Como um velocípede abandonado

Reencontrá-lo, para isso ela saiu de casa. A dor hoje, vinte e dois anos depois do acontecido, teima em não ser a mesma. Nem o amor. Seria um exagero da vida fazê-los amar e sofrer daquela maneira. Não era mulher de vinganças, porém, mais do que os traços de seu filho crescido, ansiava pelo rosto da responsável por estes anos de infortúnio. A calçada sem fim à frente da delegacia rebuscou num escaninho empoeirado da memória a lembrança daquele dia: o pequeno pedalando até o final da calçada num velocípede e ela lendo. Chegando à esquina, erguia o braço para o aceno e num átimo estava de volta. Celebrando sua velocidade, - ou uma lagartixa que cruzara a calçada - retomava a subida. Poderia dizer qualquer coisa, contanto que não lhe atrapalhasse a leitura. Apenas mantinha um espiar que a ele sugerisse segurança, a contrapartida seria a certeza de que o menino ainda seguia por ali e não sob as rodas de algum carro que passasse. Súbito, lá longe vinha órfão de piloto o velocípede desgovernado. Largou o livro e foi ao encontro. Repetia para si mesma que era apenas mais uma desatenção infantil. Talvez tivesse ido atrás da lagartixa. Mas aqueles olhos que já não conseguiam guardar as lágrimas, não viam filho, velocípede, nem lagartixa. Da esquina, olhando para os quatro lados, nem cachorro se movia. Subiu-lhe dos pulmões e veio parar na garganta um nó que tinha o tamanho de um punho fechado. Toda fêmea apartada dos filhotes sabe como ele asfixia. Voltaram para casa, ela e o velocípede. Mesmo sem saber por onde começar a procura, tentou, de todas as maneiras possíveis, todas em vão.

Agora, sobe os degraus da delegacia com aquela cena na cabeça: ele na moto, a moto sozinha. Pensa se ficará comovida ao ver o pequeno abraçado à outra. Coração de mãe não aceita essa divisão, quer exclusividade de cada um dos filhos. O dela sim pode ser dividido, partes iguais para cada rebento.

“Mãe? Que mãe? Como pode chamá-la assim?” Respondendo à pergunta de um repórter se dá conta da raiva que pensava não ter mais.
Pelos corredores adentro, indo ao encontro do escrivão, imagina como o seu pequeno estaria agora. Continuaria com aquele emaranhado de cabelos onde as escovas não entravam? Genioso, como quando lhe arremedavam as palavras mal pronunciadas? Tinha duas paixões: tortas de bolachas e o vermelho. Tudo tinha que ter esta cor. O velocípede era assim. Se ele for para casa hoje terá uma surpresa. O quarto, recém pintado, ajudará no resgate daqueles tempos. Uma tentativa de mãe, querendo montar um mosaico daqueles fragmentos de lembranças. São elas que adoçam os minutos que antecedem o encontro: ali dentro, enfim, os três. A caminhada transpira expectativa. Pensa as palavras que dirá; palavrões talvez. Não, um olhar, somente um olhar. Que tivesse a força de mil bofetadas. Lançasse-o sobre ela e quase tudo estaria resolvido. O resto a Justiça haveria de fazer. De um daqueles biombos vem um som ritmado de máquinas de escrever que se mistura ao murmúrio, como numa reza. Seus olhos são os primeiros a entrar. E não se enganam, olhos de mãe vão direto, sabem o que procuram. Não entende como não encontra logo o olhar do filho, vagueia mais um pouco, entre jaquetas de couro e cabeças abaixadas. Agora sim, parece estar ali. Mas desanima ao encontrá-lo, percebendo que tem outro destino. Busca a outra mãe que lhe deu os cuidados que foram necessários, afastando do caminho as quinas afiadas das cadeiras e dormindo ao lado nos sonos ofegantes das noites de inverno. O escrivão lê e as palavras saem como pedras catapultadas daquela tarde distante e que agora tornam-se chuva: “A acusada contou que no dia 27 de fevereiro de 1970 estava caminhando pela rua do Arvoredo, quando encontrou um menino sozinho andando de velocípede...”. Mentirosa! é o que cospem as pupilas apertadas da mãe. O filho, inquietado, descobre o espreitar raivoso. Adivinha ser daquela que lia na calçada. Mas as imagens, todas que restam daquela infância distante, parecem tão turvas, que ele também já não se conhece mais. Apenas abraça a algemada. Os braços ossudos cobertos pelo casaco vermelho. “É o meu menino!”, a mãe reflete, num riso que consegue misturar ciúme e nostalgia. E observa aqueles dois por um tempo, tentando compreender a ternura de filho com a mãe que sofre, traduzida por completo naquele abraço. Uma ternura que não merece ser desfeita. Tenta dizer algo por mais de uma vez, mas os olhos proíbem. Vira-se e sai, sofreando os soluços. Os dedos suados de tanto se apertarem. Passos decididos de mãe. Ainda sem rumo, mas com a intensidade de quem carrega uma decisão que adia um sonho.

Na lixeira em frente à delegacia pôde-se perceber o movimento das rodas de um solitário velocípede vermelho. Como que impulsionadas pelas mãos de uma criança ou, quem sabe, por uma outra força que teima em fazer a vida girar, girar, girar...

CLÉO DE OLIVEIRA
, 38 anos, participou da oficina literária do Charles Kiefer em 2003, tem alguns contos publicados em antologias de concursos como Editora Cartaz, editora Asabeça, Concurso FACCAT (primeiro lugar) e Jornal o Globo, I concurso Contos do Rio.