 |
 |
O palhaço do circo de
ouro
O espelho fixado na parede móvel do camarim improvisado refletia
um rosto sem expressão de um palhaço velho e cansado das mesmas
brincadeiras que já não mais divertiam os poucos que ainda se
atreviam a ir ao circo ambulante. Traços de uma figura mambembe,
um palhaço, como tantos outros, mesmo assim um palhaço. Um dia
chegou a sonhar, nem faz tanto tempo assim, uns quinze anos, só o
tempo mesmo para passar despercebido, sem cautela é capaz de
perder-se no espaço temporal e sequer saber a idade, que idade
teria esse rosto no espelho? Olhava-se na altura dos olhos e
refletia.
- Se o espelho reflete tudo na mesma proporção, como saber qual
das imagens está dentro do espelho? Posso eu estar aprisionado
nesse maldito espelho e sequer suspeitar disso, pensou relutante
o pobre palhaço.
Conjecturas de um palhaço. Quem já viu uma coisa assim, se
pudessem ouvir tais palavras, se pensamentos não fossem, diriam
que o palhaço caducou.
- Tadinho dele!
Não podia mais esperar uma resposta vinda do outro ser refletido,
a apresentação iria começar. A maquiagem se fez como sempre,
perfeita! Anos de experiência permitiam ao palhaço pintar-se como
num passe de mágica, pudera, mágico já fora também, mas era a
prática e não a mágica que o espelho mostrava. E como para
prevenir, olhou mais uma vez ou foi olhado, não sabemos. A
maquiagem cingia sua face como um palhaço de um circo de ouro, a
borda do espelho era ouro, os pincéis tinham ouro, tudo era ouro.
Até o punhal com que vira no espelho um palhaço acariciando seu
pulso direito era
ouro, ouro banhado de sangue, um sangue dourado, e um palhaço
sorrindo vermelho.
BRUNO LIBERAL nasceu em Petrolina-PE (1981), é estudante de
economia da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia e
está escrevendo seu primeiro romance.
|