A Ilha

Campos de Viamão, 1421

Houve uma época em que a vida era boa. Dormir, acordar, alimentar-se. Poucas doenças, banhos de rio, invernos curtos. Crianças que nasciam fortes. Do solo vinham o milho e a mandioca, das árvores os frutos, e o mar era sempre generoso com caramujos e conchas. As famílias foram crescendo e se agrupando. Ergueram paliçadas, formaram povoados próximos ao litoral. Centenas de gerações se sucederam naquela região de banhados e lagoas, invernos amenos e caça abundante. Até que eles chegaram.

Eles. Baixos, atarracados, vozes guturais. Bodurnas pesadas, tambores, rituais macabros. Vinham do norte, perseguindo a terra sem males. Os primeiros foram rechaçados com facilidade, mas em seguida vieram mais, muito mais. As hordas se sucediam, queimando, matando, cada vez mais numerosas. E cada vez havia menos kaigangues nas aldeias.

Não podiam fugir para o pampa, domínio dos minuanos e suas lanças mortais. E se cruzassem o Rio Mambituba, encontrariam povos guaranis desconhecidos, talvez mais selvagens do que os Patos.

Resolveram subir as escarpas do planalto. Araken lembrava-se como se fosse hoje, o avô arrastando-o pela mão, o rufar dos tambores, o corpo do pai ficando para trás. Seis Dedos, tinham matado Seis Dedos! Araken vira como ele abatera os dois primeiros inimigos, e como o terceiro atingira-lhe com o tacape, vindo de trás. O pai cambaleara, e o guerreiro Pato desferiu-lhe mais um golpe, atirando-o ao chão. Quis gritar, mas o avô o conteve e puxou seu braço, deslizando suavemente pela relva. Há a hora de lutar e a hora de fugir, disse-lhe depois. Espera que teu momento chegará.

E Araken esperou. Esperou sob as matas geladas do Planalto, no acampamento que os sobreviventes improvisaram na laje úmida. Por várias noites era despertado pelo ruído da chuva, ou por súbitos filetes de água que escorriam pela pedra vindos da neblina. De dia, perseguia as manadas de veados que desciam a serra e que garantiam a sobrevivência do grupo. À noite, debaixo de um telhado tosco, enrodilhava-se às peles recém cortadas e escutava o sibilar do vento. E assim passarem-se meses e anos, a caça rareando, mulheres e crianças sucumbindo à fome e ao frio, às cascavéis e aos escorpiões, até o dia em que o avô não acordou.

Embaixo do corpo inerte, encontraram uma tarântula do tamanho de uma panela. E Araken percebeu que era hora de voltar.

Com ele, desceram a serra mais seis. Não contava ainda vinte anos, e era o mais velho. Falou-lhes da aldeia à beira do rio, do clima ameno, da comida abundante. Contou-lhes sobre da ferocidade dos Patos, mas preferiu calar-se sobre os festins.

Andaram por quase uma semana, atentando para os precipícios, para os desfiladeiros. O caminho inteiro era uma laje escorregadia onde a menor vacilação podia ser fatal. Chegaram à margem do rio pela manhã do sétimo dia.

Nem chegaram a descansar. Em uma suave elevação do terreno, junto a duas figueiras, avistaram um aldeamento guarani. Meia dúzia de jovens sonolentos guarnecia o local. A maioria estava desarmada, lanças e tacapes atirados ao chão. Indolentes, trocavam risos entre si, dirigindo olhares para as mulheres que moíam o milho, os seios balançando ao movimento dos braços.

Seu momento chegara. Guiou o pequeno grupo até um arbusto próximo, e ordenou o ataque. Os kaigangues precipitaram-se em direção ao rio, assobiando e gritando. O primeiro guarani correu para as armas, mas uma bodurnada derrubou-o antes que pudesse empunhar a lança. Uma pancada na nuca silenciou seus gemidos . Os dois seguintes foram atingidos pelas flechas certeiras de Araken. Os demais se atiraram na água, e apressaram-se a alcançar a margem oposta. O mais lento teve o pulmão perfurado por um lançaço de Cauê, e contorceu-se em meio a correnteza até desaparecer no meio do rio.

Cauê gritou de alegria. Era pouco mais do que um menino, e já mostrava o destemor de um homem maduro. Araken correu em sua direção, abraçando-o Por diversas vezes treinaram aquele golpe contra os pequenos peixes que abundavam nos ribeirões da serra, ele sempre corrigindo sua postura, seu arremate. Arremessou também a lança, mas ela mal passou da metade do rio, sequer ameaçando os dois sobreviventes que se esgueiravam por entre as pedras da outra margem.

Olhou para seus companheiros. Dois deles distribuíam bodurnadas nos corpos inertes dos guaranis flechados, e os outros serviam-se do cauim deixado em uma das ocas. Das mulheres, nem sinal. Haviam fugido para a mata em meio ao combate. Mandou que pegassem comida e armas, que a aldeia era grande, os dois fugitivos não tardariam a voltar.

Responderam que esperasse um pouco, queriam atear fogo à aldeia. Araken deu de ombros, voltando-se. Ao longe, divisou uma oca isolada, menor, com duas pequenas aberturas para permitir a ventilação.

Fixou o olhar, e foi então que a viu.

Não fez menção de fugir, pelo contrário, mostrou-se por inteira à luz do sol. Araken aproximou-se com passos rápidos, seguido pelos demais. Notando os olhares concupiscentes, mandou que se afastassem.

O melhor butim sempre pertencia ao cacique. Era uma norma que vigorava naquelas latitudes entre patos, carijós, areiquenes e outros povos guaranis desde que a primeira gota de sangue foram derramada por cobiça ou despeito, exercício de poder ou vontade de matar. Passou a vigorar também entre os poucos kaigangues remanescentes. Agora saberia se era, de fato, o líder.

Postou-se a frente da mulher, tocou seu braço. Ela sustentou seu olhar com altivez. Araken notou as pulseiras, a plumagem que enfeitava os cabelos muito negros, o colar de pedras que faiscava ao sol. Uma prometida, pensou. Ouviu os cochichos, as risadas, e perguntou aos homens porque não estavam incendiando a aldeia.

Aguardou por alguns instantes, sem voltar-se, e ouviu os passos afastando-se. Perguntou à mulher se tinha fome ou sede, ela não respondeu. Repetiu a pergunta em túpico, o dialeto comum a todas às tribos, e ela meneou a cabeça.

Tomou sua mão, pediu que o acompanhasse. Gritou aos outros para que o encontrassem no local combinado. Lembrou-se das palavras do avô. Não se conquista uma mulher pela força, mas pela delicadeza.


Juaçanã seguiu o jovem kaigangue pela trilha em meio a mata. Morrer naquela manhã ou dali a dez anos, entregar-se àquele índio ou à um pajé sexagenário, para ela era indiferente. Já perdera há muito o gosto pelas coisas da terra.

Ele falava bastante, ela pouco entendia. Compreendeu apenas que vivia no topo da serra, e queria retornar para a terra dos ancestrais. Teve ímpetos de lhe dizer que desistisse, os guaranis multiplicavam-se por toda a planície, arrebatando as nascentes, os campos rasos de milho e mandioca, e agora projetavam-se também para o sul, para além do Camaquã. Mas faltavam-lhe palavras, faltava-lhe vontade.

O Camaquã. Parece que foi ontem, a aldeia às escuras, as canoas deslizando silenciosas pelas águas plácidas do rio. Quando despertaram, os guerreiros já estavam na margem, saqueando e matando. Seu homem foi um dos poucos que teve tempo ou coragem para empunhar a lança, cobrir a retirada dos velhos e das crianças. Matou dois ou três invasores, até ser contido pelas bodurnas.

Capturaram-nos. Ele, muito ferido, ela apavorada com os olhares e gestos dos guaranis. Aí apareceu um pajé, gritou alguma coisa e todos recuaram.

Alimentaram seu homem, deram-lhe água. Trataram os ferimentos em sua cabeça. Quando lhe rasparam as sobrancelhas e puseram-se a dançar em sua volta, ela pressentiu. Em seguida, grifaram sua testa e o amarraram novamente, pondo-o sentado. Foram necessárias duas ou três porretadas, e a massa encefálica aflorou.

Ela foi obrigada a acompanhar tudo. Uma velha postou-se ao lado da estaca em que estava amarrada, e direcionava sua cabeça para a cena. Quando fechava os olhos, a megera empurrava uma lâmina de pedra contra seu ventre, forçando-a a abri-los.

Desmembraram-no, e em seguida rasgaram o tronco da nuca ao cóccix. Puseram vísceras, miolos e língua em um recipiente de cerâmica, e o levaram ao fogareiro. Continuaram cortando e seccionando até sobrar somente uma massa amorfa, macilenta, destinada aos cães.

Não demorou muito e a velha voltou com uma porção de mingau. Com ela, três ou quatro mulheres já entorpecidas pelo cauim.A pedra perfurou sua pele, a lâmina avermelhou-se por inteiro, mas ela recusou-se a abrir a boca. Teve certeza que morreria. O pajé interrompeu o suplício, afastando aos gritos o pequeno grupo.

Ainda ofereceram-lhe um pedaço da panturrilha. Ante seu olhar enfurecido, deram-lhe os testículos, rindo

Foi trazida para a aldeia e enclausurada naquela oca.

É claro que seu acompanhante não sabia daquilo, nem haveria tempo para saber. Matou uns quantos, terá o mesmo destino Os guaranis pensam que podem sorver a coragem de alguém devorando seus restos. Tolos, não sabem que Tupã dá a cada ser uma virtude única, intransferível. Desconhecem que força e bravura são qualidades do espírito.

Notou os músculos do rapaz, a tintura de urucum já misturando-se ao suor, escorrendo pelo peito. Ele falava no avô. Percebeu que apreciava a brandura das palavras, a tepidez do olhar. Decidiu que iria deitar-se com ele como se fosse sua esposa, um presente de despedida.


Araken fez a curva e parou, impaciente. Em meio à vegetação, entrevia os movimentos suaves da mulher. Não teve receio que ela fugisse, quando sinalizou que precisava aliviar-se. Descobriu que não era uma prometida, como sua beleza e ornamentos indicara, mas uma prisioneira a que estava reservado um destino enfadonho: oferecida a um chefete para selar uma aliança entre tribos rivais, ou arrebatada como troféu por um guerreiro que se destacasse em uma refrega qualquer .

Tornou a observá-la. Constrangido, tentou conter a ereção que se pronunciava, urgente. Precisava de toda a força e atenção na trilha, o foco sempre no adversário. Ela aproximou-se, e ele vislumbrou no rosto até então circunspeto um indício de sorriso. Virou-se, a fronte em fogo. Passou os lábios pela boca e trocou de mão a bodurna.

Puseram-se novamente em marcha. O sol quase à pino encolhia as sombras, os animais da mata silenciavam-se a sua passagem, para logo reiniciar seus buliços. Já podia divisar o morro e os jequitibás que conhecia tão bem. Ali vira pela primeira vez o sol erguer-se em meio a mata, recebera a primeira pintura de guerra, ouvira o derradeiro suspiro da mãe. Ali, em meio a ossos e conchas, areia e vento, pôde desfrutar de algo que perderia para sempre.

Estava no centro do que, séculos depois, seria chamado de Parque de Itapuã. Mais alguns minutos de caminhada e divisou os contornos da ilha.

A Ilha. Quantas gerações o precederam naquele santuário, quais guerreiros jaziam em seu solo imaculado, os ossos a fertilizar a terra. Apurou os ouvidos, e por um instante pareceu-lhe escutar seus ancestrais clamando, os chamados vencendo o tempo, chegando em ondas como aquelas que quebravam na praia, impulsionadas por um vento forte, ruidoso, que vergava os ramos mais altos dos jequitibás e cobria o caminho de galhos e folhas.

Avistou a grande rocha saliente que indicava a vau do rio e apressou o passo. Nenhuma canoa. Teriam que atravessar a nado.

Avançou pela lama da margem, e sentiu os pés afundarem até o joelho. Juaçanã hesitava. Caminhou até a água alcançar-lhe a cintura e voltou-se, sentindo a correnteza forte. Ela projetou-se a frente, resoluta, as passadas revolvendo a água. Mulher de valor, pensou, que horrores não terá vivido junto aqueles canibais?

Já estavam com a água quase pelo peito, e não haviam transposto ainda um décimo da extensão do rio. A força da correnteza aumentava a cada passo, arrastando-os para o poente. Araken tomou sua mão, e tentou avançar mais alguns metros Sentia o toque macio dos dedos, a pressão da palma, adivinhava a água molhando o ventre, os seios.

Parou, voltando-se. Enlaçou-a ali mesmo, puxando-a para si. Sentiu a respiração ofegante, e perpassou-lhe um beijo sôfrego. Escutava o ribombar do coração se sobrepondo ao ruído do vento. Foco no adversário, chegou a lembrar, mas ela deslizou a mão para o meio de suas pernas, e ele esqueceu de tudo.


Despertou com a garoa. Quatro horas, seis, não sabia precisar quanto tempo ficaram ali, deitados. O vento perdera o ímpeto, tornara-se uma brisa suave que empurrava a chuva contra o pequeno abrigo que improvisara junto aos jequitibás, passado o fulgor da primeira hora.

Esticou o braço e foi tateando a relva úmida até encontrar o arco. Um pouco mais adiante, percebeu as pontas de pedra, e rememorou as duas flechadas certeiras. Faltava-lhe o dedo extra, que consagrara o pai e impulsionara sua fama para além dos limites da tribo, mas tivera a mesma precisão na mira, a mesma firmeza ao esticar o cordame, preparando o vôo mortífero.

Entardecia, e o sol poente derramava sua claridade difusa sobre a floresta, multiplicando as sombras. Araken ergueu-se de sobressalto, sinalizando para que Juaçanã ficasse quieta.

Não demorou a ouvirem o farfalhar das folhas, e logo Cauê escalava a rocha saliente, procurando divisá-los na outra margem.

Araken levou os dois dedos na boca e assobiou. Em breve o rapazote juntava-se a eles, o corpo coberto de suor, os olhos esbugalhados. Contou que os guaranis tinham atacado em seguida, vindos do outro lado do rio. Irromperam no meio da aldeia em silêncio, e só começaram a gritar e a ulular com as primeiras bodurnadas. Estavam tontos demais, mal puderam reagir.

Araken sentiu as mãos retesarem, e experimentou um misto de ódio e compaixão de seus kaingangues. Queimem tudo e fujam, dissera, mas esquecera-se do cauim. Pouco a pouco foi se dando conta, estavam todos mortos. Mortos porque ele, Araken, os deixara no meio da aldeia inimiga com aquele fermentado de milho ordinário. Mortos porque ele, Araken, não soube resistir ao desejo que ainda lhe queimava as entranhas.

Fixou o olhar em Juaçanã, que esforçava-se para entender o relato. Sentiu o ódio abrandar: a culpa não era dela, que só fez acompanhá-lo. Muito menos de Cauê, rapazote ainda. Notou suas mãos crispadas, e a custo concentrou a atenção na narrativa.

Cauê prosseguia, ofegante. Do massacre só sobraram ele e Tupuaçu, amarrados no centro da taba. Lavaram as suas feridas, tomando cuidado para preservar as pinturas de guerra, e forçaram-lhes a beber uma infusão amarga. Tupuaçu levou duas pancadas ali mesmo, em meio ao alarido das mulheres e crianças, e foi desmembrado ainda respirando. As pernas e os braços carregadas para um fogareiro, o tronco e a cabeça vertendo sangue. Contou, entre lágrimas, que o pajé acercou-se e fez uma incisão no pescoço do morimbundo. Então vários guerreiros adiantaram-se...

Tentou prosseguir, mas as palavras foram sucedidas pelos soluços. Cauê regurgitava e tremia, salivando em profusão. Juaçanã levou a mão direita até o rosto do jovem, encostando a palma na boca entreaberta. Passou a entoar uma cantiga que pouco a pouco foi lhe acalmando. Araken alcançou-lhe água, e indagou como conseguira fugir.

- Fui solto. Queriam que dissesse a todos que a Lagoa pertence aos Patos.

Ingênuo. Soltaram-no para segui-lo, descobrir seu esconderijo. Olhou para Juaçanã, e notou nos olhos sobressaltados que ela também tinha percebido a armadilha. Perguntou quantos eram.

- Dez vezes os dedos da mão.

Juaçana dirigiu-lhe um olhar debochado. Disse, em túpico, que os inimigos eram mais numerosos que os fios de seu cabelo, e que esperavam o anoitecer para capturá-los. Evitariam um ataque direto, não queriam sofrer baixas.

Aproximou-se de Araken e acariciou seu peito:

- Morrer ou ficar viva é questão que não me diz respeito, mas se quisermos um futuro precisamos sair daqui agora.

Ele ficou estático. Era a primeira vez que uma mulher lhe dirigia palavra.

As kaigangues que conheceu em sua aldeia eram distantes, quase assustadiças, sempre envolvidas em pensamentos ou concentradas nos trabalhos manuais. Jamais falariam sobre guerra.

Notou que ela não abaixara a cabeça, pelo contrário, permanecia fitando-o e esperava a resposta.

Desviou o olhar para os juncos que guarneciam os contornos da ilha, e, mais acima, para os diversos tons de verde que as primeiras trevas começavam a esconder. Quisera ter tempo para atravessar o rio, refletir na pequena praia à frente e, quem sabe, dispor de uma noite para recompor as forças, suplicar naquele espaço sagrado por alguma sabedoria ancestral.

Imaginou-se no aconchego dos braços daquela mulher naquela noite, e na seguinte, e na seguinte ainda. Sorriu para ela, e a abraçou. Daí anteviu o seu retorno, o cacique perguntando pelos mortos, cinco jovens guerreiros trocados por uma esposa formosa, de passado desconhecido e idéias ligeiras. Um futuro em meio a rochas e escorpiões, frio e fome.

Empurrou a mulher com suavidade, afastando-se. Empunhou o arco.

- Sigam pela trilha do desfiladeiro - disse à Cauê, enquanto juntava as flechas - eles não devem conhecê-la. Vou esconder nossos rastros e alcanço vocês em seguida.

Pensou ter visto uma súbita lágrima nos olhos de Juaçana, mas percebeu que era apenas uma gotícula prenunciando o reinício da chuva.

Desfez a cobertura de galhos e folhas que lhe servira de abrigo, e apagou as pegadas dos dois fugitivos esfregando no solo enlameado uma ramagem que despencara com o vento. Quando se deu por satisfeito, atravessou o rio.


Nove meses depois, o alto da serra testemunhou o nascimento de uma criança. Um menino de bom tamanho, choro potente e respiração fácil. O pajé adentrou na tenda antes mesmo do rompimento do cordão, suspirando. Ignorou o olhar apreensivo da mãe estrangeira, e fez pouco caso das mulheres que a secundavam no parto. Já esganara inúmeros mestiços guaranis, mas o ritual fazia-se mais desconfortável quando a criança era forte. Acercou-se, procurando um sinal. Naquele ano, apenas onze nascimentos na aldeia. Já decidira que em caso de dúvida o pequeno seria criado como um legítimo filho da terra.

Examinou os lábios, a cabeça. Não parecia pato, carijó ou arachane. A cor era indefinida, mas o desenho do nariz lembrava um bebê kaigangue. Observou os pés, a cabeleira que já se fazia abundante. Desceu os olhos pelo pequeno braço e contou, maravilhado, seis dedos.

Juaçanã recebeu de presente um saiote de caraguatá e vários adornos, além de uma porção extra de aipim e milho. Recebeu também duas propostas de casamento.

Naquele noite, um cometa cruzou os céus, o que foi considerado pelos mais velhos um presságio de tempos melhores.

MARCEL CITRO é autor de A Noite do Saúrio, 2004. Vive em Porto Alegre, RS.