Torre de chamas


(I)

Quando Cristina parou o carro, alguns vultos espreitaram para o interior, do outro lado da praça. Eram três homens, um deles com a cara barbeada e os olhos castanhos grandes. Os outros dois, um mais novo e o outro, muito mais velho, esperaram que o clique da porta se fizesse escutar, anunciando a saída do corpo de Cristina, para desviarem os olhos, fingindo continuar alguma conversa ou certa visão interrompida dentro de uma taberna. Só o homem dos olhos castanhos, semicerrando-os, parecia continuar a interessar-se por Cristina.
A docente universitária, atrás dos elegantes óculos escuros, aproximou-se do homem que sorriu.

"Boa tarde!" disse-lhe Cristina.
O homem rodeou-a, diante do olhar mais simulado do rapaz, do velho e de, agora, alguns outros, a atenção sobre uma música popular gritada por um transístor desfeita, e até o homem da taberna parecia questionar o porquê daquela revolução na praça.
"Acabaste de chegar, Cristina! Estás a ficar velha!"

Cristina sorriu e um rubor inesperado tomou-a, mesmo com os elegantes óculos escuros colocados.

Uma mulher, rastejando uns socos, com uns sacos pela mão, cortou a praça. O seu rosto escarlate parecia anunciar alguma explosão eminente, trazendo ainda a força de um sorriso escancarado, um petiz cativo pelo pulso que gemia a pobreza da mãe que não consentiu a satisfação de um capricho tão simples como um camião espreitado num supermercado ao longe, numa ruela, que desembocava almas apressadas no pátio público.
Passaram por Cristina. Cristina, perdida a inocência do rubor descoberto, aproximou-se do homem de olhos castanhos grandes e comentou quase junto do seu peito qualquer coisa, o que levou os homens da taberna a comentários curtos e plenos de sabedoria.

Talvez o rapaz a tivesse olhado com maior curiosidade e o velho se tivesse persignado em silêncio sem gestos, agradecendo a mulher que tivera, talvez os outros se tivessem lembrado de outras alturas, mas a nenhum deles passou incólume a intimidade criada, ali, naquela praça, a mulher rastejando uns socos, um miúdo puxando um sonho cada vez mais impossível, a sua voz mimalha perdendo-se em ruelas que pareciam alargar-se nos montes em redor, parecendo perder-se num emaranhado de linhas de fogo que cortavam, ao longe, os cumes e as montanhas.

O largo tornara-se um compromisso, um segredo, entre dois estranhos àquela terra. Talvez algum homem, mais rápido no pensamento, ou mais experimentado em função de emoções, tivesse dito qualquer coisa como "vêm encontrar-se" e os outros, baixando os olhos, fizeram-no por solidariedade com o homem de olhos castanhos que perguntara, não há muito, é aqui a Torre, sim, disse o homem gerente da taberna, na esperança de consumo, mas logo a esperança se esfumou num som de outro carro que chegava, até trazendo uma mulher a guiar, ainda por cima de óculos escuros e de rosto liso e maquilhado.

Agora, não me parece difícil imaginar Cristina a chegar, assim, a Torre de Dona Chama, concelho de Mirandela. Cristina sempre conservou uma interessante memória, não direi fotográfica, porque Cristina apreciava poucos rostos que não fossem o seu. Minto, mil vezes minto! Cristina apreciava os rostos dos homens que conhecia, com quem falava, que amava. Mas, depois, não sei quanto tempo passaria, e esses rostos desapareciam, evaporavam, nada mais eram na sua memória. Nem os nomes. Desfazia-se dos rostos e dos nomes com a volúpia de um esquecimento de corpos abandonados aos abutres.
Lembrar-se-ia, hoje, ainda, de mim?

Não há muito tempo, alguns meses, quatro, eventualmente, Cristina telefonou-me. Vem ter comigo. Escolhera uma minúscula pastelaria numa rua transversal à Sé de Braga, o emaranhado gótico a poucos metros, os seus dedos pequeninos a poucos centímetros das minhas mãos ansiosas. Cristina lembrava-me sempre a possibilidade do amor. Era possível amar alguém, assim eu pensava quando reencontrava, vezes sem conta, Cristina, em dias felizes da minha vida.

E então, diante do meu fascínio, falou-me da expedição à Torre de Dona Chama. Falou-me logo do Isaías, aliás, a sua franqueza era avassaladora, nada escondia desses pormenores, pormenores dilacerantes para quem, como eu, ia alimentando esperança de tomar-lhe as mãos enquanto devorava cada palavra que aqueles lábios expunham. Quando me falou de Isaías, senti que Isaías ainda vivia, ele ainda respirava, talvez ao longe, no reino da sua memória. Isso entristecia-me, por vezes, mas eu procurava não acusá-lo. No quarto da memória de Cristina só um homem tinha lugar, de cada vez, ninguém mais. Nenhum outro.

A Torre de Dona Châmoa. Assim se podia contar a lenda que Cristina procurou, entre ruínas, no passo alto de Isaías, no seu braço vigoroso que, sem inocência, a ajudava a subir rochas ou descer sobre giestas emaranhadas no planalto da Terra Quente. Châmoa existiu mas não era moura. Podia ser moura, retorqui eu. Entretanto, entrou na pastelaria uma mulher e uma filha, sim, ela era filha da mulher, e no entanto, a mãe parecia fingir a juventude que a filha ostentava. A filha, de olhos negros, manchados pela paixão da novidade, deflagrou-os diante da minha imperfeição. Disse, dessa vez, Cristina: a miúda gostou de ti. E Cristina, Isaías cada vez mais sem ar para sobreviver, aproximava, sem sentido, os seus dedos pequeninos das minhas mãos. Das minhas mãos ansiosas.

Podia ser moura, decerto pensou Isaías. Mas Cristina não pretendia averiguar a ascendência de Châmoa. Aliás, figura bem estudada por homens devotados a criar árvores de ancestralidades. Sobrinha de Mumadona, esta uma mulher fascinante, edificadora, visionária. Châmoa, a sobrinha da mulher mais poderosa do noroeste ibérico. Châmoa, a senhora das terras de ribadouro, dos bragançãos, dessas terras de cultos antigos, acusados pelos monges, dessas terras de sarilhos, de mistérios, de paganismo, de superstição, de masculinidade, de rituais. Châmoa, a aventureira, a senhora do sonho, do mistério, do oculto.

A comparação tornava-se inevitável.
"Ela era parecida contigo?"
Cristina esperou. Que coisa monstruosa termos alguém parecido connosco! Que falta de originalidade, que desperdício que a humanidade cria, ou consente, ou ignora! Claro que não, soletrou Cristina, a filha e a mãe saíram, voltava a ficar eu, as minhas mãos descontroladas e suadas, os dedos tamborilando de Cristina, a vista controladora da pasteleira.

Châmoa deveria ter um triste hábito. Cristina sabia-o. Procurava um dia, certas informações sobre outras lendas e fascínio estranho deteve-a, enquanto folheava o "Livro das Lendas", numa figura feminina, jovem, desenhada semi-nua, de costas, a silhueta sugerida suportava uma leve franja de tecido, diante do olhar deslumbrado de um rapaz, cristão diria a minha narradora, mais tarde, diante do olhar desnudado desse homem.

Os dedos pequenos de Cristina cadenciavam o discurso. Olhava-os e sentia-me como um homem que trabalhava no infinito das montanhas, cantando segredos a um pé de carvalho que animava uma pretensão de enxada. E esse homem escuta, no som ecoado de entre as películas de nevoeiro que se adensavam no continente, vários cavaleiros que entram nos seus prazos e lhe perguntam o nome. Os olhos desarmados do homem não podem negar a sinceridade do seu corpo, o eco da sombra semeada nessa mesma terra. Fica a saber que a senhora das suas terras, a senhora dos senhores dessas terras, chama-o. E esse homem, escoltado, sabe que aquela Torre, aberta de tempos em tempos, num estranho som de desaparecimento, nada augura de bom. No seu peito, invade-o uma corrente de frémito e de medo. Pensa, ao longe, na enxada que não o deixaram trazer, dispersa entre os regos que abria, aí sepultada, ou abandonada. Pensa nalguma mulher que prometera casar, onde estará ela, o nevoeiro invade-lhe o corpo, uma película húmida deposita-se na garganta, desce até ao peito, instala-se como contagiando o resto do homem de uma sensação de frescura, semelhante a um odor embriagante, trazido de aromas dispersos, não os odores dessa terra dele e da sua enxada, não esses odores familiares como o odor das mãos suadas de uma mulher prometida, ou o cheiro pessoal dos seus cabelos de castanho doirado depositados em si. Não, parecem-lhe odores que o circulam, que o cercam, que o abraçam. E o homem, desprotegido, cada vez mais alheado, encontra-se num largo salão interior à Torre.

Cristina fala-me, directamente, e pergunta-me se me lembrava de Acácio.

Conheci-o, por acaso. Um homem compadece-se perante um rosto masculino que olha, fixamente, o borbulhar de um fino que vai crescendo. Um rosto que ameaça encher-se de vermelhidão, em redor dos olhos, até despenhar-se numa torrente de palavras.
Acácio estava sentado a meu lado. E começara por se definir. Deixara casa, pais e namorada na terra. Vinha trabalhar para Braga. Só aí encontrara emprego, como professor de um colégio privado. Sonhara, anos a fio, desenvolver a sua terra do interior, dedicar-lhe anos, dedicar-lhe trabalho, dedicar-lhe o suor. Esperara, anos a fio, poder casar e dar à esposa o lar estável que ambicionara, em utopias distantes. Fora colocado em Braga. Não conseguira colocação mais perto. E, em Braga, sentia que o futuro podia ali começar, podia ali crescer, podia ali ir ao jardim infantil, à escola, formar-se depois. Mas, ali, só, parecia que o seu espaço, estreitando-se, sufocava-o numa redoma opaca. E olhava, com algum fascínio, o fino, que, ao fim e ao cabo, se assemelhava aos finos da sua terra.

Cristina perguntou-me:
Porque teria ele contado, logo, isso tudo?

Os meus olhos levantaram-se e Cristina perseguia os dedos com os seus. Acácio não só me tornara o confidente desse segredo. Cristina chamara-o para o seu leque circunscrito de amigos e passavam, os dois, longos serões em casa dela, vendo televisão e escutando a rádio, para lá da meia-noite, as luzes apagadas, só o som passeando, languidamente, entre os olhos excessivamente presentes dele e o vulto observador de Cristina. Nunca lhe perguntei nada mais sobre Acácio. Dificilmente, acreditaria na lenda do rádio que passeava sons pela trela. Mas Cristina acreditava nesse mito.

Mas Acácio foi chamado um dia. As mulheres, como as terras, ou como todo o cosmos que gera, não se deixam em promessa, ou abandonamo-las ou recebemo-las e tomamo-las.

O que foi feito de Acácio?
Eu encolhi os ombros e, no auge da minha inveja, desejei que estivesse repleto na sua sensibilidade, chefiando alguma organização local, engordando como um pai de família, ao lado da mulher forte que trazia crianças pela mão.

Châmoa terá recordado outros ao olhar o homem. E terá perguntado, o que será feito deles? Talvez os seus algozes soubessem algo, talvez esses cavaleiros devotos, no silêncio do sono satisfeito da senhora tenham desfeito os rapazes sequestrados das terras nubladas do senhorio da Torre. Talvez, um dia, Châmoa tenha dado essa ordem, diante de uma rapariga caída, desmaiada, no chão do seu domínio, certa a notícia da requisição sobre o seu predilecto. E Châmoa, junto dela, perguntou-lhe porquê. A rapariga cuspiu-lhe e, com as unhas sujas, rasgou-lhe o véu cândido do seu rosto. E Châmoa teve ciúmes daquela mulher do povo.

Os homens deixaram a senhora diante do homem. Entre eles, a visão observadora de Châmoa, o corpo incompreendido do homem, uma mescla de perfumes caminhava e enchia os espaços. O cheiro a terra, o odor do leite derramado de uma cabra, rosas feridas, ervas arrancadas, o perfume dos animais amansados, o aroma de tangerineiras na flor da beleza, a essência da alfazema, a bonina dispersa no caule decepado, as águas vertidas em cachão, o sabor das amêndoas quebradas no sagrado da boca, a hortelã na evaporação da efervescência, o mel condensado como doçura, e o som arrepiante de um dedo que chega à nossa cara.

O homem estremece. Acorda. Châmoa, os olhos devoradores, beija-o. "Por hoje não" talvez ela tenha dito aos algozes, "por hoje não".

E Cristina olhou-me. Tomo-lhe as mãos, prendo-as. Sinto-as indefesas, dentro das minhas mãos. Beijo-lhe as mãos e os dedos nervosos. A pasteleira desvia os olhos. Sinto Cristina tão poderosa, contemplando a minha sofreguidão. Mas as suas mãos são minhas, minhas, quero gritar. Como se ela tivesse dito "Por hoje, eis as minhas mãos. São tuas!"

Sei que foi isso que disseste, Cristina, ouvi-o. Por que então voltaste a repetir, numa cisão em tom pedagógico: "Por hoje...não."


(II)

Telefonou-me, depois, num outro entardecer. Aparecerás, perguntou-me, num jeito muito estranho, na sua voz. Parecia suplicante, longínquo, desconhecido.

A Rua do Souto, em Braga, veia cava do Centro Histórico, disponibilizava um rol de gente apressada ou sorridente. Dificilmente, encontrei, dessa vez, alguém que sorrisse e que demonstrasse pressa. Quando entrei num pequeno café-restaurante defronte do Largo do Paço, quando me sentei e pedi um pingo simples, enquanto esperava Cristina, sempre atrasada, formulei a conclusão curiosa de que a estabilidade pode gerar alegria e felicidade, dificilmente, a pressa, o sentimento do incompleto, do dever insatisfeito, a culpa, ou o pecado.
Coloquei-a ciente destas minhas conclusões. Cristina não terá prestado a mínima atenção. E rematou logo, célere, desafiando as réstias do meu mundo desiludido:
Criarias um portfólio para a minha história?

Criar! Também esse homem, disperso num tempo medievo, por ventura incorpóreo, por ventura irreal, terá pensado nessa palavra, talvez noutro som, noutra simbologia, mas nisso! Criar! Criar! O corpo dormente de Châmoa, languidamente depositado a seu lado, a sua mão sobre parte do braço dele, num estranho elo. Há quanto tempo Châmoa assim o alimentava, o observava, o contemplava, o amava! Teriam passado semanas. Os homens das armas, diante dele, transformavam-se, de faces jocosas e críticas, a olhares quase submissos, a gestos tão humilhados como os consagrados à senhora. Criar! E criar pode ser produzir, ver a enxada novamente com movimento, os rebentos revoltarem-se contra a tirania do solo pesado, a geada desfalcada nos ribeiros pelo chapinhar do passo dos cães, o frio sussurrar-lhe mortes distantes num abraço dos ossos. E Châmoa, o olhar cândido em repouso. Levantou-se. Vestiu-se. Ao longe, os seus prazos, a sua noiva, a sua aldeia. A notícia do seu sequestro pela vontade devoradora de Châmoa terá levado os parentes a profetizarem-lhe o fim, o desaparecimento. Como o de outros, nunca mais encontrados. Teria a noiva guardado os segredos de ambos? Teriam os prazos ficado intocáveis, em espera? E eis que um dos guardas da fortaleza escorraça com o cabo da lança um rafeiro que lhe faz guerra. Xô, xô, e desfere-lhe pazadas, diante do gozo provocado nos outros.

O homem recorda-se daquele latido sangrando raiva, daqueles olhos que bafejam. É o seu cão. Que o encontraria em tocas de lobo, se preciso fosse, que o resgataria dos covis dos ursos.

Châmoa, atrás de si, chama o guarda e diz-lhe para que acabe com a bulha. O homem incha o peito, vira a lança e trespassa o animal. O bicho lança para o homem um olhar último e, dir-se-ia sem esforço, cerra os olhos, por si. Os guardas recolhem-se ao ofício, e o executor, segurando com delicadeza o animal, trá-lo até ao salão.

Diante de Châmoa e do homem requerido, o soldado, humildemente, deposita a fera morta. O homem vacila e, por fim, fica estacado. Mas ela, com serenidade, passa a mão delicada pela ferida aberta, circunda-a e pergunta ao cão: É teu?

O homem fica mudo. Ela sabe que o cão era dele.

Cristina olha-me, mas trespassando-me. Sinto-me vazio, sem bases artificiais ou derradeiras. Ela sabe que o desejo de poder conceber uma obra é, para mim, fulcral. Mas não era essa a pergunta, a frase, que eu esperava. Sinto homens e mulheres moverem-se numa cozinha interior, discutem ordens de confecção, de apresentação, menus.

Posso ver... alguma coisa.

Châmoa não sabe se foi o cão, as saudades ou a estupidez. Daria a esse plebeu o seu domínio, amá-lo-ia, como nenhum outro mortal ela poderia ter amado. Mas ele, aproveitando uma noite, o nevoeiro escondia estrelas e luar, fugiu. Ter-se-á perdido, ainda pensou ela, encontrai-o, ordenou. Dia após dia, nenhuma nova. Procurai-o nos seus prazos. Procurai-o em casa de sua noiva. Procurai-o por todo o Reino. Procurai-o por toda a Terra.

Procurai-o. A sua dona chama-o. Procurai-o. E enlouqueceu. Esgravatava a terra e abria covas. Terá ele ficado soterrado? Terá ele sido engolido por algum lodo? Onde está ele? A sua dona chama-o.

E depois? Perguntei-lhe eu, amarfanhando sem nexo um guardanapo de papel.

Depois, o povo disse que ela era moura. Porque era inconcebível que tal comportamento fosse possível em mulher que se dissesse cristã. Dissoluta, bela, jovem, libertina e louca! Só uma moura, com pacto demoníaco, poderia ser essa Châmoa. Só uma estranha poria em causa a estrutura de fidelidade nupcial dos rapazes, só uma mulher detestável mataria quem com ela compartilhou momentos de paixão.

Far-me-ás isso?
E Cristina levantou-se, acreditando que o meu género a desobrigaria de pagar a meia de leite.

Cristina, chamei-a!
Cristina acenou-me com a mão.
Cristina, diria eu, posso fotografar-te?


PAULO REIS MOURÃO
nasceu em São Dinis de Vila Real, Portugal. Publicou "Os Cachos e as Mãos"; Editora Âmbar; Porto; 2005; "O Senhor de Fez e Outros"; Editora Âmbar; Porto; 2002; "Mosaico" (em co-autoria); Editorial Escritor; Lisboa; 1997.