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Partidas
Ele está no meio de uma decisiva partida de xadrez; ela, cobrindo
o evento para um documentário.
No primeiro momento em que ele se distrai do tabuleiro, seus
olhos se encontram. Por instantes, ele se esquece do jogo. Ela,
do filme. O oponente dele executa um lance. O contador do relógio
começa a subtrair seu tempo de jogada, mas ele nem percebe. Ela é
solicitada para ir à outra sala colher um depoimento, mas ignora
o pedido. Se observam, fascinados.
****
Finalmente, ele percebe que precisa jogar, talvez pela tensão que
fica no ar, ou pela sutil pressão dos árbitros. Analisa as
posições das peças, movimenta seu cavalo, aperta seu contador.
Ela lhe dá um pequeno sorriso, satisfeita com o lance escolhido.
Conhece um pouco de xadrez, sabe que ele fez uma boa jogada.
A partida continua. Ele movimenta as peças pretas com
agressividade e perfeição. À cada passo, aguarda dela um sinal de
aprovação.
Observando sua estratégia, ela vai tentando desvendá-lo:
estrangeiro, inteligente, impetuoso. Por causa do silêncio,
necessário ao jogo, ainda não conhece sua voz. O vê sério,
compenetrado, com o rosto desanuviado somente quando a olha.
"Ela trabalha com cinema", ele pensa. "Uma vida sem rotinas,
sempre em movimento, em contato com diversas pessoas, uma
contadora de histórias. O que ela pode ver de interessante em um
jogador de xadrez?"
"Ele é lindo, vive viajando pelo mundo. O que pode ele querer com
uma cineasta ainda amadora?", ela se pergunta.
****
A decisão do torneio se prolonga, tensa. De vez em quando o seu
oponente se levanta, para descansar. Ele também aproveita para
esticar as pernas, andar, estudar os lances dos outros
competidores. Tudo o que puder fazer perto dela, ou que facilite
olhá-la. Até mesmo beber café, coisa que detesta.
Os quatro minutos finais de seu oponente se aproximam. Já O seu
contador ainda possui bons minutos de vantagem.
Ele se concentra nos movimentos das peças. Arrisca uma estratégia
ousada, e a busca com olhar para comemorar o feito, mas ela não
está lá. Seu impulso é levantar e procurá-la, mas é novamente sua
vez de jogar. Executa então seu lance, triste. Nem se lembra de
usar de algum estratagema, nada. Só quer sair logo dali, e
encontrá-la.
Concentrado, enquanto aguarda seu oponente movimentar sua peça,
sente seu coração desapertar. Sem levantar os olhos, sabe, sente
que ela está de volta. Tem medo de procurá-la com o olhar, e
descobrir que se enganou. Resolve arriscar, e então a vê,
conversando com um colega de equipe. Sem dizer nada, ela lhe pede
desculpas pela falta. Ele sorri de volta, e a perdoa.
****
Os segundos se tornam cada vez mais elásticos, parece que a
partida não terá fim. Ele enfim acua seu oponente, que não tem
nenhuma alternativa a não ser cumprimentá-lo e reconhecer sua
vitória. Os juízes são chamados. Ela o vê refazer todas as
possíveis jogadas com extrema agilidade. O outro jogador ainda
tenta argumentar, sem sucesso. Após mais alguns movimentos, ele é
oficialmente o vencedor. Feliz, a procura, mas mais uma vez não a
vê, e nem a sua equipe. Ela não está em lugar nenhum. Seus amigos
o chamam, ele é o grande vencedor do torneio, precisa receber e
agradecer suas honras. Mas não
está feliz.
****
Ela está no elevador, procurando, em frente ao espelho, ficar
mais bonita para ele enquanto pragueja contra o técnico de som
que teve problemas com o equipamento. "A partida já deve estar
acabando", ela pensa. "Preciso voltar, e rápido".
Mal as portas do elevador se abrem, ela corre até o salão
principal, onde agora só encontra o pessoal da limpeza e os
árbitros. Na mesa onde ele jogava, o tabuleiro completo, com o
rei preto ao centro. "Ele venceu", ela conclui, correndo de volta
para o elevador, que desce.
Pelo outro elevador, ele desce com suas malas e amigos, pensando
se talvez todo o sentimento experimentado hoje tenha sido obra de
sua imaginação. Que ela nunca o quis. Ele chega à recepção do
hotel para acertar sua estadia, mas ainda com esperanças de
encontrá-la. Não a vê. "Eu venci, mas a perdi".
O elevador pára no terceiro andar. Outros jogadores, alegres,
enchem o elevador com malas e risadas, alheios ao que se passa no
coração dela. Ela finalmente chega ao térreo, e não o vê. Checa
com a recepção, e ele já se foi. Triste, pensa que deve ter mesmo
imaginado tudo.
****
O carro onde ele está acomodado vai partir. Ele segura sua
reluzente medalha na mão, triste demais para sequer ter vontade
de olhar o hotel pela última vez. Se o tivesse feito, a veria
saindo, desolada, segundos antes do carro arrancar. Ela
reencontra sua equipe, e vai embora.
Andar da cobertura. Os organizadores recolhem os tabuleiros e as
peças que foram utilizadas à pouco. Para surpresa de um dos
árbitros, falta uma peça no tabuleiro utilizado pelo enxadrista
vencedor: o rei preto. O rei perdedor.
FIM
ALEKSANDRA PEREIRA naceu em Santos, em 16 de setembro de
1977, cursou a faculdade de Publicidade e Propaganda (Cásper
Líbero), além de ser escritora e roteirista para cinema e
televisão.
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