|
 |
 |
Ficção variada
De uns anos para cá, diversos escritores brasileiros vêm
apostando no conto mínimo, pequenas histórias que mal ultrapassam
uma ou duas páginas, buscando o máximo de concisão possível em
poucos parágrafos. O modelo inicial terá sido o do paranaense
Dalton Trevisan, porém atualmente cresce cada vez mais o número
de contistas que se dedicam a produzir esse gênero de ficção
curtíssima. O gaúcho José Eduardo Degrazia é um deles e, depois
de publicar A orelha do bugre (1998), já nos apresenta um segundo
volume de contos mínimos, A terra sem males (Porto Alegre:
Movimento, 2000, 80 págs.).
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, o miniconto não é
nada fácil. Exige que o autor tenha uma enorme capacidade de
concisão e, levando-se em conta a exiguidade do espaço, saiba, em
poucas linhas, narrar (ou expor um episódio) com toda a sua carga
de verossimilhança e emoção, de tal maneira que a esse conto nada
fique faltando nem sobrando coisa alguma. Nos textos de Degrazia
observamos tipos variados de ficção, sejam contos que flagram um
episódio da vida de um personagem, sejam histórias em forma de
parábolas, às vezes definitórias de um sentimento, de uma
sensação inexprimível, etc., tudo isso conduzido com mestria e
exposto num estilo de quem domina o gênero à perfeição. Além
disto, é grande a força poética dessas páginas, não fosse o autor
igualmente um excelente poeta, tanto que alguns desses contos
estão escritos em verso. A leitura dos minicontos de Degrazia é
um exercício enriquecedor do espírito.
Também de minicontos é o livro de Nilto Maciel, Pescoço de girafa
na poeira (Brasília, Bárbara Bela, 1999, 128 págs.). É um outro
exemplo, muito bom, de histórias curtíssimas (raras são as que
ultrapassam duas páginas), e o autor emprega igualmente modelos
variados de ficção, indo das fantasias oníricas ao realismo mais
cru, do flash mais imediato ao enredo desenvolvido em detalhes,
tudo isto num estilo seguro, de quem domina às maravilhas o nosso
idioma. E se muitas vezes se compraz em citações eruditas, tais
citações se harmonizam de tal forma no texto que é como se sempre
tenham feito parte dele. Não é de admirar que o livro tenha
obtido o primeiro lugar na categoria conto, da Bolsa Brasília de
Produção Literária em 1998, da Fundação Cultural do Distrito
Federal. Vale a pena conferir.
Já as Pequenas histórias matutas, de José Hélder de Souza
(Brasília, Verano, 2000, 126 págs.), apesar do título, não se
enquadram necessariamente no gênero do miniconto. Embora curtas,
não possuem aquela exigüidade e concisão próprias do gênero. Os
contos deste livro antes narram episódios com riqueza de
pormenores e uma mestria que prende o leitor, evocando saborosos
lances do interior cearense, numa recriação extraordinária (para
quem há mais de trinta anos reside em Brasília) da linguagem
regional, em estilo vívido e matizado. Quando li seu volume de
contos Rio dos ventos (1992), reparei que o autor expunha de
preferência os aspectos cômicos e trágicos de seus personagens, o
que veio cultivando através dos anos, sempre com muita dose de
humor. Todo livro de José Hélder de Souza é satisfação garantida.
FERNANDO PY nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 13 de junho
de 1935. Formado em Direito, é colunista literário (Diário de
Petrópolis) e tradutor. Publicou, entre outros: Aurora de vidro,
Livraria São José, Rio de Janeiro, 1962; Vozes do corpo, Editora
Fontana, Rio de Janeiro, 1981; Chão da crítica, Francisco Alves,
Rio de Janeiro, 1984; e Antiuniverso, Sette Letras, Rio de
Janeiro, 1994.
|