O Sorriso da Monalisa

Ela entrou no consultório, deu-lhe um beijo e disse:

- Eu te amo!

Olhou para o quadro da Monalisa que estava fixado na parede e percebeu um sorriso de sarcasmo. Aquilo a incomodou. Há tanto tempo aquele quadro de Da Vinci estava ali, contudo era a primeira vez que lha suscitava desconforto. Ele trancou a porta e, então, fizeram juras de amor. Para selar a grande paixão e a fidelidade de um pelo outro fizeram amor no mais alto estilo de Nelson Rodrigues: ela, eroticamente suspensa na mesa do consultório, entre papéis e aparelhos médicos, a ser voluptuosamente experimentada pela selvageria do marido. A Monalisa continuava lá observando a tudo. Os olhos arregalados, atentos, como se estivesse humana.

- Espero-te em casa para o almoço - Disse ela.

- Tenho pacientes no horário de almoço. Uma exceção. Almoço no consultório, se não te importas.

Enquanto ele falava os olhos da esposa estavam na Monalisa. Ela parecia querer-lhe dizer alguma coisa. Uma censura ou qualquer coisa desse gênero.

- A Monalisa está a sorrir sobre o que aconteceu aqui conosco - Comentou ela acabrunhada.

Ele abaixou a cabeça e disse:

- Encontro-te à noite em casa, meu amor.

Ela não quis mais olhar para a Monalisa. Deu-lhe um último beijo e saiu.

À hora do almoço soou a campainha do consultório. Ele abriu a porta. A paciente entrou e deu-lhe um beijo na boca.

- Estava com saudades de ti – falou a suposta paciente.

- Tive que dizer a minha esposa que trabalharia neste horário de almoço – respondeu o médico.

Os dois enrolaram-se sobre o tapete que forrava a pequena sala e espalharam pelo recinto o cheiro de luxúria e traição. Entre um gemido e outro, a Monalisa continuava a olhar clinicamente àquele ato ilícito que há muito tempo acontecia sempre no mesmo lugar. A Monalisa queria gritar:

- Parem! Seus porcos imundos. Não profanem os olhos da arte!

Mas, ela tinha os lábios engessados, paralisados. Apenas os olhos estavam abertos pela eternidade. Creio que se a Monalisa pudesse, saltava moldura abaixo e estapeava os dois. Amor e traição: eis dois extremos que a senhora de Da Vinci presenciava sem escolhas. Ao fim de toda a sujeira eles se beijaram. A amante vestiu-se, pegou o casaco de vision, a bolsa, deu-lhe um último beijo e foi embora. O telefone tocou. Era a esposa quem telefonava.

- Senti vontade de ligar. Fiquei incomodada com a Monalisa.

- Esqueça a Monalisa, meu amor. Pense somente que sou o esposo mais apaixonado do mundo e que seria incapaz de lhe trair.

Desligou o telefone. Vestiu-se. Pegou a chave do carro e abriu a porta do consultório para sair. Antes de bater a porta a fechar ouviu um sussurro que lhe empalideceu a alma:

- Porco sujo!

Virou-se de súbito. Passeou os olhos pela sala do consultório e não havia ninguém, apenas o mórbido silêncio. Apenas observou a Monalisa sorrindo. Era, sem dúvida, um sorriso profano, um daqueles que damos após assistir a luxúria. Mas, entendeu que a Monalisa era linda demais para proferir palavras tão sujas. Acabrunhado bateu a porta e saiu. A Monalisa ficou ali, sozinha, rindo da comédia da vida.



AGNALDO RODRIGUES DA SILVA é professor na Universidade do Estado de Mato Grosso. Escritor, crítico, ensaísta e contista, tem como principais publicações: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de Literatura Comparada – org. (2003) e A Penumbra – Contos de introspecção (2004). Preside o Conselho Editorial da Unemat Editora, coordena a editoração da Revista Ecos (Língua e Literatura), do Instituto de Linguagem e integra o Conselho Temático Consultivo do Caderno Científico Fênix, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação – UNEMAT. Agnaldo é natural de Cáceres, Mato Grosso, e tem se dedicado aos estudos literários e teatrais nos últimos anos.