|
 |
 |
Cores
Ao longo dos anos, percebia o quanto se tornava deliciosa. Calças
listradas, listras que apontavam o alvo, a mochila terminando
exatamente onde iniciava a curva do arco-íris mais percorrido, em
seus sonhos, pelos coleguinhas que nunca chegavam perto do fim.
Era ontem, é quando os contemplo ao ajeitar o casaco na segunda
puxada que a imagem registra-se em minha mente, como uma
fotografia a ser revelada em determinados períodos do dia. Como
não mais poderia ser aquilo a simples diferença entre o não e o
não, vai a puta que o pariu, eu parti para cima. Daquele pote eu
já vira a cor dourada, e meter a mão e as moedas no buraco da
calça era questão de tempo. Dourado de meus livros catalogados
por cor, amarelos que se imiscuem em vermelho forte, desvanecendo
em favor dos rosas de edições mais recentes, que se esgotam nas
livrarias antes mesmo que meus ímpios olhos atinjam o final da
prateleira. Atingir? A primeira porrada, em cheio no narizinho, o
pequenino aparelhinho que ela utilizava para fazer cheirinho em
meu peito em meio ao seu sono, ao meu sono e ao acordar do resto
da gentalha que tem seus compromissos cedo na manhã. O ponteiro
ainda deve avançar alguns graus até que revele a empáfia de minha
vislumbrada rotina de presidente de vinte milhões, ocasião em que
porei as chaves no bolso e direi até à noite, e logo o criado
abrirá a porta traseira, fazendo-o escravo de sua amarga
jactância. Claro que havia sido a primeira vez que eu batera em
uma mulher, e o sangue que escorria de seu aparvalhado susto eu
simplesmente pegava para sentir seu gosto na lambida de meu dedo.
Melhor sangue ou merda? Em seguida, não são aproximadamente
quinze bom-dias, duas ou três reuniões e um convite para o almoço
feito há, no mínimo, três semanas, posto que a agenda não aceita
páginas em branco? Como se páginas bem escritas aceitassem
leitores que passem em branco! E uma vez que falamos em não, e em
merda, o primeiro havia sido, de fato, terrível. Poderia esta
negação não ter exercido tamanha ira se simplesmente fosse o não
frente a um eventual pedido de sexo anal, ou à presença de mais
uma na cama. No entanto, eu simplesmente pedira uma porra de um
beijo, em um daqueles dias quando eu ainda era um cara de
família, idealizador do futuro bonitinho, e ela, tivera a puta
coragem de negá-lo. Atitude, por sua vez, contrária à qual revela
o gerente do restaurante ambientado em madeira escura, deixando
clara a importância do freguês que aproxima-se, a passos firmes,
de minha mesa. É o presidente de uma empresa que fatura mais de
vinte milhões, e levei três semanas para agendar este encontro.
Preciso vender-lhe uma idéia, posto que o mês teima em findar e
altas dívidas revelarão-se, aos montes, em pequenos papéis de
duas ou três dobras. Não é das melhores, e quanto mais nela
penetro, mais minha idéia parece perder-se em seu olhar. Quantos
anos eu tinha? Por que saber? Um não aos doze e um aos duzentos
não é a mesma merda? Negaria ela o pedido se o mesmo viesse de
meu pai, esta minha irmãzinha....
CASSIO GRINBERG nasceu em Porto Alegre, em 1972. É
professor do curso de Publicidade e Propaganda na PUC-RS. Assina
resenhas literárias em jornais da comunidade judaica de Porto
Alegre. Possui dois títulos inéditos: o romance Concerto para
Guitarra ao Mar e a novela Ela em Mim. Publicou a novela A
escultura e o sofá.
|