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No mínimo
Domingo de sol. Estrada de terra e a gente tagarelando sobre quem seria
o homem misterioso que criou um centro de estudos de filosofia à moda
clássica. Peripatéticos, em plenos dois mil e uns?
Os CDs caíram no chão e sem parar de falar, e sem parar de ouvir, e sem
parar de pensar e sem parar de dirigir a estrada fez a curva e... eu não
fiz !
Assim soube que as pedras não precisam ficar no meio do caminho se é
para ser motivo de topada. Ali mesmo no acostamento, aquela formada há
milhões de anos e do tamanho de um bezerro, deu seu recado. Para não
perder a direção nesse triz de segundo, peguei firme no volante e
consegui, assim sem ensaiar, quebrar o osso mais fininho do dedo mínimo.
O coração pulou com o barulhão da lataria raspando na rocha, o dedo
ficou caidinho... num instinto, estalei e ele voltou para o lugar
debaixo de uma mancha roxa. Já que o carro continuava andando,
terminamos de subir a montanha em silêncio. Conclusão não se deve falar
um isso de ninguém! (claro, a frase é acompanhada pelo gesto antigo que
une a unha do dedão a polpa do dedinho da mesma mão.)
Um isso é o que esse osso nasceu para ser, mas ao longo das três longas
semanas seguintes ele provou a que veio e a missão era grande. Com uma
tala para alinhar as falanges e mão direita praticamente sem apoio, tive
de rever cada gesto, cada movimento. Para compensar a inteireza do
mínimo os ombros ficavam contraídos, as costas tortas. Digitar foi uma
saga, nos primeiros dias achei que os outros quatro dedos poderiam
apenas funcionar, esqueci que tudo está interligado, cada tendão e cada
pensamento, cada pontada de dor e cada resquício de uma paixão recém
desfeita.
Na verdade, o machucado tinha acontecido antes. Como um gato que
despenca em câmera lenta de um galho alto, um delírio de amor tinha sido
desfeito poucos dias antes. A história tinha ares de novidade.
Contrariando a época, não tiramos a roupa e só tempos depois fomos ver a
cor da alma um do outro. Fomos sim, como nem na adolescência aconteceu,
namorando no portão. Muito cinema de mão dada, uma festa dançando a
milímetros de distância preenchida com uma química perfumada. Conheci
primeiro o tum-tum do coração amado, quando adormeci no cinema com a
cabeça encostada no peito dele. Fomos apenas sentindo que a nossa
presença era muito, muito confortável. Um sofá de oito lugares, eu
dizia. Com puf, ele completava.
Não tenho furadeira em casa e pouco talento para brique-à-braques.
Troquei com ele a instalação de uma prateleira por um jantar. E nessa
coisa tão trivial coube uma miragem. Furos feitos, jantar servido,
chirimoia alegre de sobremesa (um manjar peruano com fruta do conde,
mel, laranja...), fui para o sofá terminar meu vinho, ele deitou no meu
colo. Uma delícia trespassar os dedos pelos cabelos macios e finos de
Vicente. Ah, esse é o nome dele é bom que até você saiba antes que role
mais intimidade. Entrou na minha vida por que tínhamos um plano em
comum, ter um filho. Uma amiga, que soube da intenção dos dois em datas
e lugares diferentes, tratou de nos aproximar. Alguns encontros em grupo
e enfim, em uma noite de muito quem-vai-ninguém-foi, ficamos a sós,
embalados pela melancolia mexicana de Lila Downs. Em seu abraço gostoso
ele me tirou do teatro e fomos tomar sopa e vinho num lugar desses que
pode existir em qualquer cidade. Enquanto o vermelho-e-verde dos faróis
ficava fazendo um reflexo no vidro fosco atrás dele, eu ia ouvindo a
história:
- Tenho Saturno na casa 5 e o astrólogo já avisou que é por isso que
todos os meus cachorros morrem. Vou ter dificuldade para ter filhos, mas
queria tanto dar esse sentido na vida, ver meu rosto num outro menor,
poder criar algo que faça diferença. E você sempre quis ter filhos?
- Não, só percebi isso quando soube que meu ex-marido era estéril e não
estava nem um pouco interessado no assunto, embora sonhasse todas as
noites que fazia o parto de um menino e que se misturava com seu sangue,
sua bolsa, seu cordão. Tanto amor tinha de ter fruto. Mas não teve. Teve
loucura, teve delírio, teve muita dor, apatia, tentativa de suicídio,
ausência, separação, mas fruto não. E eu fiquei na vontade.
- E você pode?
- O médico confirmou que sim.
- Tem de tomar vitaminas, remédios?
Nessa hora, ele bateu a mão no copo e derrubou todo o vinho tinto no meu
colo. Sequei com o guardanapo que parecia o lençol branco estendido na
varanda antiga, dizendo que as núpcias tinham se cumprido. Para mim foi
um recado dionisíaco, um bom presságio. Para ele, atrapalhação total,
agiu como se eu tivesse abortado nosso bebê recém feito na imaginação.
Depois disso, muitos encontros, risadas e conversas longas fizeram com
que a gente chegasse naquele sofá, naquela noite de inverno em que a
casa toda cheirava a ninho.
Fiquei ouvindo ele dizer o quanto a vida tinha mais graça comigo e que
estava aprendendo algo novo: amar de fato uma mulher.
Não esperava aquela conversa e fiquei bem quieta sentindo a respiração
entremear as vírgulas. Em uma pausa fechei os olhos e ele me beijou.
Primeiro meio afoito, depois longamente, entrelaçando a vontade toda
pela pele macia de dentro da boca. Era lua cheia de julho. Os botões
foram se soltando e conheci outras expressões daquele rosto tão possível
de amar. Outros beijos conhecendo a pele, outros cheiros, a tatuagem de
dragão em cima da coxa - homenagem a um homem que ele havia amado muito.
(Você não precisa voltar o parágrafo, o pronome está certo.) E eu sabia
das figuras todas que permeavam aqueles poros e me deixei adivinhar como
uma mulher e como aquela mulher. Para que ele se adivinhasse como um
homem e como aquele homem que tinha compartilhado comigo muita coisa e
muita alma, antes da cama.
Mas naquela noite, depois de nos desmancharmos no tapete, merecíamos
lençóis e caminhos macios por onde nos perdemos. Por um momento
estivemos inteiros, brindando com néctar a alegria do encontro. Tínhamos
dito sim (a nós mesmos e a uma nova vida que talvez tivesse visto aquele
jogo amoroso e quisesse chegar). Como o breve som da sílaba, ele foi
embora no meio da noite, logo amanheceu e com a luz a leveza ficou
insustentável.
Muitos desses amores urbanos, corroídos pela velocidade são asfixiados
com o sol da inversão térmica, da natureza. Em vez de broto, isolamento
e paralisia. Em vez de intimidade, ele "escolheu" bifes e feijão gelado
devorados nas madrugadas dali para frente.Ele não percebeu que tinha
fome de unidade, achou que era só preencher o estômago... Mas
reconheceu, cru, que tinha medo da vida, que ela escorresse em apenas
uma direção.
Resisti em perceber que aquele tecido fino tinha desfiado
irremediavelmente. Me debati dias e dias numa teima cheia de
apaixonamento, imobilidade e esperas. Muitas: que ele conseguisse
habitar aquele corpo, que a menstruação não viesse, que ele ligasse, que
ele viesse, que eu tivesse o direito de estancar a busca. Foi tudo em
câmera lenta... Até que o imprevisto chegou no lugar do esperado e topei
com a tal pedra.
Assim o coração sossegou à força. Bicho machucado, me recolhi para
latejar em paz e fui achando outro ritmo. Logo aprendi a usar o mouse
com a mão esquerda, a limpar a bunda com a mão esquerda, a ensaboar a
axila esquerda com a mão esquerda... Com treino, passei bem pela prova
de passar o fio dental nos dentes do fundo e de ir trocando as respostas
à pergunta:
- O que foi que aconteceu?
É engraçado. Há muitas maneiras de encarar a fragilidade. Tem gente que
fala como criancinha:
- Fez dodói no dedinho ?!! Coitadinha!!
Há os dramáticos:
- O que fizeram com você?
- Fui para Atenas jogar vôlei.
- Caí do galho, macaco gordo, sabe como é ?...
- Atropelei uma pedra do tamanho de um bezerro.
- Estava bem quieta, aí aconteceu...
Dependendo do dia e da qualidade do ouvinte, a resposta era uma. E cada
um tinha uma história para contar: fraturas em todas as partes do corpo
e o gesso incomoda muito mais que a tala. Um dia, em um café enquanto
ouvia o estrago que um tombo besta tinha provocado - fratura, 45 dias de
gesso na mão direita - entrou um menino vendendo uns quadrinhos. Escolhi
um pelas cores, pois as letras eram muito miúdas e, por acaso dizia:
"Não temas. O Senhor teu Deus te toma pela mão direita e te guia pelo
caminho certo." Paguei o dobro e o menino arrematou:
- É dona, esse veio com aviso!
Era mesmo, aviso de que era preciso escolher uma bagagem leve e partir
daquele desejo torto para achar um outro fio. Para os Orientais o mínimo
é o dedo relacionado ao coração, fala do que pulsa e também anuncia que
é hora de parar de fazer esforço, de tentar.
Sem dirigir, me diverti com os muitos caminhos que os taxistas
encontraram para me levar para o mesmo lugar. E foi a ternura e a
novidade que brotaram nesses dias que aplacaram meu curto-circuito. Foi
lindo de ver como as amigas cortavam a carne e as verduras bem
pequenininhas para mim. Mães, zelosas, esqueciam que eu não era um bebê
ou gostavam de lembrar do tempo que faziam isso paras suas crianças.
Amizade, compaixão, assoprão, cumplicidade eram impressas nessa
geometria de garfo e faca. Outros tantos me abriram portas e sorriram,
depois que os olhos estranhavam o "defeito". Até a enfermeira,
acostumada a ser distante, me viu branca de aflição enquanto ela trocava
o curativo e contou que desmaiava toda vez que tirava as sobrancelhas!
- Em vez de perder a direita, você ganhou a esquerda!, disse uma das
amigas.
E quando a última gase soltou, pedi para lavar a mão. O sabão líquido
era sublime, esfregava direita e esquerda, coordenadas, juntas. Fiz
espuma, enxagüei, enxuguei e o prazer foi tanto que lavei-as de novo,
como se fossem velhos amigas se reencontrando em um abraço na chuva...
Ficar sem os gestos corriqueiros ensina.
Agora, com os dois lados testados, mais do que nunca entendo e posso
concordar com aquele velho provérbio árabe: O que a mão esquerda faz a
direita deve saber. Essa é uma outra espécie de destreza... que cura por
amalgamar a estrutura.
Depois de 21 dias, número cabalístico, o dedo colou e a alma entrou na
maturidade. Já não tenho dúvidas: coração tem osso. No mínimo, regenera.
No mínimo, pulsa outra vez.
LILIANE ORAGGIO COCCHIARO, paulistana, 41 anos, é jornalista,
redatora-chefe da Revista Bons Fluidos da Editora Abril.
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