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Café Milena
Cinco e cinco. Não ouço uma única máquina. Elas pararam de bater
há bem pouco, todas ao mesmo tempo. Ato contínuo, em idêntica
sincronia, o farfalhar dos papéis sendo arrumados nas
escrivaninhas, o abrir e fechar das gavetas, o arrasto barulhento
de cadeiras. O silêncio, ainda instável, vai quebrando o eco dos
últimos passos batidos em retirada, suspenso no ar com a fumaça
dos cigarros, uma improvável poeira, a luz pouca e leitosa que
entra sem graça pelas janelas pequenas. Respiro um ar velho,
viciado, enquanto arrumo também eu os meus pertences. Ou melhor,
os pertences da companhia que, só pela relação de trabalho,
ficaram hoje sob minha tutela. Estou sozinho. Desdobro a capa da
velha Remington, cubro-a. Sou o único a se preocupar ainda com
isso, todos sempre têm pressa de sair.
No cabide junto à porta de folhas duplas, encontro o sobretudo, o
chapéu, o cachecol. Aqui faz muito frio, mesmo sendo outono.
Desço os dois lances de escada, o prédio já deserto, paro frente
ao espelho do saguão para ajeitar a manta. Como acontece todos os
dias nesta hora, sobressalto-me então com o que vejo. Não são
meus o rosto magro, o queixo em ponta, as orelhas de elfo, a tez
amorenada. Minha boca não guarda este esgar de ironia. Os olhos
espelhados são fortes, muito mais belos, escuros, intensos que os
meus. No auto-retrato que tento compor quando não estou frente a
frente comigo, sou outro, feio, pesado, grande, largo, assim como
sempre quis meu pai, assim como ele é.
Quase uma saudação discreta a um conhecido de vista, baixo
ligeiramente a cabeça e aprumo o chapéu. Saio pensando, mais uma
vez, que não sou eu quem de fato sai.
Na rua, o vento frio que nasce do Vltava pôs a correr a chuva
miúda e gelada das últimas horas, deixando em seu lugar o sol
precário que ilumina agora a Casa Wiehl, ali na esquina. Ao
alcançar a Praça Venceslau, assisto à luz projetar-se no edifício
agigantado por estar agora tão mais próximo, crescer num raio
apaixonado, pintar de ouro o sgrafitte da fachada, depois cair
subitamente, como se desmaiasse.
Dobro à direita, sigo até a Na Prikopé, cruzo-a. Deixo a Cidade
Nova, enquanto a Velha me acolhe com as boas-vindas dos seus
prédios ainda mais antigos e que melhor conheço. No Teatro dos
Nobres, a moderna estátua da Morte, recém ali plantada, quase
rouba da minha descrença uma reza. O Karolinum, ao seu lado,
testemunha a fraqueza. Pela Zelezná vou então à praça desta
cidade tão velha, ao coração onde também pulsa o meu.
Chego à praça já quase noite. Aqui anoitece rápido e cedo, mesmo
sendo outono. A Igreja de Nossa Senhora Diante de Týn começa a
brilhar sob o efeito da iluminação postiça de vários holofotes, o
que lhe dá essa aura de templo irreal, mais do que faz a ausência
de uma fachada embaixo de suas torres góticas. Quase não consigo
evitar um suspiro ao pensar que o inusitado conjunto aponta a
possibilidade do céu a quem não seja conveniente entrar numa
igreja.
Piso mais forte, agora que estou em casa.
Não resisto e dou a volta na praça apinhada de gente de todos os
mundos, antes de ir ao encontro do que me trouxe até aqui. Mas
nunca sei o que de fato me traz aqui. Ando e chego, e é o que
sempre me bastou compreender. Não hoje, não mais. Passo pelas
casas, observo-as como turista curioso. Em silêncio, vou
recitando seus nomes: Casa do Unicórnio Dourado, do Pobre
Infeliz, da Mesa de Pedra, do Carneiro de Pedra, da Madona de
Pedra, do Sino de Pedra. De volta à esquina da Zelezná, cruzo
pelo relógio da Prefeitura, desvio da multidão que começa a se
formar para assistir ao bater das seis horas, continuo meu
inventário: Casa das Cegonhas, da Estrela Azul, da Raposa
Vermelha. Todas têm uma história que, embora eu desconheça qual
seja, sei que vive ali com elas. Comigo não mora nenhuma, fui
perdendo a minha no emaranhado das tantas que já inventei. Muito
além da minha própria história, sou hoje a soma de várias que
nunca existiram. Talvez nem a minha tenha existido. Ou, pelo
menos, talvez não esta.
Sinto que estou de alguma forma atrasado, mas decido caminhar um
pouco mais, em direção à Igreja de São Nicolau. Novamente não é o
templo o meu destino. Ladeando sua opulência barroca, encontro
então o que procuro, a minúscula praça, tão acanhada que só se
consegue saber que ela existe pela placa indicativa de seu único
endereço, o lugar onde nasci ou morei ou estudei um dia. Paro o
instante necessário para comprovar que tudo permanece igual a
sempre, só eu não estou mais ali. Estou do outro lado, o lado de
fora, contemplando-me no que deixei um dia de ser.
Por superstição, evito retornar pelo mesmo caminho que me trouxe,
passo pela frente da igreja, dobro novamente à direita. Estou de
volta à velha praça, agora com a noite já pronta. Seis horas, a
turba multiplicada, apuro o passo para assistir ao relógio trocar
as horas. Não consigo, mas não importa. Amanhã eu volto.
À frente o Café Milena, iluminado. Todos já chegaram, estão à
minha espera. Atravesso a rua, depois a galeria, subo as escadas.
Antes de entrar observo, através da porta envidraçada, o que se
passa lá dentro. Conheço os presentes e a agitação do Café nesta
hora. Discutem, acalorados, tomam absinto, cerveja, alguns cafés.
Assim como há pouco na companhia, a luz fica leitosa sob o efeito
da fumaça dos muitos cigarros. Aqui, no entanto, vibra uma outra
energia. Minha respiração se excita e faz desenhos no vidro.
Empurro a porta com força, agora já sabendo o que me trouxe.
Todos param instantaneamente à minha entrada, voltam-se para a
porta, cessa a conversa. É estranho que sejam na verdade tão
poucos e tão silenciosos; vistos lá de fora, pareciam tantos,
ruidosos, conhecidos. Tenho dúvidas de que agora me reconheçam;
de repente, eu não reconheço mais ninguém. Nem a garçonete que se
aproxima, solícita no que imagino que seja um primeiro dia de
trabalho.
Mesa para uma pessoa?
Ela ainda não me conhece, nunca me viu, não sabe que venho aqui
todos os dias, sozinho, a mesa é aquela da esquerda, frente à
janela. Tampouco teve tempo de descobrir que sempre me aguardam,
precisamente a esta hora. Se mudam agora os turistas, os demais
rostos são sempre os mesmos, velhos companheiros. Fico um pouco
atordoado, desconsidero a pergunta, respondo com outra:
Felice já chegou?
Todos me escutam, me observam, parecem incrédulos com o que vêem
e ouvem. Encabulo, quero fugir. Consigo apenas indicar à moça,
com a cabeça, meu lugar de sempre.
Três rapazes ocupam a mesa mais próxima à que pretendo ocupar,
também atentos à cena que protagonizo. Um deles se levanta, vem
ao meu encontro. É magro, moreno, bem-vestido. O rosto guarda uma
ligeira semelhança com o que deixei há pouco no espelho da
Assicurazioni Generali. Faz uma reverência, quer que eu me junte
ao grupo. Reluto um pouco mas cedo. Hoje em dia não se vê mais
gentilezas desse tipo. O jovem me oferece uma cadeira enquanto
penduro meu agasalho. Chama a garçonete, pergunta o que vou
beber, ela anota o pedido. Café e mais três cervejas.
O senhor é... , começa o rapaz, num alemão impecável.
Sim, respondo, antes que ele conclua a pergunta.
Vem sempre aqui?
Todos os dias, toda a vida.
Para encontrar... Felice?
Também por Milena, também pelos amigos.
Ninguém estranha?
Às vezes me perguntam coisas, como agora.
Ele me deita um olhar sereno mas firme, sinceramente curioso.
Gostaria de ouvir sua história.
Qual delas?, quase pergunto, mas prefiro mentir a revelar a ele o
segredo da minha inexistência.
Hoje não posso, tenho pressa. Ela não deve tardar.
A moça chega com as bebidas. Aproveito para me despedir, sequer
provo o café.
Pelo menos, me deixe seu autógrafo, pede o rapaz, estendendo-me
um guardanapo de papel.
Suspiro fundo, peço a caneta à garçonete. Logo abaixo do Café
Milena, assino: Franz K., simplesmente, sem perguntar o nome de
quem deseja minha assinatura, sem dedicatória. Devolvo o papel,
que passa agora de mão em mão.
Nada mais tenho a fazer aqui. Tão logo ela chegue, levarei Milena
para um longo passeio pela Cidade Velha. Quero, dessa vez com
ela, visitar de novo todas as casas, talvez ela saiba me contar
suas histórias. Cruzamos o Vltava pela Ponte Carlos até Malá
Strana, apenas para ver o Castelo resplandecendo no alto, à nossa
frente, belo retrato de Praga. Depois, voltamos rápido, pois não
me agrada estar por muito tempo afastado de casa.
No cabide junto à mesa, apanho o chapéu, o sobretudo, o cachecol.
Na entrada, busco o espelho para ajeitar a manta. Quando Felice
chegar, já estarei pronto. Não saio à rua sem proteção, aqui faz
muito frio, mesmo no outono.
LUIZ PAULO FACCIOLI nasceu em Caxias do Sul em 1958 e lá
viveu até 1977, quando mudou-se para Porto Alegre, onde mora
atualmente. É músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela
The International Cat Association (TICA). Autor de Elepê (contos,
WS Editor, 2000) e Estudo das teclas pretas (romance, Record,
2004), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres
(contos eróticos, WS Editor, 2002) e Os cem menores contos
brasileiros do século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra,
2004). Faz resenha crítica para o suplemento literário Rascunho
de Curitiba desde novembro de 2002. Tem contos publicados em
revistas literárias impressas (Rascunho, Folha de Letras) e
on-line (Veredas, AGEs).

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