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Kabuki
Sentada na cozinha, banco de madeira, apóia as mãos no colo. A
cabeça baixa observa os dedos girando, círculos miúdos, que
torcem o pano de prato, que está sobre suas pernas, gelando as
coxas.
Ela pensa em quantos feijões terá que catar até que algo mude.
Separa as cruas pedras com formatos ovalados dos arredondados
grãos pretos, sempre tão animados, prestes a dançar e falar, e
conta um por um dos que passam pela seleção pré-cozimento. Depois
do 107, as mãos com uma espécie de giz leve, talco de alimento,
começaram a passear pelo rosto, limpar as lágrimas. O choro miúdo
cai leve, uma lágrima por vez desenha fios transparentes na
máscara branca que criou.
O cabelo é preso num coque alto, para que os fios não atrapalhem
mais, somados aos olhos embaçados, as mãos escorregadias. Com
passos lentos, apertados, ela leva a bacia para a cozinha.
Descalça os pés dos tamancos, pisa no mármore, apóia a barriga no
metal da pia. Um suspiro longo levanta a sua cabeça. Expira.
Quase hora do almoço.
A percussão dos grãos caindo no teflon fazem fundo à música de
novela.
Com a mania boba que tem de pensar que um dia será protagonista,
vê-se de vermelho, fluindo, de mãos dadas. Sem relógios,
calendários, cozinhas, pés no chão, números.
Abre o leque, arqueia um dos joelhos, fazendo menção. O cenário
traz pássaros em seda, bordados em tecidos furta-cor. Passado em
silenciosa narrativa, discorre sentimentos em movimento
angulares, pernas tornam-se grandes, as passadas são largas, mas
caem no chão como plumas, inaudíveis, marcadas pelo som grave.
Ele aparece, ela abaixa o olhar, ele a puxa pela mão, ela foge.
No fogão, um apito longo e caricato.
Ele desembainha a espada curva, a faz dançar sobre as mãos, que
sangram um filete de cor. Com a mão machucada, a abraça, pinta
sua boca de rubro.
O feijão cobre a casa toda.. O rádio traz um padre benzendo
fiéis, jogo de futebol, chã, patinho e lagarto, simpatias para
trazer o homem amado e eletrodomésticos em dez vezes sem juros.
Ela puxa a espada, dança com ela em uma mão, em outra, com o
leque, abrindo e fechando, abrindo e fechando, ora em movimentos
rápidos e curtos, ora de maneira lenta, deixando ver cada um dos
diferentes desenhos das fatias de madeira talhadas à mão.
Desliga o fogo, tira a tampa da panela, sente o cheiro quente e
pesado, mexe o líquido viscoso. Serve a mesa com os pratos
brancos e talheres descombinados. Não tem fome.
Sentada no banco de madeira, movimenta extremidades, sem calcular
os movimentos que faz. Os dedos são aleatoriamente guiados pelo
tempo (?), os pés ciscam, a cabeça pende para a esquerda e para
baixo. Não lembra por que se sentou. Nem há quanto tempo está
parada ali. Não pensa. Vai para o quarto, liga o ventilador, está
quente, abre o leque e se abana. De frente para o reflexo da TV,
pinta a boca de vermelho e adormece. Não sonha.
Aproxima o rosto da lâmina, admira o próprio rosto, se beija.
Entrega a ele a prata afiada com a marca vermelha. Ele recebe e
ela corre, antes que os vejam. Ele trava combate com a noite, ela
olha a neve manchada pelos dois.
CRIB TANAKA é jornalista e escritora. Já colaborou com
diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash,
Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura
brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net)
e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro.
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