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Imagens desabrigadas
às
quatro.
encontrar-me-ei
com
ela
às
quatro,
conforme
me
disse.
conforme
eu
disse a
mim
mesmo.
conforme
mentiu. às
oito estarei
ainda
lá
esperando? e
qual
relógio
poderá
afirmar:
são
quatro?
meu
relógio
é de
ouro
e tem
até
aquela
corrente
mas
esqueço de
dar
corda,
me
esqueço da
seqüência
das
horas.
quantos
minutos
são
necessários
para
que
cada
coisa
se faça? na
verdade
um
dos
ponteiros
caiu há
muito,
muito
mesmo.
ficou solto
ali
dentro
daquele
visor
encardido.
sim,
é
um
relógio
antigo
e
guarda
o
tempo
passado.
todas as
horas
são
um
punhado
de
grãos
indistinguíveis.
mas
sei
que
quando
o
coronel
sai e bate a
porta
daquele
jeito
são
três
em
ponto.
encontrar-me-ei
com
ela
às
quatro.
conforme disse, o lugar deve ser este. conforme combinamos. mas advertiu
que mentia. mas não acreditei que mentia. mas não acreditei que fosse
capaz de mentir. por isso vim. por isso estou aqui. e são talvez já oito
horas. não neste meu relógio indolente. nos outros relógios do mundo são
oito. serão nove, quem sabe? neste relógio que observo, tendo há muito
esquecido qual dos ponteiros se perdeu, o tempo é sempre um caminho
impossível. conforme menti a mim mesmo ela estaria aqui, conforme eu
quis acreditar que jamais mentiria. são oito. punhado de intraduzíveis.
não, ela não veio. e já que sempre me esqueço a sequência das horas, não
importa se está atrasada – não significa que não vem. num relógio como o
meu, de ouro e com aquela corrente, quatro pode ser imediatamente depois
de oito. e isso quer dizer que encontrar-me-ei com ela daqui a pouco.
na verdade ela jamais disse que estaria aqui na hora combinada. eu é que
inventei um horário. ela nem tem relógio! nem relógio ela tem! como
poderia combinar um encontro comigo ou com qualquer outro alguém!? dei a
ela um pequenino relógio com uma delicada pulseira. ela recusou. anos
atrás. jamais quis aceitar presentes. e eu sempre a insistir, reconheço!
lembro-me que tive que devolver à loja aquela gaiola com o casal de
canários. anos atrás. punhado de impermanências. não quis o relógio e
não quis os canários e nem o chapéu lilás que ofereci e nem as luvas e
nem o pequeno lenço de seda e nem o livro de sonetos e nem o terço de
madrepérolas e nem aquele abajur estampado com motivos orientais e nem o
jarro de porcelana pintado à mão e nem a caixinha adamascada e nem o
exótico vidro de perfume e nem a estatueta de jade e nem os chás
importados e nem o colar de coral. e não tendo aceito o relógio jamais
poderia estar aqui na hora combinada. se chegasse, eu poderia suspeitar
que um dia aceitou um relógio, delicado ou não, de algum estranho. mas
não de mim.
às cinco não aguentei e descasquei uma das laranjas que iria oferecer.
às seis aquele gato esquisito sentou-se aqui ao meu lado. às sete três
moças passaram apressadas para apanhar o bonde e eu soltei as flores que
segurava. às oito uma folha de jornal perdida foi sendo arrastada pelo
vento e eu acompanhei seus movimentos sem sentido. às nove minha cabeça
começou a doer e os meus pés começaram a latejar. às dez uma sirene soou
e não consegui distinguir de onde vinha aquele som. às onze garrafas
foram quebradas no beco. à meia-noite uma criança pequena começou um
choro monótono e depois o pai da criança começou a berrar. à uma hora eu
olhei para o céu. às duas não aguentei e descasquei uma das flores que
iria oferecer. às três aquela folha de jornal sentou-se aqui ao meu
lado. às oito cinco moças saídas de um baile passaram apressadas em
direção ao vento. às nove eu soltei as laranjas que segurava e
acompanhei seus movimentos sem sentido. às dez um gato começou seu choro
monótono e depois minha cabeça começou a latejar. às onze não consegui
distinguir aquele som que veio do beco e olhei para os meus pés. ao
meio-dia o pai da criança passou apressado para apanhar as garrafas. à
uma o céu monótono será quebrado mas o som será confundido com aquele da
sirene. às duas meus pés pararão de berrar. às duas e trinta a criança
terá virado um homem esquisito que passa em direção à folha de jornal.
às três em ponto o coronel sai, meus pés, então, conseguirão partir. às
quatro, conforme me disse, mentirá.
outra vez.
conforme me disse.
conforme eu disse a mim mesmo. meu relógio é de ouro e tem até aquela
corrente. esqueço de dar corda. esqueço a sequência das horas. um dos
ponteiros caiu. sai e bate a porta daquele jeito. o lugar deve ser esse.
nos outros relógios do mundo. encontrar-me-ei.
um relógio afirmou:
às quatro.
LUCI COLLIN nasceu em Curitiba, em 1964. Mora em Curitiba
e leciona Literaturas de Língua Inglesa na UFPR. Graduou-se em Piano,
Letras e Percussão. Doutora em Letras pela USP. Recebeu premi-ações em
concursos de literatura no Brasil e nos EUA. Representou o Brasil no
Projeto Literário da EXPO 2000 em Hannover. Participa de antologias
nacionais e internacionais; tem também artigos e traduções publicados em
diversos jornais e revistas. Publicou os livros de poesia
Estarrecer
(1984),
Espelhar
(1991),
Esvazio
(1991),
Ondas e Azuis
(1992),
Poesia Reunida
(1996),
Todo Implícito
(1998); e os de contos
Lição Invisível
(1997),
Precioso Impreciso
(2001) e
Inescritos
(2004), pela Travessa dos Editores.
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