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Rebeldes e Anti-heróis
- A Praga da Solidão
Eles, que ganham cada vez mais espaço, invadem definitivamente o
cenário das manifestações artísticas nacional; e para nos atermos
somente a um nicho específico, trataremos de brevemente
discuti-los na literatura.
Esses seres, em oposição aos grandes homens valorosos, dotados de
grande espírito virtuoso, guerreiro, que chegam às margens da
divindades, hoje tornaram-se caricatos, sem qualquer
credibilidade. As imperfeições e os conflitos internos que
caracterizam o anti-herói, permite que qualquer um de nós, meros
mortais distante da perfeição divina, possamos nos sentir também
um herói. Um possível herói que trabalha numa máquina copiadora,
um herói confuso com sua sexualidade, uma heroína beberrona e
desgarrada de valores de uma sociedade delimitadora, do herói
adolescente em busca do seu lugar no mundo, enfim... das
imperfeições que nos tornam humanos e nos diferenciam dos tais
pasteurizados "heróis-guerreiros-divino." As recentes produções
literárias (para demarcarmos uma época), tem revelado diversos
anti-heróis, rebeldes, desconexos, agressivos, sofredores, mas
todos sofrem de sintoma semelhante: A praga da solidão. Em geral
são personagens que encontram-se em estado de espírito exilado,
para extrair do mesmo, questionamentos que serão, em alguns
casos, solucionados devido a seqüência de epifanias. Um dos
anti-heróis mais famosos da literatura é o eterno problemático e
criador de confusão, Holden Caulfield, em O Apanhador no Campo de
Centeio, do recluso J.D. Salinger, que encontra aqui seu paralelo
aqui, num romance intitulado, O Habitante das Falhas
Subterrâneas, de Ana Paula Maia (ed. 7 letras - coleção
rocinante)
O romance em suas quase duzentas páginas que rejeita divisão por
capítulos, está escrito numa seqüência de perder o fôlego e nos
traz a história do jovem Ariel Esperanto. O texto descreve um
clássico anti-herói, que não causa menos empatia que muitos
outros. Mas o âmbito dos anti-heróis estende-se a toda história,
revelando-nos espécies das mais diversas. O livro parece um tipo
de anti-literatura proposital, bastante irônico e divertido. Uma
das qualidades que pude observar na construção da narrativa, é
que Ana Paula possui um tipo de ótica e forma de apresentação das
idéias bem peculiares. Apresenta diálogos muito bons, e
principalmente, vamos conhecendo esse personagem através de suas
atitudes, verdade que, nem sempre louváveis, mas carregadas de
determinação.
".......embora admita que me identifico bastante com o tal jeans
stonewashed porque sou meio desbotado de fábrica também. É
exatamente assim que me sinto na maior parte do tempo, desbotado,
às vezes embaçado. Nas horas de maior angústia fico sufocado e
acho que deve ser por causa do tal efeito Estufa que deixa tudo
tão quente quanto o inferno e me deprime bastante saber que desde
aquele tempo as pessoas já morriam de fome na Etiópia e os
Estados Unidos faziam centenas de cagadas pelo mundo afora.
Certamente nasci junto com a Era Das Tecnologias Que Cabem No
Bolso talvez por isso além de desbotado e sufocado me sinta tão
pequeno apesar dos meus 1,75m de altura. "
(trecho de O habitante das falhas subterrâneas).
Confesso que não foi fácil gostar do livro na primeira leitura.
Via apenas o lado arrogante do personagem mergulhado em
idiossincrasias, mas depois percebi que são suas colocações e
idiossincrasias que o tornam estimado. O personagem é uma faca de
dois gumes. Depende do humor do leitor para percebê-lo por uma
das óticas ou as duas simultaneamente. É quase um
descortinamento. E o ensaio, pode se dizer assim, de uma mulher
se aventurar pelas vielas do (sub)consciente de uma mente
masculina, é outro detalhe muito bem sucedido e executado com
tamanha verossimilhança. As observações, os detalhes, a linha de
raciocínio, as conclusões, parte de um esforço da autora que
consegue narrar uma história coesa sem embaraços, tropeções ou
caroços. Digamos que é uma história de um anti-herói, calcada em
um outro, permeada de tantos outros, menores e maiores em
aparições, mas de igual valor. Os rebeldes e anti-heróis,
transgressores contundentes cativam leitores em suas desventuras,
geralmente por vastos espaços urbanos, esbarrando com alter-egos,
discutindo a própria identidade e com um sentimento de pouco
fôlego para suportar as calamidades da vida contemporânea.
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