
Ilustração: Isaievych |
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Um minuto de palavras
Posso falar um minuto com você?
Sim.
O seu poema me tocou.
São apenas palavras.
Palavras são poderosas.
Não essas.
Sou eu que julgo nesse caso.
Também eu, que as escrevi.
Acaso não foram sinceras?
Foram.
Então têm seu valor!
Todas têm. Afinal, é com elas que movemos a vida.
A nossa, pelo menos.
A dos outros também.
É.
Principalmente a dos outros.
E nem percebemos.
Não num poema.
Não?
Num poema a vida escapa pelos dedos.
Assim, mansamente?
Sempre em desespero.
Foi como escreveu esse poema?
Foi.
Então deve ter doído.
Ainda está doendo.
Devia ser um prazer.
É uma hemorragia.
E como se estanca?
Se alguém o lê. A leitura é uma ferida.
Feridas novas pra esquecermos as antigas.
Não há outra maneira. O risco é que justifica a aposta.
Mesmo se vencemos?
Nunca vencemos. Somos colecionadores de perdas.
Se perdemos com alguém já é um consolo.
É o que diz o poema.
Agora vou querer um poema todos os dias.
Só posso dar esse. Amanhã, não sei.
Nunca sabemos.
Tentarei.
É um risco.
Como as palavras.
Basta usar as certas.
O mal é que quase sempre usamos as erradas.
Ou as que não dizem o que devíamos dizer.
É comum usarmos outras pra dizer as óbvias que o nosso coração
espera.
Melhor seria dizer as óbvias.
Como “eu te amo”, por exemplo.
Sim.
Essas às vezes não dizem nada.
Ou não dizem o que de fato se sente.
Não.
Por isso gostei do seu poema.
Me alegra que o tenha apreciado.
Há palavras nele ocupando o lugar de outras, mais simples.
Aquelas que eu ainda não tenho coragem de dizer.
Chegará o tempo de dizê-las.
Ou não chegará.
É o que veremos.
Veremos.
Já usamos aqui muitas palavras pra não dizer nada.
Só sabemos empregá-las desse jeito.
É o que me basta.
Não me parece de muita utilidade o que digo.
Sou eu quem julgo, já disse.
Espero não aborrecê-la com esse assunto.
Você não me aborrece.
Outro homem saberia usar aqui as palavras certas.
Fosse você outro homem, seria outra mulher que estaria à sua
frente.
Agora é você quem fez poesia pra mim.
Não sabia que nascia assim, a poesia.
Assim como?
Do que a gente fala antes que ela venha.
Ela vem mais facilmente quando silenciamos.
Então por que a fazemos?
Pra lembrar.
Lembrar o quê?
Que estamos vivos.
Seria melhor esquecer.
Impossível. Aí estão as palavras pra nos lembrar.
JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA é autor das coletâneas de contos “O
vaso Azul”, “Duas tardes” e “Dias raros”, entre outras.
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