Prudente

Prudente esqueceu as chaves de casa no bar, mas esqueceu também que não precisava mais delas para entrar. Então, resolveu deixá-las quietas onde estavam, perto do pratinho com amendoins e esperar que Justiça as encontrasse e pendurasse no hall of fame do Tulipa, numa homenagem póstuma ao seu freqüentador mais ilustre, tragado não pela concorrência, e sim pela cirrose - uma honra às avessas para a comerciante.

Justiça de fato encontrou as chaves e fez jus a seu nome. Reconheceu de longe o chaveiro com os guizos que renderam a Prudente o apelido de Bezerrinho. Suspirou e passou o pano úmido no balcão, limpando as cascas de amendoim.

Prudente ainda não aprendeu muito bem a atravessar paredes. Assim, foram necessárias algumas tentativas mal-sucedidas antes de, por fim, conseguir entrar na casa que um dia foi sua e testemunhar desafetos prestando condolências à sua esposa. Relicária parecia especialmente fatigada, como se os dias entre hospitais, velório e enterro tivessem aprofundado as rugas em seu rosto. E realmente tornaram sua aparência pesada, onde antes só havia marcas discretas de preocupação. Prudente quis agradecer-lhe os anos de paciência. De nada adiantaria. Afinal, Relicária não poderia ouvi-lo. Agradeceu em espírito.

Subiu as escadas para os quartos. O filho ouvia música clássica e deixava uma lágrima escorrer pelo canto do olho. A filha fazia amor com o namorado, emaranhados debaixo dos lençóis, como se o pano fosse esconder alguma coisa dos olhos paternos, que vêem tudo. Prudente sentiu vergonha e achou melhor deixá-los a sós, mesmo que ainda pudesse ouvir seus suspiros. Foi juntar-se a Carisma no outro quarto, sentando-se na poltrona que o garoto nunca o deixara usar em vida.

Prudente sentiu um prazer indescritível em quebrar regras.

O guri ouvia Mahler. Porra, garoto, depois de anos te entupindo de pagode! Prudente tentou compreender a beleza que Carisma ouvia naquela música sem letra. Entendeu que pessoas utilizam códigos diferentes, mesmo que partilhem de sangue comum. E não há nada a fazer, ainda que o sangue seja forte.

Prudente concentrou-se para estar em vários lugares ao mesmo tempo e assim viu Relicária despedir-se comovida de seus inimigos e Júlia jogar a camisinha no lixo. Deu-se conta de que os fantasmas ali eram eles, os familiares. Estavam por demais superando sua ausência. Prudente é quem tinha dificuldade em dizer adeus; é quem ainda sentia sede de cerveja, mulatas e pagode.

Prudente saltou da janela e caminhou de volta ao Tulipa, doido doido para sentir cheiro de orvalho outra vez. De mansinho tirou o molho de chaves que Justiça pendurou na parede, e ela fingiu não ouvir os guizos tocarem, lá vai o Bezerrinho...

O Bezerrinho ainda passou em casa para deixar as chaves debaixo do capacho, caso precisasse futuramente, e foi parar em frente a seu jazigo só com a força do pensamento. Anotou mentalmente o número da gaveta e já sabia que bicho ia dar no dia seguinte.

ANA BEATRIZ GUERRA
é jornalista. Publicou recentemente um conto na coletânea Prosas cariocas: uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra). Colabora com as revistas Patife e Paralelos.