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Bruços brutos
Conheceram-se como se conhecem os fracos, cada um guardando o seu
passado. Jamais haviam conversado sobre namorar ou sobre sexo,
apenas aconteceu. Juntos há algumas semanas, aos sábados à tarde
faziam longas caminhadas à beira do rio que circundava a casa
onde ele morava. Falavam sobre tudo, mas às vezes parecia que
sobre nada falavam, ou que Gina não falava o que mais precisava
falar. Eram frios os ocasos, e ela gostava de sentir no rosto o
vento fétido que vinha das águas esquecidas, porque daí ele
sempre tirava o seu blusão e a abrigava, contando-lhe, pelas
costas, pertinho das orelhas jovens dela, histórias que não
conhecia e que a faziam tremer, protegendo-a doce e
agressivamente. Um dia, ao voltarem de um dos passeios, disse-lhe
que poderia ficar com a roupa, voltaria para casa correndo e não
passaria frio. Aceitou. Em casa, aquecida, tirou a peça. Ao
dobrá-la, percebeu que estava puída, o peso da lã fazia com que
os pontos se abrissem, os punhos estavam frouxos, na dobra das
axilas havia uma outra coloração. Levou-a perto das suas narinas
e percebeu que não era do rio o cheiro impregnado, era de Lino
mesmo, uma mistura morna e ácida, de pele usada e de suor
dormido, o cheiro comum dos solteiros, dos que conhecem o sexo,
dos que o carregam, um cheiro que Gina não conhecia e queria,
agora e com ele. Logo depois, ligou convidando-a para que fosse
em sua casa no dia seguinte, pela primeira vez, poderia
aproveitar para devolver o blusão emprestado. Fariam sexo, ele
pensou, ou também ela, como tantas outras jovens, o provocaria e
depois diria que ainda era cedo, que precisavam se conhecer mais,
simulando falsos medos e compondo um jogo ora de posse, ora de
insegurança.
Gina, preocupada em agradar, em não decepcionar Lino, levantou-se
quase que esquecendo que o dia era dela. Tomou um longo banho,
usou um sabonete especial, deixou que a água perfumada do enxágüe
do creme-rinse escorresse pelo seu corpo, afastando as pernas
para que entrasse entre as suas coxas. Prendeu os cabelos no alto
da cabeça, com uma espécie de um lápis, demorou preparando-se,
como demoram as mulheres que querem ficar displicentemente
arrumadas. Antes de sair, tomou, sem água, o pequenino
comprimido, deixando mais três na cartela, pois também para ela
tudo indicava que seria naquele dia e estava tudo programado, o
risco de engravidar não existiria.
Ele abriu a porta sem surpresa, é assim que os homens mais velhos
reagem, sabia que ela viria. Ela estendeu-lhe uma sacola contendo
a roupa e, agradecendo-lhe, disse, com a intencional e artificial
certeza das mulheres recém prontas, que havia gostado de usar o
blusão dele, que estava feliz por estar ali e que desejava muito
aquele momento. Ele a abraçou como costumava fazer à beira do
rio, e ela pensou que a havia compreendido. Era seu aniversário e
ela não sabia, ofereceu-lhe bolo alto com cobertura de laranjas e
chá de maçãs secas, disse que eram as duas coisas boas que sabia
fazer, como se pedisse desculpas pelo improviso. Ela gostou
daquilo tudo, as coisas parcialmente arrumadas, o chá servido em
xícaras velhas e encardidas, a pia da cozinha com acúmulo de
louças para lavar, a essência forte de pinho que vinha do
banheiro limpo às pressas. Afinal, pensou, havia preparado, do
jeito dele, a casa para recebê-la. Falaram bastante, conversaram
sobre viagens e o trabalho dele e ela lembrou como se conheceram,
no ônibus, voltando da faculdade. Ele retirou a xícara do colo
dela, nem perguntou se queria algo mais, chamou-a em direção à
escadaria que levava ao segundo piso do apartamento. Pediu que
ela subisse à sua frente e, nos primeiros degraus, fez com que
ela parasse, girando seu corpo na direção do dele. Passou as mãos
fortemente sobre as costas dela, apertando-a. Beijaram-se
longamente, ele parecia estar tranqüilo e ela em desespero calmo,
planejado. Um degrau acima de Lino, Gina podia sentir, na altura
do cinto que segurava sua saia, o volume que surgia entre as
pernas dele. Por um momento, frustrou-se ao perceber que talvez
não fosse grande, mas logo pensou que assim seria melhor, não a
machucaria. Foram poucos os minutos que ali permaneceram, e
porque era Gina quem não agüentava mais prolongar o desejo, por
isso ela voltou a subir a escada e, em seguida, espalhou-se no
sofá-cama da sala do andar superior.
Tirou a blusa dela com avidez, beijou-a no colo, riscado por um
suor que escorria entre os seios. Levantou-lhe a saia, de tecido
mole e solto, atrapalhados que estavam com a fivela do cinto que
parecia estar soldada, tirou sua calcinha e, em um único impulso,
ora desejando-a vorazmente, ora docemente imbuído - era assim que
ela pensava -, penetrou-a. Tudo durou pouco tempo, é certo, mas
um tempo certo para que ele precisasse logo depois dormir. Em uma
outra ocasião, talvez ela interprete o sono do gozo dos homens
como insensibilidade, mas ali ela gostou, porque pôde,
facilmente, levantar e ir ao banheiro, notar que estava tudo bem,
não havia sangrado, apenas uma ardência quando sua urina escorreu
entre os seus tecidos inchados.
Retornou junto a ele, o que o fez acordar, e pouco tempo depois
Lino novamente começou a acariciá-la. Gina não estranhou que ele
a desejasse mais uma vez. Pelo contrário, orgulhou-se, pensou que
ele tivesse gostado dela mesmo assim, que tudo havia dado certo,
mas achou estranho que a desejasse ainda no mesmo dia, naquela
mesma tarde grave. Penetrou-a, então, com um pouco de oposição
dela, pela segunda vez, ele possuindo-a como antes, ela confusa,
sem saber se queria continuar ou parar. Foi assim que, entre
avanços e resistências, entre minutos de desejo e de repulsa, o
preservativo rompeu, fazendo com que o perfume das coxas de Gina
se misturasse com a viscosa secreção de Lino. Ela nem se
preocupou, pois o comprimido a protegia do pior. Ele, quase
transtornado, visivelmente embaraçado, pediu-lhe desculpas, e
ficou surpreso com a inércia dela, com sua resignação, pois Gina,
deitada, parecia não se incomodar. Acabasse a tarde assim,
continuaria sendo apenas uma tarde grave, mas o dia todo se
tornou grave, e para sempre, porque Lino trouxe uma caixa de
lenços absorventes e, como um perito, começou a secar as coxas
dela, enrolou dois dedos em várias folhas, fazendo uma espécie de
tampão, e os introduziu várias vezes nela, enxugando-a e dizendo
que não entendia porque ela reagia assim.
- Tá, aconteceu, não temos o que fazer, grávida eu não vou ficar,
o médico me deu pílula para eu tomar quando chegasse a hora e eu
tomei, ela disse.
- Ah, menos mal, mas temos que cuidar para isso não acontecer de
novo, eu não sei do teu passado e tu não sabes do meu, ele
completou.
- O que?, perguntou ela.
- Sim, se tu não te preocupou hoje, já começo a pensar que isto
pode ter acontecido várias vezes contigo, ele disse com severa
sinceridade.
- Várias vezes, várias vezes o quê?, ela novamente perguntou.
- Olha, eu não estou entendendo, mas vem aqui, fica perto de mim,
Lino disse, puxando-a em direção a si.
- Me deixa, ela disse, eu quero ficar sozinha, e virou-se de
barriga para baixo e escondeu o rosto no travesseiro.
- Mas o que houve, Gina, o que eu te fiz? Nós tão tivemos culpa,
tu mesmo disseste que aconteceu, ele insistiu em saber.
Lino, mais uma vez protegendo-a pelas costas, fez com que o peso
do seu corpo ficasse parcialmente sobre o dela, deitando-se na
mesma posição e enlaçando-a com um dos seus braços, perna sobre
pernas. Tentou, com carícias, levantar o rosto de Gina, conversar
com ela, mas dela só os cabelos eram vistos sobre o travesseiro,
que abafava um grito de dor.
- O que foi, querida, eu te machuquei? Eu não devia ter feito
aquilo com os lenços, né, eu te assustei?, perguntou, como última
tentativa.
Gina levantou a cabeça, a face exibia uma testa tensa, repuxada,
os olhos vincados e os lábios puxados para baixo, arqueando um
choro denso.
- Hoje, hoje, hoje foi a minha primeira vez, a alma dela gritou,
baixinho.
- Meu Deus, Gina, meu Deus, Lino disse balançando, inconformado,
a cabeça, falando por eles dois, e esta foi a última frase que
disseram, porque depois apenas foram ouvidos os soluços inúteis
dele, como uma criança, deitado sobre as costas dela. Sim, como
uma criança, porque estavam os dois ali, e também ele de bruços,
ela colada no abdômen dele, e entre eles o passado, agora
presente, que viveriam. Sim, ambos de bruços, bruços brutos,
ambos brutos.
INGRID
BIRNFELD, 29 anos, é formada em Direito e Filosofia. Reside
em Porto Alegre, onde exerce a advocacia. Um dos seus contos,
"Encha os baldes para o jantar", integra a antologia "101 que
contam", editada pela Nova Prova.
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