de 4 Cantos” e
seu livro de contos “A Sordidez das Pequenas Coisas”. Escreve no
Suburbana [http://suburbana.blogspot.com].
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