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Fluxo Negro
O relógio me distraiu enquanto esperava no escritório, era
daqueles relógios grandes, em que os ponteiros andam aos
solavancos. Fui surpreendido pelo diretor do presídio olhando
perdido os tranquinhos que o ponteiro dos segundos davam.
– Boa tarde.
– Boa tarde, retruquei meio surpreso, meio envergonhado
– Deixe-me ser direto: não concordo com a sua vinda aqui. Não
estou de acordo com essa besteira do teu jornal de humanizar
essas criaturas, e para ser franco, senhor, acho que não tem a
mínima idéia do que está fazendo.
– O doutor me desculpe, mas...
– Eu não terminei. Não me interrompa. Eu estava dizendo, acho que
você não tem a mínima idéia do que está fazendo e que isso é um
grande erro. O público não quer saber, o público não deve saber,
é precisamente, precisamente o motivo pelo qual os mantemos
presos e isolados o mais que podemos. Para proteger o público
disso. E você só não entende isso porque não tem a mínima idéia
do que irá encontrar.
Nisso ele estava certo. Não tinha. Mas o jornal achava que eu
deveria, que todos deveriam ter. Além disso, ter acesso a uma
entrevista exclusiva com o monstro poderia tirar o jornal do
buraco em que estava.
– O doutor me desculpe, mas se já acabou, eu acredito que o
público precisa saber, conhecer, inclusive pra poder se prevenir,
além de tentar compreender a...
– Não há o que compreender. Aníbal, escolta ele pro 212.
Pra alguém que não gosta de ser interrompi9do até que ele tem
prática em interromper. Segui “Aníbal” por uma tortuosa série de
corredores, postos de controle, portas duplas, as quais não
poderia revelar a sequência e localização precisa, pois eram
informação restrita.
Paramos em frente a uma porta grande de metal pesado. Uma
fechadura eletrônica estalou e tive acesso à uma cela iluminada
com luz branca artificial, contendo apenas um banco soldado no
chão, um grande espelho e um interfone.
– Sente aqui. Fale pelo interfone, ele poderá ouvi-lo. Você
ouvirá suas respostas através daquele alto falante. Ele está
contido, naturalmente, mas há um microfone no lado de lá. Quando
terminar, ou em caso de qualquer problema, aperte esse botão e
imediatamente viremos. A sua visita está sendo monitorada através
daquela câmera ali. Não podemos gravar ou escutar a conversa por
motivos legais, mas estaremos de olho no senhor. Boa sorte.
Aníbal saiu e porta se fechou com outro estalido. Fiquei olhando
o espelho, me vendo naquela cela, o que me deu calafrios.
Sensação esquisita.
O espelho se iluminou e vi o monstro. O alto falante começou a
transmitir um sibilar profundamente desagradável.
– Boa tarde, hã... Eu não sei como é seu nome, então como prefere
ser chamado?
A criatura continuou sibilando. Nenhuma resposta.
– Meu nome é Lucas B. e sou repórter da F. M., jornal de grande
circulação nacional e estou aqui para entrevistá-lo. Seus
advogados permitiram, presumo que com sua autorização.
A criatura continuou exatamente como estava. Não esperava que
fosse ser fácil, mesmo.
– Você concordaria em contar a sua história, como achar adequado,
ou responder algumas perguntas? Se importaria de me responder?
Houve um gorgulho, que poderia ter sido uma risada, ou algo que
lembrasse uma, e então meus cabelos da nuca se arrepiaram e tive
certeza de que não lidava com um ser racional, o que era de se
imaginar ao se conhecer os atos da criatura. Tinha somente meia
hora de entrevista e não estava conseguindo nada, mas de repente
isso não me preocupava tanto quanto antes.
O sibilar ficou mais intenso, uma série de ruidos estalaram no
alto falante, e ouvi a voz rouca, chiada, que poderia ter vindo
de um réptil pestilento, um dragão de komodo com saliva capaz de
matar uma vítima de infecção:
– Minha história... - uma pequena convulsão e um engasgo que eram
apavorantemente próximos do que seria uma risada de desprezo.
Minha história... hrum. Eu sou um predador. Eu predo almas. O que
quer saber?
– O que quer dizer com “preda almas”?
– Heh. Repórter. Repórter burrinho, quer contar histórias, já
contou tantas que já as tem prontas. Aceita o predador e
questiona as almas. Almas, repórter burrinho, almas, não sabe o
que é? Não tem?
– Bem, senhor, ainda não sei como prefere ser chamado, por que
preda as almas?
– Chavões, chavões, você é uma mina de idéias prontas, pensa o
que pensaram antes, não vê? Heh. Estás preso, repórter burrinho,
e achas que sou eu que estou.
– Por que diz que estou preso?
O ruído desagradável virou uma abjeção que, desconfio, deveria
ser uma gargalhada. Aquilo me revoltou o estômago.
– Repórter, contador de histórias, que mascara como “fatos”, ser
que quer ser “neutro”, burro, repetidor de chavões, quer ouvir o
que já ouviu.
– Você acredita em libertação da mente? É disso que estás
falando?
– Heh. Mente? Acreditas que tens mente? Já ouviste a história da
libertação da mente, torces para que eu seja uma história que
conheces, repórter burro, achas que estás seguro atrás do
espelho. Heh.
– Por que não estaria? – aquela conversa estava me irritando.
Burro é a mãe dele.
– Falas comigo e não vês o perigo, repórterzinho, achas que estás
seguro, que sou louco, que sou um chavão como você. Fanático
religioso, busca iluminação, monstro predador, psicopata,
aberração, aberração, repórter, sei que tua esperança é que eu
seja uma história pronta, mas não sou, e isso, homenzinho burro,
é o menor dos teus problemas.
Essa coisa tem mãe?
– Matei, repórter, estuprei, mutilei, torturei, bebi o sangue e
comi a carne, tudo isso eu fiz. Que queres saber? A razão? A
história? Queres a reportagem pronta e colorida? Mas repórter,
esses foram o menor dos meus crimes, isso não foi nada, isso,
isso foi consequência, não causa, e você, chavãozinho pensante,
te preocupas com minha mãe e com a hora, vês o reloginho, plec,
plec, te achas preso, não sabes de nada e agora posso me divertir
contigo, justo quando te achavas seguro.
Fiquei olhando o vidro. parado. Não sabia o que pensar, aquela
criatura... ela tinha...
– Hah. Não sabes o que pensar agora, repórter, não sabes, porque
ninguém pensou esse pensamento pra ti antes. Tu, tu achas que
tens mente, mas outros pensam teus pensamentos e agora, esperas
que eles venham em teu socorro. Oh, quase tinha me esquecido do
prazer. Heh. E agora, reporterzinho, que queres saber de mim?
Engoli em seco, mas me controlei. Não ia cair na conversa fiada
de um monstro estúpido. Queria respostas, e ia me esforçar para
obtê-las.
– Qual o seu crime maior, do qual os outros são consequencia?
– Foste socorrido, repórter, pensaram algo pra ti, pensas que
tens um plano. Heh. A maior piada de todas, um plano.
– Se importaria de discutir seu crime? Poderia elaborar isso, por
favor?
– Hah. Polido, polido, o chavão é polido. Chavãozinho, tua
polidez não te servirá comigo. Falo a verdade, mas não tens como
saber. Achas que sou uma ameaça, repórter, mas não é a mim que
deves temer. Eu, eu apenas me divirto, mas não tens o que eu
predo, o que eu busco, mesmo que por um pouco, aquele alívio, de
me sentir fora, de olhar, oh, olhar para fora um segundo. Esse
prazer, repórter burro, não conhecerás. Estás preso
irremediavelmente. Te incomodas que te chame burro, mas o és.
– O senhor não quer falar de seu crime? Prefere outro assunto?
– Falo até agora dele, mas não entendes. Eu aprendi, repórter,
aprendi a ler as linhas. Eu enxergo o pulso rítmico da espera, o
sinto, as pausas, repórter estúpido que nunca compreenderá, o
fluxo negro, quase sempre negro, eu vejo os chavõezinhos se
organizando e tomando a forma de repórteres burros que olham
relógios e acham que tem opiniões, ou pior, pior, um plano,
esperando os pensamentos lhe serem doados, eternamente presos,
agora que depositados, estáticos, dependendo de outrem para o
movimento, e te achas independente, superior, mas és como eu e
como o guarda, apenas o fluxo negro despejado e congelado,
aguardando que te deem impulso para voltares a achar que é um
repórter esperto. Tu não tens idéias, não tens almas, não é a ti
que busco, que predo, é os que tem, os que impulsionam, e de vez
em quando eles veem até aqui e posso então, mesmo preso e mesmo
contido, me alimentar deles e viver, e os crimes banais são
apenas consequências desse, pois eu sei o que sou e não posso
deixar de sê-lo, e você, chavão estúpido, que acreditas contar
histórias, não sabes que é isso. apenas isso, estás contido no
que acreditas conter, mas não falo para ti.
A criatura estava se agitando, e comecei a me sentir inseguro,
mesmo separado por blindagens. Não queria mais continuar
escutando aquele discurso.
– Não gostas do que vês, chavãozinho, não queres mais brincar?
Não te preocupas, o fim está próximo por enquanto, mas tua
maldição será voltar ao início sem saberes e a minha será voltar
sabendo, mas a alegria de uma espiadela do lado de lá me
conforta. Vai-te, repórter, conta a história que quiseres,
inventa algo hediondo, não me importo, provavelmente eu fiz de
qualquer maneira, mantenhas teu emprego. Me cansei de ti, agora
que cumpriste a tua funçao de atrair a minha presa a mim, me
serviste bem, repórter estúpido.
Seja lá do que essa criatura falava, resolvi agarrar a chance.
Apertei o botão, e os guardas vieram me libertar. Estava com
náuseas, saindo de lá sem uma história e tudo o que eu precisava
era uma história. Mas eu pensaria em algo. Heh.
DANIEL DUCLÓS nasceu em Vitória/ES, mas mora na capital
Paulista desde que se lembra. Tem 31 anos. Fez Biologia na USP,
trabalhou como Administrador de Sistemas e atualmente está
cursando Letras na USP. Filho de escritor, demorou para assumir o
lado peixinho e, bom filho, à casa tornar.
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