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A missa das sombras

Para M. Jean-François Bladé, de Agen, o "escriba devoto" que colecionou
os contos populares de Gascogne.
Tradução: Roberto
Schmitt-Prym
Eis o que o sacristão de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou
sob as parreiras de Cheval-Blanc, numa bela noite de verão, tomando um
velho vinho à saúde de um morto abastado, que ele havia enterrado
respeitosamente naquela manhã, sob tecido carregado de
lágrimas-de-nossa-senhora:
- Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida,
coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua
profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos
cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza
absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando,
senhor, entro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no
caramanchão do Cheval-Blanc. E se, por acaso, encontro um espectro, não
me inquieto, absolutamente com isso, porque penso que ele pode
perfeitamente cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus.
Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas
que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe
contasse tudo o que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias
para serem contadas, e meu pai que, todavia gostava de narrar histórias,
não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia
muitas vezes as mesmas narrativas e, ao que eu saiba, relatou bem umas
cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.
Catarina Fontaine era uma velha solteirona que ele se lembrava de ter
visto em criança. Não me surpreenderia se houvesse na região até uns
três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito,
porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava na
esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver,
anexo a um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas.
Há nessa torre figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de
Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito em latim que o "amor é
mais forte que a morte". O que se refere, acrescentava, ao amor divino.
Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O
senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito
afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara,
aos dezoito anos, o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, com quem noivara
secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente
nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque
Catarina Fontaine lembrava mais uma senhora que uma operária, conservava
sob os cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, que possuía um
ar triste e que se lhe podia ver no dedo um desses anéis em que um
ourives colocara duas mãozinhas unidas, como era costume outrora os
noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significava.
Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as
manhãs, qualquer que fosse o tempo, ia ouvir a missa das seis horas em
Santa Eulália.
Mas, numa noite de dezembro, quando ela estava deitada em seu quartinho,
foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem-se anunciando a
primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde ainda
era noite fechada e não se viam as casas e claridade alguma era
perceptível no céu escuro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas -
que nem mesmo se ouvia ladrar um cão - que a pessoa se sentia
completamente distante do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que
conhecia cada uma das pedras do caminho e que podia ir à igreja de olhos
fechados, alcançou sem dificuldade a esquina da Rua das Freiras com a
Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira, que exibe uma
árvore de Jessé, esculpida numa trave. Tendo alcançado esse ponto, ela
viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam ver uma
grande claridade de círios. Continuou andando e quando transpôs a porta
encontrou-se numa numerosa assembléia que enchia a igreja. Ela, porém,
não reconhecia nenhum dos presentes e estava surpresa com todas aquelas
pessoas trajadas de veludo e brocado, com plumas no chapéu, trazendo as
espadas à moda antiga. Havia senhores que seguravam longas bengalas de
castão de ouro e damas com toucados de rendas, presos com um pente em
diadema. Cavaleiros de São Luís davam a mão a essas senhoras, que
escondiam atrás dos leques um rosto pintado, do qual só era visível a
têmpora empoada e um sinal no canto dos olhos! E todos iam se alinhando
sem o menor ruído, e não se ouvia, enquanto andavam, nem o som dos
passos no lajeado, nem o roçar dos tecidos. As naves laterais enchiam-se
de uma multidão de jovens artesãos, de casacos pardos, calções de fustão
e meias azuis, que seguravam pela cintura lindas jovens, rosadas, que
conservavam os olhos baixos. E, junto às pias de água benta, camponesas
de saias vermelhas e corpetes de atar, sentavam-se no chão com a
tranqüilidade dos animais domésticos, enquanto os rapazes, de pé atrás
delas, arregalavam os olhos rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas
fisionomias silenciosas pareciam eternizadas para sempre, no mesmo
pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar de costume, Catarina
Fontaine viu o sacerdote avançar para o altar, precedido por dois
acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os clérigos. Começou a
missa. Era uma missa silenciosa na qual não se ouvia o som dos lábios
que se moviam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina
Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso
vizinho e, olhando sem quase volver a cabeça, reconheceu o jovem
cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera há quarenta e
cinco anos. Reconheceu-o por um pequeno sinal que ele possuía sob a
orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios
negros em seu rosto. Vestia o traje de caça, vermelho, com alamares
dourados, que ele usava no dia em que, tendo-a encontrado no bosque de
São Leonardo, pedira-lhe de beber e roubara-lhe um beijo. Conservava a
mocidade e o bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de
jovem lobo. Catarina disse-lhe baixinho:
- Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que de mais
precioso uma jovem possui, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me
inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco; porque é
verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me
arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me
quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo
esta missa silenciosa.
O cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um
sopro, mas clara como cristal:
- Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório que
ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas
que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seus pecados foram,
como o nosso, sem malícia. Enquanto, separadas daqueles que amavam sobre
a terra, elas se purificam do fogo lustral do purgatório, padecem as
dores da ausência, que é o sofrimento mais cruel. Somos tão infelizes
que um anjo do céu se apiada do nosso martírio de amor. Com o
consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite,
o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde nos é permitido assistir à
missa das sombras, segurando-nos pela mão. Esta é a verdade. Se me foi
permitido ver-te aqui, antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se
realizou sem a permissão de Deus.
E Catarina Fontaine lhe respondeu:
- Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu
finado senhor, em que vos dava de beber na floresta.
Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as
esmolas e apresentava uma grande salva de cobre aos presentes que ali
deixavam cair sucessivamente moedas antigas, há muito tempo fora de
circulação: escudos de seis libras, florins, ducados e ducadões,
jacobos, nobres com a rosa; e as moedas caíam em silêncio. Quando a
salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que
não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata.
Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que
procurou um real em seu bolso, sem encontrar. Então, não desejando
recusar a sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na
véspera da sua morte, e atirou-o na salva de cobre. O anel de ouro, ao
cair, ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroante que
fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os acólitos, as damas, os
cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e
Catarina Fontaine ficou sozinha nas trevas.
Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de
vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu nestes termos:
- Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu
pai e creio que é verdadeira porque corresponde a tudo o que tenho
observado nas maneiras e nos costumes peculiares aos defuntos. Convivi
muito com os mortos desde minha infância e sei que eles costumam voltar
a seus amores.
É assim que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos
tesouros, que esconderam durante suas vidas. Montam boa guarda à volta
deles; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem,
prejudicam-nos e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado,
procurando-se no sítio assombrado por um fantasma. Da mesma forma, os
finados maridos vêm atormentar à noite suas mulheres casadas em segundas
núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas
depois de mortos do que haviam feito em vida.
Esses são dignos de censura porque, em boa justiça, os defuntos não
deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou contando o que tenho observado.
Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a
história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:
Na manhã seguinte a essa extraordinária noite, Catarina Fontaine foi
encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou na
salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com as duas
mãos juntas.
Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos
outra garrafa de vinho?...
Anatole François Thibault, literariamente conhecido por ANATOLE
FRANCE, nasceu em 1844 e faleceu em 1924. Um dos mais notáveis
escritores franceses modernos é autor de grande número de livros que são
hoje considerados obras-primas, tanto pela sua fina ironia e riqueza de
temas, como pela incomparável elegância do estilo. Iniciou-se nas letras
em 1873, com o volume de versos "Poemas Dourados", a que se seguiu o
volume, também de poesias, "Núpcias Corintias". Depois, nunca mais
escreveu senão em prosa, contando-se por dezenas os volumes com que
enriqueceu a literatura de seu país e do mundo. Destacam-se, de suas
obras, as seguintes: "O Crime de Silvestre Bonnard", "Thais", "O Lírio
Vermelho", "A Ilha dos Pingüins", "O Anel de Ametista", "O Manequim de
Vime", "O Sr. Bergeret em Paris", "As Sete Mulheres de Barba Azul",
"Historia Contemporânea" e outras.
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