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Claridade cotidiana
Clara andava indignada com as injustiças do mundo, com seus
objetivos particulares e até com a natureza tão descontrolada
nestes dias. Para falar a verdade, ela estava confusa, chegara a
uma idade de decisões, mas o horizonte não se mostrava muito
propício.
Clara enclausurada habitava um cômodo escuro em uma periferia
qualquer do planeta. As periferias sempre eram descritas nos
noticiários como os locais mais miseráveis, desumanos; para ela
periferia lembrava os anéis de Saturno, não sabia bem porque. Sua
imaginação fazia com que ela olhasse o céu e se transportasse
para uma estação espacial, sonhava com isso desde criança. Seres
misturados vivendo sem peso na imensidão negra. Utopia de
salvação desta realidade terráquea.
O relógio tocava pontualmente às cinco e trinta da manhã e ela se
lembrava que não era tão terrível acordar a esta hora, porque no
Japão o dia já estava terminando. Então nada duraria para sempre.
Que consolo; lembrou-se de um história que lera ainda pequena. A
personagem estava sempre tentando ver o lado bom. Afastou as
idéias, ela só queria sonhar, mas o relógio não deixava.
Madrugadas podem trazer sensações gélidas a um coração aquecido
de esperanças. Não havia muitos rostos conhecidos nas ruas.
Passava pelo portão de Claudia. Esta teve mais sorte. Acorda
tarde, vai à escola, tem pai e mãe. O futuro de Claudia é tão
claro. O de Clara é pura madrugada sem sol.
Ônibus lotado, pessoas espremidas. Homens com hálito de bebida
forte, se esfregando. Ah se alguém levantasse! Se ao menos
pudesse se sentar, olhar sem ver a paisagem diária. Sonhar...Uma
freada brusca e quase que o homem desatento na rua é atropelado.
Isso é que dá ficar sonhando acordado, pensa Clara. Não se deve
sonhar de dia, espera pela noite seu estúpido!
Bom dia a todos, mais cumprimentos, pega seu cartão. Clara
trabalhadora vai marcar o ponto, junto com Ana, Bia, Joaquim,
Carlos e um monte de outros. Leva o dia, Clara querida.
Cartas, a fila do banco, alguém mal humorado. Ela não tem vontade
de ficar de mau humor. Para que afinal? Tem que tomar decisões. É
a idade. O pai já se foi, a mãe resiste, os irmãos seguem, os
amigos buscaram outras estradas. Clara continua. Clara monótona.
O estômago reclama, é hora do almoço. Leva a marmita para o
refeitório, acompanha a fila de famintos. O cheiro de feijão,
arroz e alguma carne tomam conta. Matar a fome traz alegria,
aproxima Bia e Carlos tão diferentes, mas irmãos de sorte. Uma
hora de pausa, conversas colocadas em dia. Uma hora nada mais,
uma hora.
Mais cartas, mais papéis, um devaneio. O patrão chama a sua
atenção. "O que há com você ultimamente. Não sabe que já não tem
mais idade para viver no mundo da lua!" Mundo da lua não patrão,
queria viver na estação espacial, fazer parte das estrelas, mas
agora tenho que escrever cartas, preencher formulários, trabalhar
para fazer sua empresa crescer e eu poder comprar a comida no
final do mês. Não dá para sonhar. Clara humilhada volta para a
sua mesa. Três horas e trinta e cinco minutos. Mais algumas
horas. No Japão já é amanhã.
Cinco e cinqüenta, soa o alarme do relógio de ponto. Acorda com o
som do alarme, come com o som do alarme, vai para casa com o som
do alarme. Escrava de um alarme de relógio Clara alarmada entre
no ônibus de volta para a casa.
Um homem dorme com a cabeça encostada na janela, a mulher mais a
frente ronca de boca aberta. Ela se espreme em pé, um homem suado
se esfrega atrás, respira quente em seu pescoço. Clara engole as
lágrimas. A lua já está no céu, quase não tem estrelas. Quando
será que vão lançar a estação espacial? O ponto de Clara. Salta.
Passa pelas ruas, as casas já acesas. Não lembra qual a cor delas
iluminadas pelo sol. Claudia está na varanda rindo com outras
meninas, todas têm livros. Devem estar estudando. Estão rindo. As
decisões que não tomamos. O mundo que deixamos os outros
decidirem por nós.
Um beijo na mãe. "Como foi seu dia?" "Bom". Cuidar da sua roupa,
a comida do dia seguinte. Dinheiro para o pão, a água. A novela
na TV. A mãe olha os artistas, tudo tão bonito! Clara realista
vai dormir. Acerta o alarme do relógio. Fecha os olhos. No Japão
todos já estão trabalhando. Ainda bem que Clara mora do outro
lado do globo, assim pode dormir, poder sonhar. Tentar se decidir
antes que o alarme soe e Clara tenha que acordar.
Boa noite Clara querida. Sonhe com os anjos. Sonhe com a estação
espacial. Sonhe Clara. Sonhe para poder acordar para a realidade.
GLEISE PIMENTEL CARNEIRO nasceu em fevereiro de 1969, no Rio
de Janeiro. Atualmente termina o Curso de Filosofia na UERJ.
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