
Ilustração: Amadeo de Souza-Cardoso (1887 - 1918) |
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A procissão do
encontro
Ao Pe. Henrique Cláudio de
Lima Vaz, S.J., amigo em Cristo, que, em vida foi um modelo de
sacerdote e filósofo.
Quinta-feira Santa, em Serrana, naquele ano de 1950, amanheceu
bela e esplendorosa. A natureza contrariava o drama da Paixão que
a Igreja vivia e a cidade, ao contrário das Lamentações de
Jeremias, não parecia ter chorado sem cessar durante a noite. A
noite de quarta-feira não fora nada santa. O carteado correu,
como sempre, no Éden Clube. E os jogadores profissionais, como
Quincas e Mulatinho, haviam, em dupla, ganhado muitas mãos de
pôquer dos incautos. O movimento na Esquina do Pecado não cessara
até o amanhecer, e o entra- e- sai na casa da Rita Pé Grande e
Gertrudes havia sido muito grande. Rita, apesar de ser uma
"mulher da vida", era respeitada pelas outras mulheres casadas
porque nunca atrapalhara um casamento e até aconselhava homens
que iam à sua procura. Quando ela percebia que um freguês
começava a enrabichar, buscava logo uma maneira de não atendê-lo
mais. Rita mantinha suas crendices, e, no seu quarto, uma
lamparina de azeite iluminava um quadro de São Jorge e a imagem
do Sagrado Coração de Maria. Padre Raul de há muito havia
desistido de parte desse rebanho rebelde que só aparecia na sua
igreja nos batizados, casamentos ou missas de corpo presente.
Confessar e receber a eucaristia não eram com eles. Reservara,
contudo, uma surpresa para Rita . Na terça-feira, havia posto no
correio um santinho para ela com os seguintes dizeres: "Querida
Filha, Nosso Senhor não esqueceu de você, e muito menos eu, nas
minhas orações. Você está convidada a acompanhar Nossa Senhora
das Dores na procissão do encontro. Que Deus a abençoe. Pe. Raul
de Faria Cunha". Quando recebeu aquela carta, Rita ficou feliz,
mas temerosa ao mesmo tempo. Olhou a imagem do Sagrado Coração de
Maria e intimamente disse "Obrigada, minha Mãe. Mas como posso
eu, pobre pecadora, acompanhar a Senhora?" Retirou da sua velha
bolsa um maço do cigarro Clarim e buscou numa tragada diminuir a
ansiedade que aquele convite lhe causara. Tomou uma decisão.
Naquela Semana Santa, não receberia nenhum homem para a prática
do sexo. Havia economizado alguns cruzeiros e eles eram
suficientes para o armazém e para a compra do Sal de Fruta Eno
que tomava contra a azia que a incomodava havia algum tempo. Para
a procissão, usaria o vestido mais discreto que possuía e
carregaria, como os outros fiéis, uma vela branca.
Na quinta-feira, Pe. Raul começara a usar o alto-falante logo
depois das oito horas da manhã. De meia em meia hora, ele
anunciava para os quatro cantos da Praça da Matriz que o famoso
Frei Tauzin, cujas orações sacras atraíam multidões, estaria
pregando na Procissão do Encontro logo mais à noite, e que as
duas bandas de música iriam acompanhar a procissão de Nosso
Senhor dos Passos e a de Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor
sairia da capela de Santo Antônio e Nossa Senhora da igrejinha do
Barreiro de Baixo às dezoito horas em ponto, e ele acentuava com
sua voz grave e firme que os católicos não se atrasassem. O
encontro se daria na Praça da Matriz por volta das vinte horas. .
Em Serrana, as bandas "Teodolino Soares" e "Maestro Chiquinho
Perón" disputavam as preferências do povo. Tinha paroquiano que
acompanhava uma procissão, não tanto por causa da sua devoção ao
Senhor Jesus ou a Nossa Senhora, mas seguia a banda de sua
preferência. Antes daquela Semana Santa, as duas bandas haviam
ensaiado durante muitas noites. Elas se esmeravam na execução de
hinos sacros e de preferência populares, como o "Queremos Deus" e
"Sete Palavras" que todo povo cantava com emoção e alguma
desafinação. Durante os ensaios, a molecada corria da sede de uma
banda para a sede da outra, ouvindo e palpitando que a do
"Maestro Chiquinho Perón" estava melhor e que ninguém alcançava a
altura e a sonoridade que ele tirava do seu pistom de ouro. Outra
atração da meninada era ver o Caburé baquetar o tarol e jogar
para o ar as baquetas que apanhava com extrema destreza. Durante
a Semana Santa, Caburé se transformava e deixa va de ser o
jardineiro que perseguia no Jardim Público os meninos que pisavam
na grama ou arrancavam rosas. Orgulhoso do seu uniforme e do
tarol, ele brilhava aos olhos da molecada na Banda do Maestro
Chiquinho Perón e parecia menos feio do que era.
Quando as procissões partiam das igrejinhas, era o pistom de cada
banda que dava a entrada do hino que os fiéis iam cantar. O
pistom solfejava a melodia do primeiro verso: "Queremos Deus,
homens ingratos" e em seguida a banda entrava com o povo todo
cantando "Ao Pai Supremo, ao Redentor. Zombam da fé os
insensatos, Erguem-se em vão contra o Senhor" Banda e povo se
fundiam num só canto que subia aos céus da noite estrelada de
Serrana.
Durante os preparativos, os Irmãos do Santíssimo e a Irmandade do
Carmo haviam examinado, com o máximo cuidado, a imagem em tamanho
real do Cristo carregando sua cruz. Retocaram a pintura do sangue
que lhe escorria da coroa de espinhos e verificaram se a cruz e a
imagem estavam seguramente fixadas no andor. As Filhas de Maria
cuidaram com o mesmo esmero da imagem de Nossa Senhora. O rosto
da Mãe de Jesus mostrava todo o sofrimento que lhe causava a
Paixão do seu Filho. Representando isto, um punhal estava cravado
em seu peito. Os dois andores pesavam bastante e somente homens e
mulheres fortes os carregavam sem dispensarem, contudo, as
muletas de apoio.
A quinta-feira foi um dia dedicado às confissões individuais e
mais de seis sacerdotes atenderam os fiéis que procuravam se
livrar dos pecados que haviam cometido durante o ano, seja contra
os mandamentos do Decálogo ou os da Igreja. Padre Raul não se
cansara de ouvir os pecados contra o sexto e o nono mandamento
que pediam aos católicos que guardassem castidade nas palavras,
obras, pensamentos e desejos. Desejar a mulher do próximo,
adulterar e masturbar eram os pecados mais freqüentes e eles já
haviam cansado os seus ouvidos. Mesmo assim, não desistia dos
seus paroquianos e depois de um breve e amigo conselho proferia,
em latim, a absolvição. Padre Raul, formado no Seminário de
Mariana, obedecia rigorosamente às três partes da absolvição. Os
penitentes colocavam o ouvido à tela do confessionário para
ouvirem o final daquele rito que Pe. Raul traduzia para o
português: "Que Nosso Senhor Jesus Cristo te absolva; e eu, por
Sua autoridade, te absolvo de todo o vínculo de excomunhão e de
interdito, enquanto eu posso e tu necessitas." Depois de ouvir
isto e a penitência, o fiel ia ,de alma nova, para um dos bancos
da Matriz cumprir sua penitência.
Para colaborar com a procissão, o comércio de Serrana fechou suas
portas às duas horas da tarde. Todo mundo foi para casa se
preparar para os acontecimentos da noite. As mulheres viriam com
os seus vestidos de manga comprida e o véu de renda branca a
cobrir a cabeça. Os homens, como de costume, de terno escuro e
gravata. Os Irmãos do Sagrado Coração de Jesus vestiriam suas
opas vermelhas e fariam a guarda de honra junto ao Cristo. Logo
depois do andor, viria a banda de música executando num andamento
lento e triste os hinos programados.
Por volta das cinco horas da tarde o povo foi se aglomerando,
tanto na capela do Barreiro de Baixo, como na Capela de Santo
Antonio. As Filhas de Maria andavam para cima e para baixo
tomando mil e uma providências. Ã frente de todas, a catequista
Zilá Passos orientava, dava um último arranjo na imagem de Nossa
Senhora e escalava os diferentes grupos de mulheres que iriam
carregar o andor ao longo da procissão que percorreria um trecho
de mais de quatro quilômetros. Rita chegou meio acanhada, como
não desejando ser vista. Mas a catequista, logo que a enxergou no
meio das mulheres, a chamou:
- "Rita, vem para cá, minha irmã. Você ficará ao meu lado e
preciso de sua ajuda durante a procissão para que os fiéis não
deixem espaço entre as filas e para levar meus recados para a
banda sobre o hino que deverá tocar"." Ela não teve outra
alternativa a não ser dizer" Sim, senhora! "e ficou ao lado da
catequista.
Enquanto isto, na capela de Santo Antonio, os homens se
organizavam e Chico "Gordo" tomava a frente na tarefa de escalar
os homens que carregariam o andor do Senhor dos Passos. Chico era
um católico que Pe. Raul usava como "pau para toda obra".Apesar
da cachacinha que tomava nos finais de semana, ele conservava da
juventude uma musculatura invejável e , quando se tratava de
carregar móveis ou alguma tarefa pesada dentro da Matriz , o
padre mandava chamar o Chico. Sua força era invejada e era bem o
modelo dos primeiros cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu
de Roma e que quebravam suas queixadas com mãos poderosas antes
que fossem devorados.
Às seis horas, como programado, as filas dos homens e das
mulheres, nas duas igrejas, começaram a se deslocar. Logo atrás
do andor de Nosso Senhor dos Passos, vinha a banda do maestro
"Chiquinho Perón"e não demorou muito para que o som do seu pistom
cortasse o ar com as notas iniciais do "Queremos Deus". Logo em
seguida, a "Furiosa" - como carinhosamente era chamada - atacou o
hino com todos os seus instrumentos e os fiéis cantaram, em alto
e bom som, os oito versos que compunham esse hino tradicional.
Entre os hinos, nas duas procissões, os fiéis rezavam no Terço os
Mistérios Dolorosos da vida de Jesus. Na procissão da Mãe de
Jesus, era a Dica, que, com sua voz fanhosa e estridente,
declamava os mistérios, e, na procissão do Senhor dos Passos, era
o Mário sacristão que puxava o terço. Depois de cada terço
rezado, as bandas tocavam mais um hino e lentamente as duas
procissões se deslocavam pelas ruas de Serrana em direção à Praça
da Matriz. Três vezes ,o Senhor dos Passos caiu sob a pesada
cruz, quando os homens faziam um grande esforço para colocar o
andor sobre o chão, e, depois, levantá-lo. Na subida da rua do
Quebra, o Senhor parou mais uma vez e o seu rosto ensangüentado
foi enxugado no sudário da Verônica que entoou uma pequena parte
da Paixão. Finalmente, às vinte horas, as duas procissões se
encontraram na Praça da Matriz. Jesus e Maria estavam frente a
frente. Milhares de fiéis se espalhavam ao longo da Praça,
enquanto os meninos, para melhor avistarem Frei Tauzin, se
empoleiravam nas árvores. Num púlpito, armado nas escadarias da
Matriz, divisava-se o pregador dominicano envolto no seu hábito
branco e um capuz que lhe cobria a cabeça. Naturalmente, sem que
ninguém pedisse, o silêncio foi tomando conta daquela massa de
fiéis. Frei Tauzin, que estava ajoelhado no fundo do púlpito,
levantou-se. De estatura mediana, cabelos louros mostrava um
rosto forte e suave ao mesmo tempo. Com sua voz poderosa e clara,
proclamou: "Mulier, ecce filius tuus. Mulher, eis aí o teu filho.
Mães de Serrana, olhai para a Mãe do Deus feito homem. Ela tem
cravado no seu peito um punhal e dos seus olhos rolam lágrimas de
pena e dó ao ver assim, tão maltratado, tão desfigurado, o seu
Filho Amado. " E durante uma hora, Frei Tauzin mostrou porque
suas pregações comoviam, se fosse possível comparar, até as
pedras. Muitos homens e mulheres tiravam os seus lenços e
enxugavam as lágrimas que o arrependimento dos pecados faz
nascer. Rita, perdida na multidão, buscou a sombra de uma árvore
aonde as luzes não chegavam, e, talvez, como Pedro, chorou
amargamente de arrependimento por sua vida de pecadora pública.
Por volta das nove horas da noite, Frei Tauzin arrematou sua
pregação ,exortando os fiéis : " Fixai em vossas memórias a Cruz
que Nosso Senhor Jesus Cristo carrega. Carrega sem lamentações,
sem reclamações e sem imprecações. Meus filhos e filhas, cada um
de vós tendes também uma Cruz para carregar. Carregai-a com
coragem, fé e esperança. Ela está em vossas vidas sob muitas
formas. Às vezes, de uma doença, de um problema na família, da
perda de um ente querido. Quando ela vos pesar, voltai os vossos
olhos para o Cristo e Ele, disto tenho certeza, virá vos ajudar e
aliviar o peso da vossa Cruz. ' E assim falando, Frei Tauzin
ajoelhou mais uma vez e rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria que a
multidão acompanhou. Em seguida, os dois andores se movimentaram
em direção à Matriz, e, tendo Jesus à frente, as duas imagens
penetraram na Igreja apenas iluminada pela luz das velas. As
portas da Matriz se fecharam e o povo, pouco a pouco, refluiu
para as suas casas como refluem as ondas do mar depois de
avançarem sobre a praia.
Rita foi uma das últimas a deixar a Praça que ficou deserta.
Retomou o caminho de sua casinha na Esquina do Pecado. Chegando
lá, olhou demoradamente a imagem do Sagrado Coração de Maria e
disse à Senhora: " Mãe, rogai por mim!. " E, com uma determinação
que nunca experimentara na vida, foi colocando seus vestidos mais
simples numa velha mala. Iria embarcar no trem Misto das cinco
horas da manhã com destino a Ponte Nova. Resolvera aceitar o
convite que sua tia vivia lhe fazendo para ir morar com ela e
ajudar no trabalho de um pequeno sítio. Voltava à sua origem
rural. Não se despediu de nenhuma companheira da Esquina do
Pecado. Antes que o dia amanhecesse ela tomou o Misto, e à medida
que a velha "maria - fumaça" da Leopoldina Railway avançava em
direção a Ponte Nova, a neblina que ainda cercava Serrana foi se
esvanecendo para que nascesse um novo dia.
ANTONIO RIBEIRO DE ALMEIDA, 68 anos, nasceu em Visconde do
Rio Branco, Minas Gerais. É formado em Filosofia e Psicologia
pela Universdade Federal de Minas Gerais e fez pós doutoramento
nos EUA junto a Arthur W. Statts. É autor de "Contos do
Entardecer" e escreve, semanalmente, para jornais de S. José do
Rio Preto e Ribeirão Preto. Foi professor de Psicologia Social na
Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto.
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