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Ave Maria
Depois de meses, enfim me dei conta que perderia Ana se não
conversasse com ela. Ela precisava entender porque o pânico
repentino, a paranóia, o choro constante, as noites sem dormir.
Eu sentia que meu estado atingia a ela tanto quanto a mim, mas
talvez fosse mais violento para ela o fato de não entender o que
acontecia. Então pedi para deitar minha cabeça em seu colo e que
ela me afagasse os cabelos por um instante. Eu temia que fosse
aquela a última vez que sentiria sua mão em meus cabelos.
Então eu comecei a falar. A única coisa que exigi é que tudo que
eu lhe contasse continuasse segredo. Eu entenderia se ela não
suportasse mais me ver depois e que fosse embora naquela mesma
noite. Mas ela não poderia nunca contar a ninguém.
Sentia a já conhecida sensação de umidade nas mãos e um calafrio
percorreu minha espinha: as imagens agora eram cinematográficas,
projetadas pelos olhos de minha aflição no teto do quarto.
Eu voltava de madrugada para casa. Trabalhara até às 3h30 da
manhã terminando minhas pesquisas. Vinha tranqüilo com minha
convicção de que bom ladrão dorme cedo e de que não havia mais
assaltos depois das 2h00... A lição sobre os hábitos noturnos
estava para começar.
Um carro parou do meu lado. Era escuro. Nunca pude distinguir
carros. Interesso-me por eles como me interesso pelas fórmulas
contábeis para provisão de devedores duvidosos. Era apenas um
carro velho, escuro e com o porta-malas grande.
Sei do tamanho do porta-malas porque em 5 minutos eu estava
dentro dele. Se eu conseguisse ver alguma coisa, poderia ver a
rodela que o cano da arma deixou impressa nas minhas costelas.
Mas quase não havia luz. Revirei-me o quanto pude no porta-malas
e, depois de um tempo incontável, o carro parou.
Não faço a menor idéia de quanto tempo passou. Sei que foi o
tempo de milhares de fantasias se formarem e desaparecerem dentro
de mim. Foi o tempo suficiente para que o medo chegasse, passasse
e deixasse, como cicatriz, apenas uma ponta de desespero, que eu
tentava esconder com as mãos.
Com o carro parado, imaginei que os assaltantes esperavam o
horário de saque dos caixas eletrônicos. Isso me dava umas duas
horas de espera, no aperto escuro do porta-malas, e eu sentia o
desespero sentar-se calmamente, esperando para me beijar,
roubando todo o ar de meus pulmões.
Tateei a parte de trás do banco dos passageiros. Havia uma
divisão no encosto, na proporção de 1/3 para 2/3. Comecei a
enfiar minha mão na fresta entre os dois encostos. Meus dedos
sumiram entre os bancos e então um som claro de respiração pesada
entrou. Achei que os ladrões dormiam. Rodei a mão e uma pequena
brecha se abriu. Pude ver a cabeça de um dos homens no banco da
frente. Percebi que eu rezava. Foi um ato incondicionado. As
palavras da "Ave Maria" brotavam na minha mente enquanto minha
mão tateava o banco de trás do carro.
Armas são geladas. Pelo menos foi o que me pareceu quando meus
dedos tocaram o cilindro do revólver em cima do banco traseiro.
Como uma sombra, minha mão abraçou a arma. Pela fresta deixada
por meu braço, eu ainda podia ver a cabeça do assaltante, seu
cabelo, o contorno penumbroso de seu nariz.
Ergui a arma, sentindo seu peso. Lembrei-me de, no começo da
adolescência, o trinta-e-oito de meu pai. Meu irmão o roubou uma
tarde, quando meu pai viajava. Ele conseguiu algumas balas e deus
tiros nas bananeiras no fundo do quintal. Por fim, me deixou dar
um tiro. O coice da arma voltou com tal força à minha mente que
senti um repuxo na mão armada.
Com o braço esticado por entre os bancos, eu não podia ver.
Pressionei o gatilho devagar e lembrei-me do barulho do cilindro
rodando e do cão se armando. O medo me invadiu. Eles acordariam.
Eles me matariam. A lembrança do coice da arma me repuxou de novo
o braço. Mas dessa vez houve um som. Um som seco e alto. Senti
uma imensa dor no polegar.
Minha primeira reação foi puxar o braço de volta, fazendo o banco
engolir a arma. Ela transmitia à minha mão uma sensação
sudorípara, como se fosse um osso acabado de ser arrancado da
costela de um carneiro.
Ouvi um grito. Ouvi uma porta se abrir e ouvi passos correndo.
Então o desespero me beijou: eles me matariam. Enquanto esperava
minha morte, um suspiro alcançou o porta-malas. Foi um suspiro
longo, inspirado para em seguida expirar, borbulhante e final.
O assaltante no banco do passageiro estava morto.
Deixei-me ficar no porta-malas, esperando as balas do outro
bandido. Muito tempo se passou e nada aconteceu. Nenhum passo
voltou para o carro, nenhum outro suspiro encheu o espaço entre
os bancos.
Nesse meio tempo, eu imaginava o que aconteceria se eu saísse
dali.
Era possível convencer alguém que eu matara uma pessoa em
legítima defesa enquanto ela dormia?
Foi por isso que, antes que as duas horas se passassem, eu enfiei
meu braço de novo pela fresta entre os bancos até achar a trava
que liberava o encosto menor. De alguma forma, saí do carro sem
ver seu ocupante (ou isso, ou simplesmente não consigo me
lembrar). Ainda estava escuro, mas pude ver que estávamos no meio
de um matagal. Pude ver, clareado pela lua, a linha de trem
próxima. Eu então segui a linha até o sol nascer. Ave Maria cheia
de graça apareceu um rio. Joguei a arma, que ainda trazia, no
meio dele e quis lavar as mãos. Tinha a impressão que minha palma
direita estava tão impregnada de pólvora que ficara cinzenta.
Apesar do cheiro de esgoto que vinha do rio, eu lavei as mãos
nele até que o sol começou a arder em minhas costas.
Senhor é convosco apareceu uma estação. O trem era integrado com
o metrô. Cheguei em casa às 11h15 da manhã.
Bendita sóis vós entre as mulheres fechei os olhos no colo de
Ana. Dormi ainda com suas mãos em meus cabelos. Senti suas
lágrimas gotejarem meu pescoço antes do mundo desaparecer.
AUGUSTO GALERY é psicólogo, pesquisador e escreve contos,
poesias e roteiros. Vem atuando, nos últimos dois anos, como
revisor de textos de ficção e não-ficção e escritor nos sites
Blog Ergo Sum e Blog do Angu, (este último em parceria com a
poeta Ana Grein). Publicou suas primeiras crônicas aos 15 anos,
no Jornal do Grêmio Estudantil do Colégio Santo Antônio e tem,
hoje, diversos contos e novelas não publicadas. É mineiro de Belo
Horizonte e atualmente reside em São Paulo, capital.
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