 |
 |
Segunda com osso
Não eram seis ainda e eu lambia, a língua quente de café, cada
notícia impressa no jornal. O jornal era uma mordida maçã em
preto e branco, cheia de letras. Culpa do buldogue do João,
especialista em dentadas redondas no canto superior esquerdo.
Cachorro puto, sua paixão era o menino das entregas.
Joguei o jornal no balcão, dei uns trocos ao João e disse da
próxima vez bota menos açúcar, coisa doce demais sempre enjoa.
Ele disse pra curar pileque tinha que ser era com sal, riu aquele
riso encatarrado que me fazia pensar na garganta dele e eu peguei
meu chapéu e fui embora. E eu fui embora pensando na belezinha
roliça que tracei noite passada, eu duvido que Grace Kelly seja
mesmo o nome dela, nome de princesa e de princesa ela não tem
nada, quase que acaba comigo. Pensei, assim, só pra guardar na
memória, pra depois não precisar pensar mais.
Eu dava um tempo com a Rita num quarto sujo na Farrapos, virei a
chave devagar e pisei em ovos, primeiro com um pé depois com o
outro e fechei a porta de novo e assim por diante. A Rita estava
dormindo com a garrafa de cana do lado, era uma imagem tão
poética. Sentei na ponta da cama e tive vontade de fumar charuto
mas eu nem fumava, aí decidi deitar e deitei de sapato e tudo.
Perto da Rita tinha um livro que ela estava lendo, Depressão -
Como acabar com essa inimiga, a Rita era mais ou menos burra.
Ela não tinha carne e eu gosto de carne, parecia um rabisco de
criança sobre o lençol. E os ossos dela cheiravam a pinga. A
única coisa que a Rita tinha que prestava era um guarda-chuva
preto bem grande, bem forte, escorado do lado da penteadeira,
olhei pra ela e disse a vida não é tão ruim, meu amor, tu tens um
belo guarda-chuva, hein? Ela roncava e era claro que morreria por
mim.
Cheiro de rabo sujo de velho no quarto, deduzi que ela devia ter
trabalhado aquela noite. Na mosca. Remexi a gaveta da penteadeira
e peguei dois terços, deixa o resto pro vício da pobrezinha.
Mixaria atrás de mixaria, ricaço consegue material muito melhor.
Voltei a deitar e liguei a TV no Tom & Jerry.
A Rita acordou e o sol era tão amarelo, ela quis me lamber com
aquela língua mole e eu não deixei. Ela choramingou e se grudou e
se esfregou tanto em mim que até era bom, peguei a garrafa e
tomei um gole. Eu preciso tanto de ti, benzinho, a pele dela era
fácil de arrancar.
Já te contei que o cavalo de Alexandre O Grande se chamava
Bucéfalo? Faz de mim o que tu quiser. Era um cavalo bem difícil
de montar. Deixa eu cuidar de ti, amor. E eu acho mesmo que o
Luís XIV era um baita cagalhão. Ela tirou minha camisa e tentou
me arranhar com a falta de unhas. Dizem que o Stalin apagou o
Trotsky das fotos. Ela me beijou com a boca escancarada, oh
amorzinho amorzinho. Tu sabes quem é o Trotsky? Ela tirou a minha
calça e eu baixei as alças da camisola dela. Tu és mesmo uma
desgraçada. Suspiros. Tu não tens nada, tu não és nada. Gemidos.
Um tapa na cara dela. Oh amorzinho
amorzinho.
A Rita disse eu preciso de ainda menos. Parei e encarei a magreza
dela com um desejo maior do que o de um buldogue por um bife. Eu
disse sou um sujeito sorumbático. Ela concordou. Dentadas,
sangue, pelancas. Oh amorzinho amorzi... Lindo roer os ossos da
Rita na hora vespertina.
ANA COSTA DOS SANTOS estuda Jornalismo na UFRGS e publica
eventualmente alguns de seus trabalhos na e-zine Loja do Subsolo.
|