Espera


"Havia noites em que não se podia adormecer.
Havia grandes esperas - esperas não se sabia de quê - na cama em que procurávamos em vão o sono, membros cansados e como refugados pelo amor. E por vezes eu buscava, para além da volúpia da carne, uma como segunda volúpia mais recôndita."
André Gide


O tempo por demais
                 quente
Uma menina cala
Mais uma palavra
Seria vê-la chorar

Te vejo dormindo e estático fico para não te acordar. É o pavor que sinto quando penso em você olhando minha cara assustada, meu corpo trêmulo, minhas unhas inquietas dentro da boca.

Lentamente vou me concentrando na sua respiração, nas linhas do seu rosto suavemente encenadas pela luz pálida da noite que invade o quarto.

Fujo desesperadamente pelas ruas. Nenhum carro, nenhum grito. Somente a chuva caindo por todas as partes como se não existisse.

Quando acordo uma multidão de cheiros me abraçam. Vou colocando cada mulher em seu lugar. Tento enumerá-las, lembrar se são negras ou morenas, qual voz mais doce me ninou.

Você está para mim como para quem vê televisão, como a advertência vazia da mãe, ridícula como a simpatia.

A distância que enxerga meus olhos vem dos textos que ainda não escrevi, dos porres que ainda não tomei, dos versos cantados fora do tempo que para você soaram como uma linda melodia.

Sentindo o vazio da cama ao seu lado você me tateia, me chama como a terra úmida ao luar acariciando as sementes dorminhocas.

Embalado com a brisa da manhã ainda sonolenta, sinto seu beijo e choro desesperadamente entorpecido pelo seu cheiro, pois o sono não adianta mais. Não existem mais promessas.