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Pesadelo
Deitara calmo e assim se mantivera até quebrar o silêncio do
quarto com um grito. Acordara assustado. A manta que até então o
agasalhava estava recolhida num canto. Descoberto no escuro
experimentava a plenitude do vazio e da solidão. O pesadelo que o
trouxera repartira sua noite ao meio. O sono já não seria mais
completo. Virou-se para o lado que imaginava estar o interruptor.
Como carinho que teme um corpo estranho, levou vagarosamente a
mão, mas o interruptor não estava lá. Girava em si na cama e já
não sabia qual o lado estava a sua direita ou a sua esquerda. Seu
pânico tornara-se maior quando não reconhecera as peças da cama
que a mão tocava. Procurou por uma parede, mas nada. Quando
encontrou o beiral, esticou a mão de encontro ao solo, mas não
alcançou nada. Apoiou-se com o peito até onde seu temor permitia,
mas inúteis foram os meros centímetros do seu braço para notar
com os dedos outras formas de vida. O pesadelo parecia que não
desejava ter fim. Rodopiou-se para todos os lados. Não sabia qual
era a cabeceira ou os pés da cama. Estava solto, perdido, jogado
sobre algo maior. O corpo todo lhe doía. As mãos transpiravam. Os
olhos insistiam em ver outras cores que não o opaco-nada do
escuro. Sequer conseguia lembrar o motivo do despertar.
Esforçava-se para manter-se calmo. O homem que mantém o controle
sobre si, tem consciência da cadeia que é o seu corpo. É inútil
toda forma de rebelião. Remotamente lembrava-se que sonhara com
algo que ainda o atormentava, mas o quê? Estava acordado e tinha
consciência disso. Mas existia um novo tormento. Queria levantar,
mas como saber o que encontraria no chão. Será que encontraria o
próprio chão? Uma vontade de gritar partiu-lhe de dentro, mas o
silêncio excessivo aliado à escuridão lhe causava medo. Tinha
certeza de que uma mão taparia-lhe a boca. E emudeceu não somente
o seu desespero, mas a única forma de mostrar-se vivo. Virou
sobre o pescoço seu pensamento, como se este fosse o único eixo
ainda lubrificado. Piscaram os olhos uma, duas, três vezes
seguidas. A escuridão era a mesma. Pairava no ar um zunido
distante, longe, como se o motor que o acordara ainda estivesse
ligado. Pesadelos são movidos por motores contrários aos sonhos,
por isso as correias que os prendem aos homens são maiores e mais
doloridas. Respirava ofegante. Suas roupas estavam encharcadas
por todo o corpo. Pontuou seu olhar num horizonte imaginário e
conduziu-se até ele. Suas mãos tateavam lugar nenhum, mas o braço
lhe doía como se deslocasse pedra e madeira velha. Tal qual
maestro pincelava notas e compassos no escuro absurdo que
experimentava. Pena que tanto breu para sempre ocultaria a
trágica melodia humana que suas mãos compunham. Parou no que
imaginou ser o centro da cama. Girou novamente a cabeça pelo eixo
do pescoço. E no girar, libertou restos de desespero que ainda se
prendiam em suas entranhas. E mesmo temendo uma mão imaginária
tapando-lhe a boca, recomeçou a chorar. Primeiro o choro veio em
solavancos tímidos, como se quisesse reconhecer pelo lado de fora
o autor que o alimentava por dentro. Lentamente o choro ganhou
força e igual queda que supera todos os tamanhos de pedra,
despejou-se no nada um pouco de tudo. Toda solidão é coletiva. E
como nenhuma mão o calasse, ou mesmo o acalentasse, deixou vazar
para além daquela cama sua existência. Sequer imaginou que tanto
desespero pudesse tocar um corpo que já não estava ao alcance dos
braços. Compulsivamente chorou pelo pesadelo tido. E chorou tanto
que todo corpo não se importou com nada. E no meio de tanta
escuridão, não era preciso sequer fechar os olhos. Queria
abraçar, mas não sabia o quê? Queria se proteger, mas não sabia
do quê? Queria compreender, mas não entendia o quê? Procurou
inutilmente mais uma vez o interruptor. Queria acender uma luz,
por mínima que ela fosse. Queria mesmo era voltar a tocar algo.
Fazer valer ao resto do corpo, que igual à manta também se
recolhia, que suas mãos ainda teriam algum sentido. Mas sua
cabeça apenas ficava a girar, girar, girar... Girava sobre o
único eixo funcional. Aos poucos, quando findasse o tempo do
choro, talvez voltasse a ter consciência sobre o que era e o quê
o havia despertado. E quando voltasse a ter controle sobre os
sentidos, talvez percebesse que o pesadelo apenas dividira sua
noite ao meio e somente metade do seu pânico havia sido superada.
Restaria-lhe então uma segunda parte.
Conto que foi classificado em 5º lugar na categoria estadual no
Concurso Literário Ribeirão das Letras, ocorrido em Ribeirão
Preto (SP).
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