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I love Lucy
É uma cigarrilha, não é? São uns cubanos vagabundos que fazem em
Miami. Entre uma passeata e outra contra Fidel, enrolam charutos,
cigarrilhas e outras porcarias. Sabe que eles fazem treinamento
para invadir Cuba? E por que fuma isso se tem tanto desprezo por
quem produz? Gosto das cigarrilhas mas não tenho essa simpatia
toda por Fidel não. Não é politicamente correto hoje em dia
fumar. Nem ter antipatia por Fidel. E a história de amor? Vou
contar. Será que histórias de amor ainda despertam atenção? Estou
querendo ouvir, não é? Antes de contar; me explica o título. Era
uma comédia americana que passava aqui na década de sessenta.
Luicille Ball e o marido, um cubano exilado, faziam o par
perfeito num filme que a gente via com legendas impossíveis de se
ler. O nome dela é Lucy? Mais ou menos. Você quer saber porque
tenho rancor de alguém que amei tanto, não é? Não seria o único
caso de amor assim. Muitos se transformam em rancores, mágoas e
pereré pão duro. Eu vou te contar que a gente se dava muito bem.
Tínhamos esse lance misterioso das pessoas que se conectam,
entende? Uma vez, vi num filme que os judeus acham que almas
foram jogadas no mundo depois da criação e vivem por aí no espaço
querendo se juntar. O Talmude previu a Internet juntando as almas
perdidas. Desculpe eu estar rindo. Não.. isso é comum. As pessoas
acham que a Internet é alguma coisa assim inútil, tola... como
eram os trotes telefônicos ou as seções de correspondência postal
do passado. Como alguém pode acreditar na profundidade de um amor
entre duas pessoas que estão distantes? Mas eu não estou
questionando um novo meio de comunicação, falo de amor. Igual ao
de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Jerônimo e Aninha... sabe
quem são? Claro que você sabe quem são Romeu e Julieta, Tristão e
Isolda... perguntei se sabe quem são Jerônimo e Aninha? Era um
seriado radiofônico escrito por Moisés Weltman. A história se
passava no interior do Brasil, Jerônimo era um herói justiceiro
contra o mal e Aninha a noiva dele. O seriado virou gibi e andou
pela televisão também. Curioso: o nome do homem vem sempre na
frente dos casais famosos. O meu nome não vem na frente do dela.
O meu continente também não está na frente do dela. Europa...
quando a gente se conheceu, ela estava na Europa. Era uma cidade
que nunca ouvira falar. Depois, o nome da cidade foi entrando no
meu cotidiano, comecei a ver que os cadernos de turismo dos
jornais ofereciam pacotes vantajosos para lá. Como é que pode
acontecer isso? A gente nunca ouviu falar num lugar, numa pessoa
ou mesmo numa palavra. A partir do momento que tomamos contato
com isso vamos observando que é uma coisa bem próxima do nosso
dia-a-dia. Desculpe se a minha história de amor não tem tanta
aventura quantas as outras citadas. Não há famílias inimigas ou
intrigas palacianas. Nós somos pessoas comuns que se amam de
forma comum num mundo cada vez mais comum. Claro que havia
empecilhos. Ela é casada e eu também. Engraçado eu citar isso
como empecilho... você deve estar pensando assim: como um sujeito
que se apaixona por uma mulher que está num outro continente diz
que o primeiro empecilho é a formalidade de um casamento? É que
foi a primeira idéia que me veio à cabeça. Deixa eu só te falar
uma coisa. Já reparou como os brasileiros que emigram são
estranhos? Não estou generalizando assim de forma preconceituosa.
São estranhos mesmo. Sou filho de imigrante e nunca me senti
perdido no Brasil. Presta bem atenção. Meu pai veio de outro país
e botou filhos no mundo aqui. Nenhum de nós tem qualquer ligação
com o país de papai. Com os brasileiros no exterior acontece o
contrário: parece que eles se perdem do Brasil lá fora. A única
visão que têm do Brasil é a de que somos um país mergulhado na
violência, na corrupção, na falta de futuro. Eles têm pena da
gente. É verdade. Pera aí! Você está querendo me dizer que o seu
caso de amor fracassou por causa de um complexo que faz você se
sentir inferior a uma brasileira que mora no primeiro mundo? Não
foi bem isso que eu disse. Mas que tem a ver tem. Ela me disse
que o Brasil não dava nada!! O corno dizia que ela deveria pensar
muito antes de voltar ao Brasil porque o país dele que dera
cidadania a ela e aos filhos oferecia mais vantagens. Aí, eu já
fiquei baqueado, não é? Sabe o que um amigo me contou? Em Nova
Iorque, uma brasileira trabalhava como garçonete e falou com ele
em inglês. Um americano é que dedurou ela. Meu amigo perguntou:
“Por que não falou na nossa língua comigo?” A mulher disse que
tinha desprezo pelos que ficaram no Brasil. Também podia ser
vergonha de ser vista como garçonete por um brasileiro, não acha?
É.. podia... mas a versão que ficou foi essa. A brasileira no
primeiro mundo não querendo ser misturar com a gente. Mas vou
voltar à minha história. É pra isso que estou aqui, não é? Tenho
a sensação de que fracassei, o pior é que sinto a falta dela. Eu
me vejo ali na frente dela.... e a filha da puta dizendo que eu
era um brasileiro do terceiro mundo que jamais teria um filho
comigo, por exemplo. Você arruma uma mulher de outro continente e
quer ter filho com ela? Sei lá!! As mulheres têm sempre uma
história, um segredo, um negócio mal resolvido que nunca se
fecha. Ela era assim? Escuta só: um dia, toca o telefone e um
cara com sotaque estrangeiro diz meu nome. Era o corno. Por que
você não diz que era o marido dela? Porque eu tenho raiva dele,
porra!! Eu tenho de ter raiva de alguém. Sempre foi assim. O quê
ele queria? Falar comigo. Marcou num restaurante português na São
José. Você já comeu lá? Arroz à Braga, barriga de freira e um
vinho Dão. O corno é alto, gordo e me faz um aceno da mesa do
fundo. Eu sento e pergunto o motivo do encontro. Você é filho de
português, ele me disse. E daí? Pensei em agradá-lo. O corno diz
que na infância passava os verões no Alentejo. Meu pai é de outra
região. Mas não foi para conversar sobre meu pai que você me
chamou. É sobre ela. Foi então que o corno começou a falar umas
coisas que me deixaram espantados. Ela chantageava o marido. Você
chamou ele de marido dela. Porque eu vi que ele era uma vítima.
Aquele homem frágil me pedindo socorro. Você já ouviu falar
disso? O corno pedindo ajuda ao cara que comia a mulher dele.
Escuta bem o que ouvi naquela mesa do restaurante. Fica com ela.
Se ela está amando você, então você é capaz de derrubar ela. A
mão do marido dela se estendeu até o meu braço. Me salva! Se você
consegue atingir o coração dela, me salva. Homem algum conseguiu.
Naquela tarde, fiquei rodando por ali. Um pivete me pediu
dinheiro e eu dei. Uma velha me pediu dinheiro e eu dei. Eu
achava que podia salvar o mundo porque um corno me pediu
salvação. Vamos recapitular? Claro. Eu me apaixonei por uma
mulher, ela me pediu socorro porque era prisioneira de um marido
prepotente, arrogante num país estrangeiro o marido viajou dez
horas saltou no Rio me convidou para almoçar num restaurante
português em reverência a meu pai ou à infância do gringo que foi
passada nos verões alentejanos. Aí, mudou tudo. A vítima era ele.
Qual a chantagem? Coisas do passado dele, coisas brabas. Ele
tinha projeção e o depoimento dela podia arrasar com a carreira
dele. Fanchone, o corno foi fanchone. Comia cu de garoto.
Geralmente, africanos refugiados. Uma vez, um garoto não quis dar
para ele. O filho da puta socou o menino até morrer. Jogaram o
corpo do africano num vale. Foi um escândalo. Uns skinhead
levaram a culpa. Diziam que era coisa de neonazista matando
imigrantes. A Europa acendeu vela no local onde foi encontrado o
corpo do rapaz. Europeu adora expiar essa culpa, não é? É duro
levar essa culpa, não é? O líder dos carecas ficou na cadeia um
tempo, não foi condenado porque não existiam provas. Eu quero que
esses neonazistas se fodam. Mas o corno vacilou muito. Tinha foto
dele pagando boquete em menino, cheirando cocaína com menino,
botando no cu de um menino. Ela gravou um depoimento em VHS do
corno se penitenciando por ter matado um imigrante. Tudo guardado
num cofre na Suíça que deveria ser entregue à irmã dela caso
acontecesse alguma coisa com ela. Tinha um site preparado para
espanar na Internet. Agora, o pior mesmo, era o corno gostar cada
dia mais dela apesar de saber que se casara com uma mulher que
não valia nada. Quer dizer, ele também não valia merda nenhuma. O
corno me propôs uma troca: eu amava a mulher dele e ela o
libertava. E você foi ouvir a versão dela? Dois meses depois, ela
desembarcou aqui para enterrar a mãe. Fudemos no dia seguinte ao
enterro. Não falei nada até a gente gozar muitas vezes. Então,
acendi uma cigarrilha. Apaga isso! Faz mal a você e a mim aqui
nesse ambiente fechado. Mentira faz mal e comecei a contar tudo.
Ela riu. Mandou eu calar a boca. Você pensou que eu ia trocar o
Primeiro Mundo por essa merda aqui? Eu pensei que você me amava.
Ela riu. Você mexeu comigo, as coisas chegaram a um ponto que eu
não podia imaginar que chegasse mas amar.... você é louco! Eu vou
acabar com ele todo dia. Todo dia, eu tiro um pedaço dele. Ele me
serve, você me serviu. Acabou. Eu acabo contigo, babaca!! Te boto
na fita também. Eu sei fazer tudo com muito talento. Você pensa
que cheguei até aqui com ética? Se veste que detesto ver homem de
pau mole. Está mole agora, porra! Quem fica com pau duro depois
de comer uma mulher como você? Você comeu puta muito pior por aí.
Ela saiu muito séria. Depois, saltou do carro e mandou que eu
fosse embora sem olhar para trás. Você, as trocas de e-mails, as
juras de amor, o sexo que a gente fez de todas as formas e esse
filho que nunca existirá. Eu senti que podia ser destruído
também. Passei a correr dela, o corno me ligava sempre cada vez
pedindo mais socorro, eu dizia que não podia fazer nada porque
ela também me derrubara. Me ajuda, guy!! Sai da minha aba, cara!
E o corno chorava, coitado. Aí, eu chorei também. Você sabe o que
é amar uma mulher que não merece? Merecimento é muito subjetivo.
Nunca contei isso para ninguém. Quer dizer, estou contando agora.
Acabou o tempo. Alguma conclusão? Na próxima, a gente continua.
Eu vou me confessar a um padre. Também ajuda. Eu ainda gosto
dela, sinto saudade dela, lembro ela quando me sinto só e ouço um
paraguaio cantando bolero na Avenida Atlântica... tira ela de
mim? Você vai ter de conviver com ela como convive com a
cigarrilha, com o seriado americano.... você vai ter de conviver
com ela. Até a próxima. Eu vou aprender a dizer I love Lucy. Isso
você já sabe.
JOÃO CARLOS VIEGAS é roteirista de rádio e tevê, tem um
romance inédito intitulado "Segura essa, J.D. Salinger" e mora no
Rio.
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