
Ilustração: Di Cavalcanti |
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A amante do major
A amante do major-general crava os olhos no homem que está
sentado na varanda do 2º- andar mesmo em frente e sibila,
indignada: "bêbado".
Consegue vê-lo perfeitamente, recostado na cadeira de napa meio
encardida, Xiríco na mesinha ao lado, copo de cerveja na mão.
"Bêbado", repete ela, sem desviar os olhos do homem "toda a tarde
vai beber". E, com estas palavras, procura escamotear de si
própria o motivo real da sua indignação.
O homem vai beberricando a cerveja com uma sofreguidão mal
contida, a atenção centrada no copo e no Xiríco. Por um instante,
por um brevíssimo instante, a amante do major-general supõe que
ele dá pela sua presença mas logo se apercebe que, como sempre,
aquele olhar resvalante a exclui do seu campo de visão,
inteiramente preenchido pelo Xiríco e pelo copo de cerveja.
É domingo e, como acontece todos os domingos a esta hora, a
amante do major-general vem até à varanda que dá para a rua.
Almoçou sozinha, na enorme sala comum que poderia ser alegre e
arejada, dadas as suas dimensões, a cor branca das paredes e a
ampla porta envidraçada que comunica com a varanda. É, porém, um
local sombrio, tal a profusão de mobiliário de precioso e
escuríssimo jambire, alcatifas, bibelots de metal, maples de
veludo e pesados cortinados. Até mesmo a poeira parece circular
na sala agitadamente, ansiosa por se libertar de tamanha
ostentação.
A sala é, na verdade, um lugar que suscita, nos visitantes de
espírito mais sensível, uma melancolia insidiosa e funda que, por
vezes, no meio de uma conversa, os leva a despedir-se, acossados
de pressa, como se, de súbito, lhes falte o ar, naquele ambiente,
onde o luxo, aliado a um notório mau gosto, produz um efeito de
extrema opressão. E os próprios visitantes se espantam com a
urgência que os move a demandar a rua, pois ignoram que a
melancolia acumulada assim, inconscientemente, chega a ser mais
insuportável que a própria dor.
Contudo, para a amante do major-general, a sua sala é o seu
reino, repleto de móveis, alcatifas, cortinados e bibelots que
ela própria escolheu e que o major-general comprou sem regatear
os altos preços e a duvidosa serventia. Por isso ela se sente ali
perfeitamente, como ainda há pouco, enquanto almoçava, sentada à
enorme mesa de jambire, servida por um empregado silencioso e
eficiente e sentindo subir-lhe à cabeça a embriagadora sensação
que sempre lhe provoca o facto de constatar que tudo quanto os
seus olhos abarcam lhe pertence.
Depois do almoço, o relaxante ritual de se vestir e maquilhar não
fez mais do que aumentar-lhe a momentânea boa disposição. Ritual
a que ela se entrega com o zelo das mulheres que vivem sós e
procuram, com a sua aparência cuidada, compensara solidão,
provocando nos outros admiração, invejas e secretos desejos.
Já no quarto de dormir, despiu o robe que envergara depois do
banho matinal, com o qual tanto lhe agrada deambular pela casa
nas manhãs de domingo. Trocou-o então pelo vestido que já havia
escolhido de véspera. É de shantung de seda, verde-mar, colado ao
corpo, com um generoso decote que se repete nas costas,
abotoadas, até à cintura, por minúsculos botões forrados. A nota
moderna é dada pelo cinto largo e pelas mangas muito franzidas
nos ombros, terminando, bem justas, um pouco acima dos cotovelos.
Depois de vestida e calçada, a amante do major-general olhou-se
ao espelho aprovativamente, ciente de que o vestido se adapta
perfeitamente ao seu corpo delgado e sinuoso e a cor verde-mar
lhe realça a ambarina pele de mulata clara.
Passou então a loção adstringente pelo rosto e aguardou que esta
fosse totalmente absorvida. Espalhou depois a "base", primeiro
com pancadinhas leves e rápidas, seguidas de sábias massagens
circulares, até que a pele adquiriu aquele aspecto luminoso que
só os produtos de qualidade podem dar. Foi depois a vez de fixar
o pó de arroz, finíssimo e perfumado, passar um toque de blush
pelas maçãs do rosto e realçar o contorno dos lábios com o baton
vermelho-ocre. Finalmente, a maquilhagem dos olhos requereu todo
o cuidado para combinar o jogo de sombras nas pálpebras e
desenhar o impecável traço de eye-liner, bem rente às pestanas,
por sua vez alongadas com um pouco de rímel.
Só então, depois de passar uma derradeira gota de perfume pelo
lóbulo da orelha e de mirar, mais uma vez aprovativamente, a
imagem que o espelho lhe devolvia, a amante do major-general se
considerou pronta para sair do quarto.
Encontra-se agora, como todos os domingos à tarde, desde que vive
nesta flat, à espera do amante, na varanda que dá para a rua,
oferecendo-se entretanto, qual trofeu desejável e inacessível, à
contemplação de transeuntes e vizinhos.
A esta hora, a rua encontra-se quase deserta e pesa no ar um
tédio morno, latente durante os dias de semana e que, nas tardes
de domingo, se torna quase palpável.
Tédio talvez segregado pelos prédios e vivendas, construções
incaracterísticas, de uma beleza fácil e cansativa, concebidas,
ainda no tempo colonial, por empreiteiros portugueses, com muito
dinheiro e duvidoso gosto, os quais imprimiam, nas suas obras, a
marca da própria vulgaridade. Mas pode também acontecer que até
sejam os moradores dos prédios e vivendas os causadores deste
tédio.
Uns já aqui viviam na época colonial. São, na sua maioria
portugueses que, embora não tenham abandonado o país depois da
independência, guardam um amargo ressentimento contra todos os
moçambicanos e recordam com saudade o tempo em que nenhum negro
se atrevia sequer a passear nesta rua.
Outros são cooperantes das mais desvairadas origens europeias e
americanas. Mal se vêem na rua pois entram e saem de casa nos
seus carros reluzentes e, nos fins-de-semana, voam para a África
do Sul ou Suazilândia ou então empanturram-se de álcool, na
companhia de outros cooperantes, nos "complexos turísticos" e
"boites" da cidade. São criaturas muito temerosas dos "instintos
roubadores" dos moçambicanos e, por isso, resguardam-se atrás de
muros gradeados, protegidos por cães ferozes e por guardas que
mantêm de plantão, dia e noite.
Outros ainda são negros, famílias inteiras, oriundas dos
subúrbios. Chegaram logo após as nacionalizações dos prédios, com
a cabeça repleta de sonhos e esperanças, como se o facto de virem
ocupar estas casas lhes conferisse, automaticamente, o direito de
levarem a mesma vida regalada dos colonos que as abandonaram. A
realidade porém, mostrou-se bem avara em benesses e hoje vivem na
miséria, permanentemente preocupados em desenrascar a vida, à
custa de expedientes que contrariam a sua vivência de gente pobre
mas arreigada a princípios morais herdados de geração em geração.
Esses mesmos princípios leva-os a acolher todos os parentes que
chegam do mato, aos magotes, fugidos da guerra, trazendo apenas
os andrajos que lhes cobrem os corpos estropiados e, nos olhos
alucinados, as imagens de horror que os levaram a abandonar as
suas terras. Constituem uma autêntica sobrecarga humana na cidade
hostil que deles não necessita, porquanto tudo o que sabem
produzir se relaciona com o campo, onde deixaram as suas raízes
e,
por vezes, até o gosto de viver.
Finalmente, um outro tipo de gente tem vindo a instalar-se nesta
rua: São os compradores de chaves, indivíduos de todas as raças a
quem, geralmente, o dinheiro não custa a ganhar e que, a troco de
alguns milhões, conseguem que os verdadeiros inquilinos abandonem
as suas casas, passando, fraudulentamente, os contratos de
arrendamento para seu nome.
A amante do major-general é, indirectamente, uma compradora de
chaves. Viveu toda a sua vida numa flat da Malhangalene mas, logo
que se tornou amante do major-general, passou a queixar-se de que
não suportava mais aquele lugar tão impróprio, com problemas de
água, de lixo, de insegurança, de má vizinhança, enfim. Até que
um dia, numa das suas visitas dominicais, o major-general, mesmo
antes de a saudar, lhe disse triunfante: "Venha ver a casa onde
vais morar agora".
Havia comprado, por bons milhões, as chaves desta flat, em pleno
Bairro da Polana, a um casal de funcionários públicos que,
estrangulado pelo constante aumento do custo de vida, resolveu
regressar à sua suburbana Mafalala, passando, ilegalmente, o
contrato de arrendamento da sua flat para o nome da amante do
major-general que aqui reside há mais de dois anos.
Agora, da varanda, ela abarca com o olhar um longo troço da rua
que, como sempre, não lhe oferece nada de novo. As mesmas
crianças brincando desconsoladamente nos passeios, os mesmos
carros, alguns de ostensivo luxo, deslizando em silêncio, com os
seus ocupantes muito cientes da alta conta em que eles próprios
se têm. Os mesmos chapas, quase vazios por ser domingo, mas
rangendo penosamente, jamais refeitos do peso das pessoas que,
durante a semana, têm que transportar, apinhadas como gado.
E ainda os mesmos grupos de visitantes dos doentes internados no
Hospital Central que fica mesmo ao fundo da rua. É, em geral,
gente modesta, para quem estas visitas são, simultaneamente, um
dever e um passatempo domingueiro. Lá vai agora um grupo, o homem
um pouco à frente, apertado no seu velho casaco puído, o rosto
brilhando de suor da longa caminhada desde os subúrbios, o andar
meio bambo de cansaço e dos sapatos cambados, salpicados de lama.
Um pouco atrás seguem três mulheres, arrastando as chinelas de
plástico. Duas levam marmitas amarradas em desbotados lenços de
cabeça e a outra, um pouco mais jovem, parece exausta de carregar
um filho nas costas e outro no ventre. De vez em quando conversam
entre si mas logo se calam para melhor caminhar, meio inclinadas,
como árvores batidas pelos ventos da vida.
A amante do major-general contempla tudo isto com um enfado
mortal. Não fosse o homem sentado na varanda em frente, já se
teria retirado para a macieza dos seus sofás de veludo e aí
esperaria o amante que não tarda a chegar. Mas algo mais forte do
que ela a retém de pé, travando esta luta surda e inglória que se
arrasta desde o primeiro domingo em que, depois do solitário
almoço, ela se vestiu, maquilhou, perfumou e veio para a varanda.
Nesse primeiro domingo, já lá estava o homem, sentado na cadeira
de napa encardida, absorto no Xirico e na cerveja que, ao longo
da tarde, iria bebendo. Ela agradou-se logo daquele rosto grave e
melancólico, não obstante a extrema juventude dos seus traços. E
também das mãos, ossudas e nervosas, que seguravam o copo de
bebida com a delicada firmeza de quem tange as cordas de um
instrumento.
O homem, porém, ignorou a presença daquela mulher que, da sua
varanda o observava, toda oferecida e convicta do seu poder de
sedução. E continua a ignorá-la, todos os domingos, ao longo de
dois anos.
Tivesse ele, uma única vez, demonstrado algum interesse e a
amante do major-general esquecê-lo-ia, talvez, imediatamente.
Assim, pelo contrário, e à revelia da própria vontade, pôs-se a
desejá-lo com um frenesim inteiramente estranho à sua natureza
fria e calculista, passando mesmo a espiá-lo às horas em que ele
entra e sai de casa, apressado e grave, com a pasta debaixo do
braço. E, quantas vezes, ao sentir as rechonchudas mãos do
major-general percorrer-lhe o corpo, ela imagina como deve ser
diferente o dedilhar dessas outras mãos ossudas e nervosas. E,
quantas vezes, no breve lapso de um beijo, ela procura, no rosto
desgastado do amante, esse outro rosto muito jovem e já tão
profundamente tocado de melancolia.
A amante do major-general é a primeira a reconhecer a insensatez
deste desejo por um homem praticamente desconhecido. Dele sabe
apenas que é professor do ensino secundário, casado, pai de
quatro filhos e que tem a casa a abarrotar de parentes fugidos da
guerra. Calcula ainda que, apesar de letrado, é, sem dúvida,
muito pobre. E ela que, toda a sua vida, nutriu uma institiva
repulsa por gente pobre, incluindo a própria família, dá consigo
a embonecar-se, todos os domingos, especialmente para um
professor pelintra que nem a vê, E o mais enervante, para a
melindrosa mulher, é o facto de já não encontrar consolo nos
olhares cobiçosos de outros homens pois é deste que ela reclama a
confirmação da sua feminilidade e beleza.
Por isso agora, radiosa no seu vestido verde mar, ao vê-lo todo
entregue à bebida e ao Xirico, a amante do major-general continua
a fixá-lo com um olhar branco de rancor. O mesmo olhar que um
dia, num futuro não muito distante, sentado no banco dos réus,
ele irá captar e o levará a interroa"'--se, cheio de
preplexidade, "porque me odeia tanto esta mulher que mal
conheço?" Com efeito, terá dela apenas uma ideia vaga e
imprecisa, de alguém que, casualmente, se avista de relance.
Nesse dia, a amante do major-general será a única testemunha de
acusação. Nem mesmo os familiares da esposa do réu se prestarão a
depor contra ele, porque, apesar de campónios analfabetos,
carregam em si uma sabedoria antiga que lhes permite distinguir
um criminoso de um homem acuado pelo desespero.
A amante do major-general, porém, logo que tiver conhecimento da
tragédia, ousando mesmo contrariar o amante, apresentar-se-á como
testemunha de acusação, aproveitando-se da privilegiada situação
de vizinha do réu. E, nessa hora de vingança, incriminará o
professor com afirmações temerárias e falsas. E, a certa altura,
dirá mesmo, peremptória: "O réu cometeu o crime premeditadamente.
Ele não gosta de mulheres, eu acho!"
Tal afirmação provocará uma onda de risos na assistência e levará
o juiz a ordenar à testemunha de se abster de emitir opiniões
pessoais, fora do contexto do interrogatório. Ela abster-se-á de
emitir opiniões pessoais mas continuará a fixar o réu com os
olhos brancos de rancor. Rancor que dará lugar a um brilho de
triunfo quando, apesar de todas as atenuantes, for lida a pesada
sentença de quinze anos de prisão.
Todavia, nesta tediosa tarde de domingo, a amante do
major-general ignora ainda que, num futuro não muito distante,
viverá a sua hora de vingança. Por isso continua a observar o
professor com o mesmo fulgor maligno no olhar e só dá pela
chegada do amante quando este acaba de sair do seu potente Volvo.
Corre então para dentro de casa pois ele gosta de ser recebido à
porta da sala.
Cumprimentam-se quase cerimoniosamente, sem beijos nem abraços,
porque o major-general, casado há mais de vinte anos com uma
mulher que ama à sua maneira, tem sempre muita dificuldade em
adaptar-se à situação de amante, fora da cama. Aí todo ele se
derrete em carícias, com um ímpeto quase feroz. Mas fora da cama
prefere assumir o papel de amigo protector que se preocupa com o
bem-estar da amiga, exigindo apenas gratidão e respeito.
O major-general é um quarentão pequeno e nervoso que conserva
ainda resquícios do aprumo dos seus tempos de guerrilheiro da
FRELIMO. Aprumo que permaneceu notável durante os primeiros anos
de Independência e que se foi diluindo à medida que a guerra
"civil" se eterniza e ele vai sendo promovido a postos cada vez
mais elevados.
Actualmente, não só o aprumo mas os próprios ideais que o
nortearam durante a luta de libertação, e pelos quais estaria
disposto a sacrificar a própria vida, foram-se diluindo também,
dando lugar a uma ânsia desenfreada de usufruir tudo o que na
vida lhe dá prazer.
Não admira pois que o ventre, atafulhado de boa comida e farta
bebida, se apresente agora volumoso e flácido, projectando-se do
corpo como uma caricata gravidez. E que o rosto, outrora de
contornos quase ascéticos, esteja agora deformado pela camada de
gordura que, ao longo dos últimos anos, se vem instalando sob a
pele macerada. E que o próprio olhar tenha adquirido a baça
frieza da maioria dos abastados deste mundo.
Como sempre que acaba de chegar, passeia-se pela sala, com as
mãos nos bolsos, embora não tenha muito espaço de manobra e se
veja obrigado a esquivar-se, ^constantemente dos móveis
espalhados em profusão. Acomoda-se, por fim, num dos maples de
veludo, junto da mesinha de tampo de mármore, onde a amante
dispõe OG copos e as bebidas que vai buscar à bem recheada
garrafeira.
É ela quem prepara o whiskyduplo com gelo para o major-general e
um campar/' para si própria. Há muito que desistiu de convencer o
amante a preparar e servir as bebidas (segundo as revistas
mundanas, cabe ao homem essa tarefa) pois ele recusa-se a aceitar
tal norma de etiqueta, "própria para maricas", como afirma.
Sentados frente a frente, bebem devagar, em pequenos goles, como
convém a quem, ao almoço, se fartou de vinhos de boa marca.
Conversam pouco, de assuntos triviais, mas agrada-lhes a mútua
companhia, sobretudo pela antecipação de pecado que ela contém.
Para a amante do major-general é também muito lisonjeiro que este
lhe reserve as tardes e as noites de domingo pois, só em ocasiões
excepcionais, ele as passa com à esposa e os filhos. Assim,
embora não o ame, trata-o sempre com uma deferência atenciosa.
Agrada-lhe ainda a perspectiva de jantar fora, num restaurante de
luxo, como é hábito desde que se tornaram amantes, e até, lá mais
para a noite, partilhar com um homem a sua cama.
Neste momento, beberricando o seu campari e conversando de coisas
agradáveis (nada de guerras e outros enfadonhos assuntos), ela
quase consegue libertar-se da obssessão pelo homem que continua
sentado na varanda em frente e que, todos os domingos, a ignora e
humilha.
Entretanto, o professor, alheio às aflições e raivas que provoca
na amante do major-geneal, escuta com atenção o relato de futebol
enquanto bebe a cerveja que hoje encerra, no seu travo amargo,
uma ponta de remorso. Remorso que o acompanha desde manhã, quando
a esposa o viu chegar com as duas "médias" que fora comprar ao
quiosque da esquina.
"Não te esqueças dos livros e da roupa para as crianças. Qualquer
dia começam a apanhar faltas", disse ela, fixando
intencionalmente as garrafas de cerveja.
"Está bem. Amanhã trato disso", retorquiu o professor, arrumando
apressadamente as garrafas na geleira vazia.
Aborrece-o, não tanto a implícita censura da esposa mas,
sobretudo, o facto de se ver obrigado a mentir para a sossegar.
Sabe perfeitamente que amanhã não vai ter dinheiro para comprar
os livros escolares e a roupa para os filhos, provavelmente mal
poderá alimentá-los.
Daí este sabor a remorso no travo amargo da cerveja que o
professor vai bebendo devagar, para a fazer render até ao fim do
relato. Embora também não ignore que, sem estas curtas horas de
evasão ao domingo, uma espécie de ritual de que o relato de
futebol e a bebida fazem parte, não poderia suportar a monótona
correria dos seus dias.
Desperta sempre com a sensação de que já está atrasado,
arranja-se a correr e a correr engole a chávena de chá quase
amargo (o açúcar é caro) e o pedaço de pão seco. Fica-lhe sempre
uma vontade aguda de tomar café que muito aprecia, sobretudo de
manhã, mas não pode dar-se a esse luxo. Corre então para a Escola
Secundária onde lecciona. Vai a pé, porque quase não existem
machimbombos na cidade e o preço dos chapas é proibitivo para a
sua bolsa. Chega à Escola transpirado e ciente de que grande
parte das suas energias já foram gastas antes de iniciar o
trabalho.
Sempre gostou de ensinar e é um dos poucos professores de Escola
que seguiu a carreira de docente por vocação. Mas todo o seu
entusiasmo inicial se vem desgastando perante turmas de cinquenta
alunos, amontoados pelas salas, sem um mínimo de condições para
assimilar a matéria. São, na sua maioria, adolescentes que
desprezam o estudo e os próprios professores, sobretudo os que
não aceitam subornos, como ele. E que, por esse motivo, se
apresentam com a roupa puída, os sapatos cambados e até rotos,
comparecendo, todos os dias, ofegantes e suados, por não
possuírem carro próprio nem dinheiro para chapas.
Quando, cerca das 13 horas, as aulas terminam, o professor corre
para casa onde o espera o minguado almoço que mal lhe dá forças
para preparar as aulas, corrigir exercícios e ainda leccionar no
Ensino Nocturno. Finalmente, perto da meia-noite, regressa a
casa, extenuado e amargo e estatela-se na cama como um ébrio,
para no dia seguinte despertar com a eterna sensação de que já
está atrasado. E a corrida recomeça, de manhã à noite, inglória
corrida que mal dá para a família não morrer de fome, estranha
recompensa para tamanho esforço e tantos anos de estudo.
Ah! ultimamente tem havido algumas surpresas. São os familiares,
fugidos da guerra, que encontram abrigo certo em casa do
professor, porquanto este bebeu no leite materno o espírito de
hospitalidade que o leva a acolhe-los e a repartir com eles o
pouco que possui.
A última foragida foi uma tia que, por ser viúva e sem filhos,
vivia na Manhiça, zona intensamente afectada pela guerra, com o
pai, avô materno do professor. O velho devia ter mais de oitenta
anos e recusou-se sempre a abandonar a palhota e o lugar onde se
encontravam sepultados os seus mortos. Com efeito, dir-se-ia até
que, lá do outro mundo, estes o protegiam, porque nos frequentes
ataques da RENAMO àquela região, fora sempre poupado, provocando
mesmo, na população, algumas suspeitas de que se entendia com os
"matchangas".
Um dia, porém, estava ele sentado à porta da palhota, com as
pernas estendidas para as aquecer ao sol, quando surgiu, de
repente, um grupo de "matchangas", munidos de espingardas e
catanas. Um deles, provavelmente o chefe, ordenou-lhe:
- Velho, dá lá qualquer coisa para comer!
O avô que dormitava um pouco, acordou ainda absorto nos seus
sonhos e encarou os homens, sorrindo com a boca desdentada.
- Velho, dá lá qualquer coisa para comer! - exigiu de novo o que
parecia ser o chefe.
Os olhos embaciados do avô mal distinguiam os recém-chegados e
muito menos o seu esgar cruel, as espingardas e catanas; tão
pouco os seus ouvidos alcançaram aquelas palavras ríspidas e
urgentes. Portanto deixou-se estar, sorrindo sempre, mesmo quando
o homem que falava, já irado, rosnou: "Este velho já está-me a
chatear!", depois do que, sacando de uma "experiente" catana, lhe
decepou a cabeça. Esta caiu, direita como um trofeu, de olhos
vítreos e boca escancarada, ao lado do corpo que continuou
encostado à palhota, encharcando-se lentamente de sangue.
Tudo isto observou a tia do professor, por uma fresta da
janelinha de madeira do seu quarto, tudo isto ela observou,
tremendo de medo e indignação, sem poder socorrer o velho pai,
nem sequer gritar.
Os "matchangas" acabaram por entrar na palhota e ela só teve
tempo de fugir pelo quintal e correr para o esconderijo no meio
do mato, onde permaneceu até aqueles partirem. Quando regressou à
palhota encontrou-a completamente saqueada. E, qual lúgubre
sentinela, o velho pai lá estava, o corpo hirto e ensanguentado,
encostado à palhota, a cabeça ao lado, com a boca escancarada,
sorrindo para a eternidade.
Gemendo de aflição, a tia enterrou o velho com as próprias mãos,
debaixo do cajueiro onde repousam os mortos da família. Depois da
solitária cerimónia não descansou um instante e, movida pela dor
e pelo medo, andou sem parar nem distinguir os dias das noites,
até que chegou a Maputo onde, depois de inúmeras vicissitudes e
desesperos, acabou por encontrar o sobrinho. Este acolheu-a
naturalmente, embora já tivesse a casa superlotada de parentes
seus e da mulher, e a tia fosse mais uma boca para alimentar e
mais um corpo a dar guarida.
É assim que a vida do professor não é propriamente vida mas uma
contínua luta para "desenrascar" o sustento da família, com um
mínimo de dignidade. Por isso ouvir o relato de futebol bebendo
cerveja, nas tardes de domingo, constitui para ele o único oásis
de despreocupação, no deserto dos seus agitados dias sem
perspectiva.
Houve tempos em que alguns colegas traziam as suas cervejas e
juntavam-se aqui a ouvir o relato de futebol. Mas a cerveja
tornou-se cada vez mais cara e, um a um, os colegas foram optando
por se reunir em casa de um vendedor clandestino de tontonto,
onde se divertem por menos dinheiro. Desafortunadamente, o
professor não suporta nem o cheiro de tontonto e acabou por ficar
sozinho com a sua cerveja que agora se reduz a duas médias.
A esposa sempre lhe compreendeu a necessidade de evasão nas
tardes de domingo. Porém, à medida que as privações se agudizam,
vai diminuindo também a sua compreensão. E esta manhã, pela
primeira vez, criticou-o tacitamente, lembrando-lhe a compra
urgente de material escolar para os filhos, com os olhos fixos
nas garrafas de cerveja que ele precipitadamente arrumava na
geleira. E agora, também pela primeira vez, aproveitando a
ausência de toda a família que ao domingo à tarde se sente na
obrigação de dar um passeio, a mulher invade-lhe o espaço sagrado
da varanda e, postando-se à sua frente, reclama os livros e a
roupa para as crianças e até a roupa para si própria ela reclama,
o que aliás é compreensível, dado que possui apenas dois vestidos
desbotados.
. "Mas, aqui não, por favor, agora não", roga o professor dentro
de si, embora permaneça silencioso, tentando ouvir o relato por
entre as reclamações da mulher. "Passe em profundidade de
Chiquinho" ... "As sapatilhas já estão completamente rotas"...
"Pontapé de baliza pertencente à equipa do"... "Qualquer dia
chumbam por não terem material"... "Goolo, goolo, goolo de" ...
Sinceramente até sinto vergolha de sair à rua" ... "Avança, faz o
cruzamento e oferece o golo a ...".
Já não é possível seguir o relato porque a mulher, cuja paciência
parece ter alcançado o ponto de rotura, entrou agora num estado
de frenesim e grita sem parar, abafando completamente a voz do
relator.
Lentamente, muito lentamente como quem se move numa outra
dimensão, o professor levanta-se da cadeira e dirigindo-se à
mulher que o fita preplexa, com ambas as mãos apodera-se-lhe da
garganta que vai apertando, apertando, até que ela deixa de
estrebuchar e, escorregando, acaba por cair, inerte, no chão.
Assim a deixa o marido que se instala de novo na cadeira de napa,
ouvindo o relato até ao fim e beberricando a cerveja até à última
gota. Só então parece dar pela esposa, estatelada no chão e, ao
aproximar-se dela, vê o seu próprio espanto reflectido na
expressão incrédula e magoada do rosto da morta. Com gestos de
autómato ergue-a do chão e leva-a nos braços para o quarto onde a
estende, com infinito cuidado, na desconjuntada cama de casal.
Um pouco mais tarde, já na esquadra da polícia, dirige-se ao
agente de serviço e confessa, num murmúrio:
- Venho entregar-me. Matei a minha mulher.
- Matou a sua mulher? - pergunta o polícia, atónito, pois não
consegue relacionar aquele homem de aspecto tão pacífico com um
crime de morte.
- Sim, matei - murmura de novo, o professor.
- E porquê? Qual foi o móbil do crime? - insiste o polícia, num
tom já mais profissional mas ainda incrédulo.
- Não sei. Acabo de a matar.
- Não sabe? Então acaba de matar a sua mulher e não...
- Não sei... talvez porque eu próprio já não consigo viver -
responde o professor, tirando do bolso um velho lenço, com o qual
tenta ocultar as lágrimas que, teimosamente, lhe brotam dos
olhos.
GLOSSÁRIO
APIYAMWENE - Mulher mais respeitada pela comunidade, espécie de
conselheira.
BAGIA - Pastel de farinha de grão ou feijão nhemba com cebolinha,
malagueta, e temperos.
BUNDA - Nádegas avantajadas.
CANTINEIRO - Proprietário de lojas rurais.
CHAMUÇA - Pastel de massa tenra e recheio de carne, camarão,
peixe ou vegetais e temperos
CHAPA - Transporte semi-colectivo muito usado em Moçambique.
CHIGUINHA - Prato típico do sul de Moçambique confeccionado com
mandioca, feijão nhemba, cacana e leite de amendoim.
CH1MA - Farinha de milho ou mandioca cozida com água e sal.
CONTINUADOR - Termo utilizado pela Frelimo para designar crianças
e adolescentes.
CULIMAR - Cultivar a terra.
FEIJÃO NHEMBA - Variedade de feijão, de vagem longa, muito
cultivado em Moçambique.
KHULO - Irmã mais velha da mãe.
LANDEVA - Mulher natural da província de Maputo.
MACALA - Fruta silvestre existente em todo o território
Moçambicano.
MACUTE - Folhas de palmeira secas muito utilizadas para a
cobertura de palhotas.
MATABICHO - Primeira refeição do dia.
MATAPA - Folhas de certas plantas cozinhadas com coco ou
amendoim.
MATCHANGA - Termo muito utilizado pelo povo para designar bandido
armado.
MICUNE - Lençol feito de capulana.
MUCATE - Bolo de farinha de arroz, leite de coco, açúcar e
especiarias.
SURA - Líquido que brota do tronco de certas espécies de
palmeira.
TORRITORI - Doce de amendoim ou gergelim torrado com açúcar em
caramelo.
XIRICO - Rádio portátil, muito popular em Moçambique.
LILIA Maria Clara Carrière MOMPLÉ, nasceu a 19 de
Março de 1935, na Ilha de Moçambique. Fez o ensino secundário na
então Lourenço Marques. Devido às altas classificações obtidas ,
pôde conseguir a ida para Portugal para prosseguir os estudos,
requentou o 2° ano de Filologia Germânica e licenciou-se em
Serviço Social no Instituto Superior do Serviço Social de Lisboa.
Depois de, em 1964, viver algum tempo em Londres, voltou, em
1965, a Moçambique. De 1968 a 1971, viveu com seu marido, em S.
Paulo e Baía, Brasil. Regressada a Moçambique volta à Ilha até
1981 em que, ingressando na Secretaria de Estado da Cultura, veio
para Maputo. Actualmente é Directora do Fundo para o
Desenvolvimento Artístico e Cultural de Moçambique e Presidente
da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores
Moçambicanos, de que anteriormente foi Secretária-Geral Adjunta e
Membro do Conselho Fiscal. É membro do Núcleo de Formação do
Conselho Coordenador dos Escritores da África Austral (Southern
African Writers Council). Em 1994 participou no Workshop de
Escritores integrado na Feira Internacional do Livro do Zimbabwe,
proferindo duas palestras. Em 1997 foi seleccionada, junto com 35
escritores de todo o mundo, para participar no International
Wríting Program, na Universidade de Yowa, nos Estados Unidos.
Ganhou o 1º Prémio de Novelística no Concurso Literário do
Centenário da cidade de Maputo, com o conto "Caniço". "Ninguém
matou Suhura", contos, foi o seu primeiro livro, 1988, a que se
seguiu o romance "Neighbours", 1995. Tanto estes dois livros como
este agora publicado, são sempre inspirados na vida quotidiana de
Moçambique desde o tempo colonial até à actual. "Ninguém matou
Suhura", encontra-se traduzido em italiano pela ETS e em inglês
pelo Congresso dos Escritores Sul-Africanos.
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