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Autópsia da
Fragilidade humana Seu novo livro Angu de Sangue (Ateliê Editorial, SP, 136 págs.), além do esmero gráfico, é literatura da melhor qualidade, contrapondo-se ao marasmo e à supremacia de títulos de auto-ajuda e autores ligados ao esoterismo de butique. Em 17 contos, Marcelino Freire captura a realidade nua e crua do submundo urbano, violentado pelas dores e frustrações de uma sociedade injustiçada pelas diferenças, com seus protagonistas estigmatizados pela violência, pelos fracassos materiais e pelo caos das relações afetivas. Em textos como "O caso da menina" (em que uma criança é oferecida no calor do desespero de uma mãe pobre), há o uso do discurso coloquial, quase monológico, indicando a nudez e crueza da comunicação moderna, quando os interlocutores deblateram-se em torno de conflitos inusitados, que representam uma tensão permanente em suas vidas, configurada numa linguagem que resgata a oralidade e expõe a frieza dos diálogos. Em outro primoroso conto, "Belinha", faz uma releitura poética e doída da solidão humana e do esfacelamento das relações. Em "Muribeca" (nome de uma favela recifense) traz em si toda uma dimensão da tragédia humana: a triste história de relegados sociais que perambulam pelas cidades em busca de outra sorte, enquanto a que lhes cabe vem das sobras que colhem nas lixeiras suburbanas. Aliás, eis uma alusão metafórica à própria condição de restos humanos que representam os que mendigam nas metrópoles. A temática de Angu de sangue representa uma prosa reflexiva acerca da banalização da vida e da morte (como se infere do conto que dá título ao livro), sem panfletarismo ou engajamento demodè. Se subsiste como atitude estética e artística mais do que explicitação ideológica, nem por isso deixa de cumprir o seu papel catártico e de denúncia: dá-nos um soco no estômago e um pontapé na acomodada consciência política ao revelar o caldo de miséria, onde fermentam universos estranhos e estarrecedores. Com agudo senso criativo, Marcelino Freire estranha esse mundo de criaturas permanentemente feridas e sem saída. E nesse cardápio de sofrenças, demonstra grande fôlego ao refletir densa e dialeticamente sobre situações tão pungentes, sem cair na mesmice ou no folhetim. Descoberto numa roda de leituras por João Alexandre Barbosa, um dos mais respeitados críticos brasileiros, esse jovem autor, revelando seu amor pelas palavras e uma preocupação com a linguagem ("Não sou ligado em histórias. Creio nas palavras. O importante mesmo é a linguagem", confessa), demonstra pleno domínio de seu ofício e vem arejar a prosa contemporânea. RONALDO CAGIANO nasceu em Cataguases-MG, em 15.4.61 e vive em Brasília desde 1979, onde formou-se em Direito. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários.. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros.
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