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Beatriz de janeiro
A mão trêmula conduziu a taça aos lábios. Da boca sedenta, uma
gota correu, escorrendo sobre a mesa. E o que era tinto, na
madeira transformou-se em um ensaio lívido. Havia, a sua volta,
todos os homens. A eles lapidaria cada uma de suas pontas. Eles,
por sua vez, consumiriam seus vícios com avidez voraz.
Levantou-se sob o compasso do álcool e seguiu, sozinha, para o
lado de fora. Procurava sempre as portas que a levassem longe.
Estendeu o polegar, depois o indicador, o mindinho, por fim,
deixou-a com a palma da mão explícita e um comprimido. Engoliu-o,
sem muito pensar. Minutos depois, a cabeça encostada na parede, a
blusa desabotoada, as mãos passeando pelo próprio corpo e o corpo
encharcando as mãos que passeavam. Suava perdida, queimando os
ventos que lhe cobriam.
Veio, distante, um fio de voz. Não conseguiu vencer o peso dos
olhos, que pulsavam frenéticos, como o sufocado coração. Fios de
vozes; toques; seu corpo avenida, travessia de todos;
violentamente. Riu-se inconsciente. Riu-se enquanto sentia
sucessivas pontadas. Riu-se porque a dor lhe aprazia mais que
qualquer coisa. Ardendo, ia-se recuperando. E os fios iam-se
rompendo. Os passos afastando-se.
Deixou-se acordar pelos fogos. Um ano novo, que novo não se
concretizaria. Abotoou a blusa, subiu a calcinha e a saia. A
mente entorpecida, os movimentos atemporais; intermináveis. Na
mesa havia ninguém mais. Seguiu andando, envolta por ecos de
felicidade, que lhe invadiam. Invadiam os ouvidos e tornavam a
consciência ensurdecedora. A existência um fardo.
®Diana de Hollanda
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