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Chocolate
Estavam lá! Horas, dias, semanas se passavam e eles continuavam
lá! Entrincheirados! Devidamente camuflados, esperavam a ordem do
comandante Vierbach para atacar a tropa inimiga. Tensos,
entreolhavam-se. Havia meses que não saíam dali. Mas aquele dia
era diferente: os tiros cobriam-lhe as cabeças como se o céu lhes
estivesse cuspindo fogo. O medo e a ânsia faziam os soldados
esquecerem o frio, a fome e o passado: nada mais havia! Apenas o
sangue e a destruição, o ódio e a ambição, brindados com o
perfume da morte.
- Hans!? Que dia é hoje?
- Seis de junho, Markus.
Ao som das balas, os primos Hans e Markus, soldados do 3º
batalhão da infantaria nazista, recrutados aos vinte anos de
idade, mantinham seu companheirismo de infância. Cresceram juntos
e se amavam como irmãos. Não tinham muitos objetivos na vida e
seus ideais políticos nem eram tão fortes assim, mas tiveram que
servir o exército do terceiro Reich e esta era a realidade.
Nunca puderam optar muito em suas vidas. Hans ajudava o pai numa
oficina mecânica, em Dresden. Markus estudava música, na mesma
cidade. Eram pobres e sabiam que só seu árduo suor poderia
proporcionar o brilho metálico e vil aos bolsos sedentos e
humanos. Não pensavam muito em tudo o que lhes rodeava nem davam
a real importância aos pequenos detalhes que lhes faziam felizes.
Mas na guerra era diferente: Markus lembrava do seu violino, das
meias que sua mãe guardava com carinho em suas gavetas e do jeito
de seu pai deitar no sofá após as refeições. Hans queria, ao
menos mais uma vez, tocar os belos seios de sua amada Anna,
sentir o perfume das fréseas no lago e ter os pés cobertos por
sua mãe, como na infância.
Sabe-se lá quem dirige esta máquina louca do destino, só se sabe
que ela fez escala no inferno e deixou os primos lá, para uma
viagem sem volta. Estavam no exército alemão e, quisessem ou não,
deviam se adaptar às regras, à política e à luta.
- O comandante Vierbach foi atingido! O comandante Vierbach foi
atingido!
- Você está bem Markus?
- Sim.
- Como vai a perna?
- Ainda dói.
- Continue abaixado. Não saia da trincheira. Trarei-lhe água.
Hans correu até o centro da trincheira, esquivando-se de centenas
de corpos que lhe atravancavam o caminho. Fora buscar morfina
para o primo que havia sido atingido na perna. Tinha pressa: Hans
sabia que Markus não agüentaria a batalha. Era frágil. Hans
sentia o primo esvair-se como a brisa na manhã e o sol, que antes
lhe dera força e inspiração para tocar seu violino, amanhã
estaria putrificando seu cadáver pálido. Corria: Hans corria.
As balas e os gritos formavam a ópera de Thanatos e o vermelho se
espalhava pela praia como se o sangue brotasse da areia ou
escorresse pela pele úmida do planeta. Hans, ao longe, ainda pôde
ver o corpo de Markus ser levado por dois soldados à enfermaria,
mas nada conseguiria fazer. Não podia evitar que Markus fosse
embora.
De volta à trincheira, Hans apenas observava sua tropa diminuir:
um por um, os soldados nazistas iam caindo, como sementes que
voltam à terra. No comando do general Dwight D. Eisenhower, as
tropas do Eixo avançavam sobre as areias da Normandia. Mas Hans
sentou: estava cansado por aquele dia. Na verdade, estava cansado
de tudo, porém, ainda tinha sede de vida. Queria ver seu pai,
abraçar sua mãe e amar Anna, dentre tantas outras coisas. Mas não
sairia dali. Ficaria sentado. Afinal, ninguém lhe mataria se não
fizesse nada! Jogou a arma longe, mas as balas e os gritos não
cessavam. Resolveu olhar sobre os morros da trincheira, percebeu
os inimigos tão próximos que até podia sentir o cheiro da ira e o
gosto de seu próprio sangue na boca.
Sentou-se novamente. Entre os mortos, Hans chorava. A vida era um
filme em sua cabeça. Hans olhou para Gerard, um soldado de
Munique que conhecera no campo, agora inerte e teso, com uma bala
entre os olhos, e notou que algo fazia volume em seu bolso.
Aproximou-se e achou um tablete de chocolate. Um simples e
insignificante chocolate. Hans sentou do lado do corpo de seu
amigo e notou-se rodeado de soldados que, impávidos, lhe
apontavam as armas e lhe gritavam ordens em francês e inglês. Mas
se Hans não os entendia, eles menos ainda. Com os olhos fechados,
Hans deliciava-se com o pequeno chocolate, o qual o fazia lembrar
dos doces que sua avó trazia para ele e Markus nas tardes de
domingo em que brincavam na varanda. As armas não lhe
significavam mais. Nada importava, nem mesmo a morte. Os gritos e
as balas não mais ruíam seu pensamento. Estava liberto. Aquele
chocolate era a vida! Não entendeu o porquê de tanto significado
em um medíocre doce. E foi a última coisa que não entendeu e o
último gosto que sentiu: fora executado com oito tiros, ali
mesmo, na trincheira. Mas nada disso importa, Hans já havia
entendido tudo.
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