A Máquina


É uma fábrica, tão vasta que o mundo seria ali. Todos trabalham num só ritmo, várias funções diferentes em um só compasso, parecendo, cada um dos operários, a engrenagem de uma grande e poderosa máquina. Um homem acaba de entrar, observa tudo, seus olhos caminham mais rápido que seus passos. Um rosto de pedra, muito branco e severo, é F, um repórter do jornal mais respeitado da localidade. Um boato de que ali, homens trabalhassem até morrer, pareceu-lhe uma grande matéria. F aproxima-se de um homem que opera duas alavancas que, ao serem acionadas, liberam pequenos componentes eletrônicos que caem por sobre uma enorme esteira movente. Detém-se um tempo a fitar os movimentos repetitivos. Enfim pergunta:

- Por que o senhor trabalha tanto?
- Não posso parar.
- Mas vai morrer se não parar.
- O que posso fazer?
- Pare simplesmente.
- Já disse, não posso!
- Escute, com que objetivo você trabalha?
- Apenas trabalho, senhor.
- E o seu salário, é bom?
- Há muito que não tenho salário.
- Como não tem?
- Negociei meu salário.
- Em troca do quê?
- Do meu trabalho.
- Não entendi.
- Preciso trabalhar, certo? Porém, poderia ser demitido a qualquer hora, perderia o emprego e então morreria...
- De fome?
- Não, morreria por não poder trabalhar. Então comprei o meu direito de trabalho. Entendeu?
- Isso é loucura.
- Há princípio também achei, hoje vejo que fiz o melhor para mim e à minha família.
- E sem salário, como sustenta a sua família?
- Com o meu trabalho, é lógico.
- Mas como? O senhor disse que não recebe salário.
- Apenas trabalhando.
- E quando vai para casa?
- Nunca, eu ganhava muito bem. Tão bem, que me permitiu comprar muitas horas de trabalho diário. Paro somente para uma refeição por dia e durmo o suficiente, quarenta minutos, logo após o almoço. Como vê, eu vivo muito bem.
- E não se preocupa com a sua família, quer dizer, não quer saber como estão passando sem o senhor?
- Como assim, sem mim?
- Então o senhor os vê?
- Lógico, jamais ficaria sem ver a minha família.
- Como arranja tempo para vê-los?
- Na hora do almoço.
- Você. . . Posso chamá-lo de você?
- Claro.
- Você mora aqui perto e na hora do almoço vai a casa ver sua família, não é isso?
- Lógico que não, toda a minha família trabalha aqui mesmo, e no meu setor. Minha esposa está ali mesmo. Eu disse que ganhava bem, comprei trabalho para todos, graças a Deus. E almoçamos juntos.
- Percebe o que está fazendo?
- Você não compreende, ficar sem trabalho é como não existir. Aqui eu tenho um número de registro, e assim sendo eu existo dentro de um sistema que precisa de mim. É simples!
- Posso tirar uma foto de você trabalhando? Quando começou a pensar dessa maneira?
- Você faz perguntas demais, está atrasando o meu trabalho.
- Sinto muito, não pretendia. Mas preciso entender, como tudo isso começou?
- Faz uns doze anos, acordei como toda manhã, sentei na beira da cama e pensei: "como seria se eu perdesse o meu emprego?" Foi um choque perceber que poderia deixar de existir a qualquer momento. Segui para a empresa com esse terrível pensamento, passei o dia atormentado, a simples idéia de não ter um emprego me alucinava, não ter uma vida, terrível. Então resolvi garantir uma vida decente para minha família, a posteridade do nosso nome. Vendemos tudo o que tínhamos, o carro, três casas, contando com a que morávamos e uma pequena lancha. Entreguei o dinheiro aqui no meu setor e garanti, para todos nós, uma refeição por dia durante três gerações, foi um ótimo negócio, meus filhos e netos estão seguros, têm emprego e alimentação por toda a vida, e a comida é deliciosa.
- E as pessoas morrem aqui, quer dizer, por trabalharem tanto?
- Ah, você está aqui devido aos boatos. Deve ser repórter, já é o terceiro só hoje. Não morrem por causa do trabalho, afinal todos morremos um dia, não é? O serviço aqui é suave, não mata ninguém! São apenas boatos, não dê tanta importância.
- Acho que você nem percebe o quanto trabalha.
- Por favor, sabe as horas?
- Não, mas deve ser uma hora da manhã, por quê?
- Você não está fora do horário de trabalho?
- Não, sempre trabalho nesse horário.
- E descansa pela manhã suponho.
- Pela manhã vou para a redação redigir as matérias que pesquisei neste horário.
- E não descansa? Me parece que você não está muito bem. Qual a sua idade?
- Dezessete. O corpo se acostuma com o ritmo, já nem sinto.
- Deve ganhar muito bem, com essa carga horária.
- Só dá para jantar, mas tenho salário, não sou escravo como você.
- Posso ir e vir quando quiser! Estou aqui por opção minha, não sou escravo.
- Outra foto?
- Desculpe-me, mas. . . você é casado?
- Não posso, o Jornal me consome, não tenho tempo, e o dinheiro não daria para dois.
- Que triste. Tão novo! Se não tiver filhos, quando morrer seu nome morrerá com você.
- Isso é bobagem, o importante é ter um salário e não um nome ou número. Sou livre!
- O número é importante, sem ele você não teria o seu salário, e seu nome o individualiza perante os outros. Você existe pelo número e conquista a sua dignidade através do nome.
- De que serve um número e dignidade sem um salário?
- Desculpe-me mais uma vez, mas o que você compra com o seu salário?
- Minha janta, todo dia.
- Certo, a opção é sua, mas eu prefiro almoçar.
- Uma última foto! Obrigado, não o incomodarei mais, espero que tenha um bom dia.

Naquela mesma manhã saiu a manchete, em letras garrafais, na primeira página do jornal:


"HOMENS MORREM POR NADA"
Matéria em memória de F


CARLOS FIGUEIREDO
é escritor. Idealizador do grupo literário SPN que atua no cenário literário desde o ano 2000. É editor do site "SPN Revista Literária Virtual"