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A lista tríplice
Desculpe a forma inusitada de comunicação para os dias de hoje, uma
carta datilografada, coisa que já não se usa, eu sei. Permita-me tomar
alguns minutos de seu precioso tempo, tão crucial para os inúmeros
problemas de sua atividade profissional. O volume de dinheiro que ao seu
caixa aporta todos os dias é considerável, todos sabemos, sua notória
capacidade de transformar tudo em ouro espraia sua fama por enorme
região. Para você o tempo, literalmente, é dinheiro.
Mesmo assim, quero ter a ousadia de roubar-lhe alguns minutos para
leitura, mas se deles não dispuser, bem, em nada irá alterar o final.
Serei breve, não há por que alongar-me.
Meu objetivo, ao escrever, é apenas auxiliá-lo a clarear cenários
esquecidos, coisas incômodas do passado, que já deveriam estar
soterradas. Para você, talvez. Não para mim, como ficará bem claro nas
próximas linhas.
Dez anos atrás eu me encontrava em situação absolutamente diversa desta
de agora — ocupo hoje um desprezível quarto de pensão, escrevo cartas
com uma máquina pré-histórica e tenho o dinheiro indispensável à
sobrevivência. A empresa comercial que eu montara na fronteira estava em
franca expansão, beneficiada pelo câmbio favorável e outras
circunstâncias. Nós dois estamos de pleno acordo que os métodos
justificam os meios, de forma que não é oportuno, aqui, especificar
outros detalhes do meu sucesso. Fiquemos no câmbio, e nas oportunidades
de levar enormes cargas para o outro lado do rio Uruguai, com lucros
polpudos.
Foi então que incidentes desagradáveis se abateram sobre mim, numa
sucessão vertiginosa, e até hoje me pergunto de onde veio minha
incapacidade para reagir, assistindo passivamente à própria derrota,
coisas inexplicáveis.
Subitamente, a vigilância policial aumentou, fustigando meus homens. A
marítima passou a trabalhar 24 horas por dia, num cerco implacável que
reduziu meus negócios a zero. O que a princípio parecia rotineira
vigília tornou-se um cerco insistente, e as minhas suspeitas de uma
delação só se confirmariam anos depois. Os homens pararam, sem trabalho,
as noites se sucedendo sem que pudéssemos aventurar travessias.
Um a um, fui dispensando os homens, liberando-os para a procura de
outros serviços, desgarraram-se para outros lugares. Recolhi os que
sobraram para um cafundó do Judas, para que hibernassem. E eu me vi às
voltas com a polícia, inquérito instaurado, depoimentos, aquela
humilhação. Momentos difíceis, mas fui inocentado, e terminei por
dispensar também os últimos deles.
Estou apenas lembrando fatos que já são de seu inteiro conhecimento,
visto que na época seu interesse por meus empreendimentos não eram
ocultos. Um tal Arnaldo me procurou oferecendo razoável soma em
dinheiro, o que descartei.
Um mês depois, aconteceu o roubo, do qual você deve lembrar-se. Ainda me
corta a garganta lembrar a manhã de segunda-feira, com a loja saqueada,
vazia dos equipamentos, dos utensílios agrícolas, dos móveis. Para
evitar a falência, desfiz-me do caminhão, vendi terrenos, apazigüei
alguns credores.
Os autores do prejuízo não foram descobertos. No ano seguinte, o
incêndio reduziu a cinzas todas as instalações, e transformou em fumaça
minha precária situação financeira. Nada foi descoberto. A explosão foi
creditada aos galões de tinta.
Foi difícil, para mim, estabelecer relação entre todos estes fatos. O
movimento policial, o roubo, o incêndio. Aparentemente, entre eles não
havia qualquer liame, e só a fatalidade parecia explicá-los.
Nesse tempo, vi a sua empresa crescer, seus interesses se multiplicarem,
e descobri que meus antigos clientes e fornecedores do outro lado da
fronteira haviam se tornado seus amigos. Você ocupara o meu espaço, é
isso. Com a mesma rapidez da minha decadência, seus negócios tomavam
corpo, transformando-se na enorme estrutura que hoje estende braços em
lugares distantes.
Minha percepção, portanto, foi gradativa, lenta, sem que eu mesmo desse
crédito às suposições. Vi o mercado que um dia fora meu, do contrabando
ao comércio agrícola, mudar de mãos e multiplicar-se, ramificar-se,
transformar-se em mina de ouro. E vi, como expliquei nas linhas acima,
minha desgraça consumada quando percebi que, entre as fatalidades,
havia, sim, um liame, um quase imperceptível cordão a unir aquilo que me
reduziu a pó
Não fugi, na exata expressão do termo. Mudei de vida, virei
caixeiro-viajante, percorrendo o Rio Grande. Sou quase um biscateiro,
que não consegue livrar-se do passado, e os fatos que antes descrevi
sucintamente ocupam minha mente todos os dias. Há dez anos.
Longe, na região de Santa Cruz, encontrei um dos homens que fizera
muitas viagens para o outro lado do rio, a meu serviço. O sujeito
contou-me algo que serviu para atar os nós da linha a que antes me
referi. O sujeito que armara a polícia à minha volta, um tal Reginaldo,
recebera uma polpuda recompensa. Você, ao pagá-lo, diante do delator de
Santa Cruz, jamais imaginou que algum dia eu saberia disso, certíssimo?
Foi então que, numa destas noites em que os acontecimentos perturbam o
meu sono, decidi fazer a lista tríplice, com os nomes das pessoas que
desejava encontrar, hoje transformada num papelote sujo e amarrotado,
embora legível, que me acompanha. Sempre que coloco a mão no bolso
sinto-o, a cada dia mais amassado, mas sempre presente.
O primeiro da lista, uma preferência aleatória da minha parte, foi
Arnaldo, que virou dono de frota de caminhões para transporte de safras
agrícolas. Um acidente trágico — lembra? — ao dormir na direção. Diga-se
de passagem, ele nada desconfiou ao ingerir o café com sonífero, naquela
conversa animada que tivemos no restaurante à beira da estrada. Risquei
seu nome da lista.
Por favor, não esmoreça na leitura, embora esta carta esteja mais longa
do que o previsto.
O segundo nome era Reginaldo, obviamente, já residindo na fronteira,
região de campo, o segundo a desprezar o recado que enviei. Bem, na
verdade é só um exercício de imaginação, ninguém jamais saberá qual sua
reação ao receber a carta. Minha atuação ficou um pouco prejudicada,
pois Reginaldo era homem de hábitos irregulares. Não cumpria horários.
Saía em viagens demoradas. Mas não foi difícil descobrir o itinerário da
pescaria que programara com alguns amigos, para aquele final de semana.
No meio do caminho, já noite, encontraram a vaca sobre o leito da
estrada, devidamente silenciada com um tiro na cabeça. O corpanzil negro
estirado sobre a poeira, eu aguardava entre as macegas do barranco, sem
qualquer temor de imprevistos que, efetivamente, não aconteceram.
Veículo parado, os pescadores desceram, três homens iluminados pelos
faróis, alvos fáceis. Reginaldo recebeu o projétil na cabeça, rodopiou
no ar e desabou sobre o animal. Enquanto eu desaparecia no silêncio da
noite, os outros se agitavam em desespero, ah, como lembro bem disso!
Inútil dizer que seu nome é o terceiro da lista, o da terceira carta. Só
espero que me tenha lido até este ponto, em que me despeço, apesar do
assunto desagradável. Estarei chegando na cidade em breve, e digo ser
deselegante e inútil tentar evitar o nosso encontro. Nego-me a
subscrever, por motivos óbvios. Atenciosamente,
GILBERTO KIELING autor de "A Trajetória do Dia" e "O Fundo
Invisível do Olho"
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