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Story Ass e outros
contos
O ANÃO BULÍMICO
um (é pouco)
Adolfo tem um metro e pouco e as circunvoluções de seu
espírito-víscera mezzo porco, mezzo louco: Adolfo rouba, estupra
e mata, mas seu maior pecado é mesmo o estômago ectoplásmico. Em
boníssino javanês, Adolfo vomita tudo o que come. Não tudo, mas
quase tudo.
Invade apartamentos luxuosos e ao chão obriga seus luxuosos
moradores. Arma em riste e pau na mão: Deita aí, madama. A madame
madama deita, revólver no ouvido e o anão já nela. O anão se
esbalda, mete e goza, feliz de todo. Posto, e bota posto nisso,
põe-se em pé, guincha e mata o resto. É tudo um esporro só e a
geladeiraberta ali do lado. Come o que vê e o que escuta. TUDO.
Atravessa a sala se desviando dos corpos e ganha a privada, "lar"
digníssimo: põe pra fora os tubos, lava rosto e mãos e adeus. O
anão bulímico é o flagelo de deus.
Adolfo tem um cão chamado Canis e uma mãe de nome Lívia. Dona
Lívia grita o tempo todo e Adolfo grita de volta. O cão cachorro
Canis late blate glate, e todos juntos vão pra cama - a mesma -
roucos, loucos, poucos. Adolfo nunca se lembra de roubar uma
televisão.
Adolfo nunca foi preso, mas se apaixonou pela filha do
jornaleiro. Gorda, opaca e pobre, saíram juntos umas vezes. Ao
teatro, ao cinema, ao shopping. Era crente e se fez de boba.
Adolfo-bode fez e depois matou. Uma vala atrás do ponto, ônibus
passam até hoje e nada; o mato cresce com o bom adubo.
dois (é tudo)
Adolfo com medo do escuro abraça a mãe anã. O cão Canis,
cachorro!, morde Adolfo no nariz. O anão bulímico berra, Dona
Lívia berra de volta. Adolfo apalpa o criado, mudo de dor, e acha
a arma. O cachorro Canis, canino, chora arrependido. O anão, cego
pelo sangue, dispara a arma, mas a bala não acha Canis. Dona
Lívia explode, e é a cabeça anã da mãe quem o quarto colore,
lençois e tudo, paredes - acho que o mundo.
três (agora nada)
Adolfo sentado à mesa comendo tudo. Arma do lado, Canis no chão.
Consola-se estourando estômago, esôfago, coração. E chora quieto,
escorrendo-se prato adentro. É um tempero estranho essas lágrimas
do anão. Não fedem, não cheiram - só o que são e traduzem é a
enorme fome do anão pela Lívia-anã-mãe explodida naquele maldito
quarto malsão.
Para Adolfo, o anão bulímico, só o que há é escrotidão.
DESDE PEQUENOS NÓS COMEMOS BICHOS
Um assado esplêndido, amanhã, às sete em ponto, não se esqueçam,
estejam lá. Por respeito, chegamos atrasados; por conveniência,
nada estava pronto. Detivemo-nos na sala de estar, quando minha
esposa teve um acesso de riso, seguido por outro, de tosse. Não
me preocupei. Ela andava estranha desde maio de 84, caso minhas
anotações estejam corretas. Os erros me perseguem. Felizmente,
nunca falo do que sei. A empregada, implausivelmente, desejou-nos
uma ótima páscoa. Dez minutos e eles descerão. Os céus.
Perguntamos do banheiro. Está limpo, respondeu. Mas onde,
cretina? Este o nosso lubrificante matrimonial. Desde junho de
87, temos o hábito de trepar em banheiros alheios. Nunca no
nosso, nunca em casa. Quando os amigos viajam e não somos
convidados para nenhum evento, função ou jantar, ficamos meses
sem foder. Minha esposa reclama, tornando inevitável uma passada
no cinema do bairro. Em setembro de 92, transamos durante uma
sessão de Frankie & Johnnie e, ao contrário de Pacino, sempre
fazemos barulho. Muito barulho. O gerente, conhecido nosso, nunca
se importou. Pediu-me, apenas, jamais, por favor, esporre na pia.
Odeio pias. Prefiro banheiras. Em casa, lavamos as louças no
tanque. Não. Perdoem-me. Nunca lavamos as louças. Creio eu. Em
verdade, sequer temos louças em casa. Não me lembro se um dia
tivemos. Talvez as tenhamos quebrado, os sixties foram
decididamente deiformes. No banheiro, tivemos pouco tempo e
alguma vontade. O assado me anuviava as idéias: estava com fome.
Minha esposa, como de hábito, recusou-se a tirar toda a roupa.
Não lhe vejo os seios desde a Guerra das Malvinas. Perdi algumas
anotações. Terminamos rápido. Não obstante eu ter afirmado a
nossa falta de tempo, este nunca nos incomodou. A Argentina se
estrepou naquela guerra. Há males, quem é que vem? À mesa,
conversamos sobre bits & bytes, papozinho binário calcado na
suposta democracia internética, e também sobre violetas, a
pertinência de se ter bina telefônica, sobre como o assado estava
bom, dores de dente que só vêm à noite, a seleção senegalesa de
pólo aquático, a melhor marca de cloro para piscinas, cores de
azulejo para a cozinha que um conhecido iria reformar, a alma
humana, Deus, ateísmo, coelhos são animais porcos, suicídio,
problemas de pressão arterial e ovos de tartaruga cozidos.
Estivemos muitíssimo bem servidos. Eu e minha esposa demos outra
ida ao banheiro entre a sobremesa e o cafezinho. Sexo oral, ela
em mim, eu sentia dores nas costas, as quais vinham se acentuando
desde a semana santa de 78. Fomos embora e nos despedimos apenas
dos empregados. Em casa, rimos escandalosamente ao recordar que
aquele assado um dia teve penas. E pernas.
STORY ASS
prólogo
A esquina lá. A esquina me esperando como sempre. Eu odeio a
esquina. Eu odeio o sempre. Uma bunda vadiando na esquina. A
bunda dobra e esquina. A esquina dobrada me vomita. A bunda segue
seguindo. Eu sigo a bunda. A bunda não segue a gravidade,
grandimensa e dura bunda. Outra esquina, uma rua pra atravessar.
Eu alcanço a bunda e pergunto que horas são:
- Que horas são?
A bunda responde oito e dez:
- Oito e dez.
A bunda se chama Márcia e faz publicidade. Uma bunda cheia de
jingles e sacadas brilhantes. Uma bunda educada. Ando com a bunda
por seis quarteirões. Trocamos telefones. Prazer, tchau.
Igualmente, tchau.
.
I
O telefone berra. É a bunda. Desculpa tá te ligando assim, sem
mais o quê. Não, tá tudo bem. É que eu gostei de você, sabe? Eu
também gostei de você. Quero te ver. Vem aqui. A bunda chega
vinte e três minutos depois. Lá está ela, atrás da porta e do
sorriso de Márcia - a bunda. Uma bunda educada, diz com licença e
entra. Tomamos cerveja escura e ouvimos britpop. Uma bunda culta:
leu Camus, leu o velho Fiódor, leu uma pá de coisas boas que
bundas geralmente não se dão ao trabalho de ler. Não demora muito
e eu beijo a bunda. E noto que a bunda tem seios. E boca, pernas,
vulva. Trepamos e dormimos, eu e a bunda.
.
II
Nove dias depois, a bunda diz que me ama. Você tá comigo pelo que
eu sou? É uma bunda complexada. Uma bunda insegura. E uma bunda
emotiva: chora fácil e por tudo. Chora porque goza e chora porque
não goza. Essas coisas. Etc. e tal. E a bunda tem sonhos. Quer
escrever, quer publicar. Quer estudar alemão. Quer perder quatro
quilos. Quer trocar de carro. Quer conhecer a Europa. Quer
aumentar os peitos. E, fato curioso, a bunda quer diminuir a
bunda.
.
epílogo
A bunda e eu temos duas bundinhas: Analice e Anelise. A bunda é
católica e vamos todos juntos à missa matutino-dominical. A bunda
teve depressão quando descobriu, ano passado, que eu a traía com
outra bunda prima dela. Escândalo. Discussões. Ameaças. Caso
encerrado. A bunda católica superou os traumas e me perdoou na
semana do Natal. Deus sorriu e disse bem-aventuradas as bundas de
espírito:
- Bem aventuradas as bundas de espírito.
ANDRÉ LEONES,
nascido em Goiânia-GO em 19 de janeiro de 1980. Criou e mantém
www.canissapiens.blogspot.com e
www.incontinenciapoetica.blogspot.com.
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