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Leitor, ame-o ou deixe-o
Eu sei que você é uma pessoa muito ocupada, mas pense, só por um
instante, pense o que você imaginaria caso visse uma bolsa de plástico
transparente esquecida no parapeito da escada rolante de uma estação de
metrô. Faltam dados, reconheço que faltam, mas faz um esforcinho. Nada
até agora? E se dentro dessa bolsa você encontrasse... hum... vamos
ver... moedas? Temos então uma estação de metrô, uma bolsa de plástico
transparente com algumas moedas dentro cujo montante você não pode
precisar e um pote de comida (com comida dentro). É, eu sei que ainda
não tinha dito que havia um pote de comida dentro da bolsa, e você, com
toda razão, se queixa disso, mas lembre-se de que a bolsa é de plástico
transparente e você poderia muito bem ter visto o pote de comida por si
mesmo. Você há de convir que é muito confortável ficar aí sentado só
esperando eu te dizer tudo, tintim por tintim o que havia dentro da
bolsa, quem esqueceu, por quê, quando. Muito confortável mesmo. Então,
por favor, esforce-se. Você diria que esse conjunto de coisas (bolsa,
moedas e pote de comida) poderia ter sido esquecido por uma mulher que
estava indo para o trabalho? Lá vem você me olhando com essa testa
franzida, se perguntando o que pretendo com essa história, pensando que
já que estou perdendo tempo, que perca com uma história mais bem
elaborada. Isso chega a ser engraçado: além de todo o trabalho de pensar
na história, de escolher as palavras que vão melhor com a situação, de
eleger uma forma que não destoe muito do assunto, além de tudo isso,
você acha que eu ainda tenho que adivinhar seus pensamentos e escrever a
história do seu jeito. Entendi. Está muito simples a história, não é?
Então tenta pensar em algo melhor...
... sem pressa, eu espero, não estou fazendo nada mesmo...
Não é fácil, né? Então que tal continuarmos com a história?
Eu dizia que aquele conjunto de coisas podia ter sido esquecido por uma
mulher que ia para o trabalho. O pote de comida era o almoço que ela
levava todos os dias com exceção da segunda-feira, quando a casa
amanhecia na mais completa desordem e ela mal tinha tempo de se arrumar
quanto mais fazer comida pra levar pro trabalho.
Sabemos então que esse nosso dia não é segunda-feira (apesar do seu
completo mau humor - sim, porque você está num mau humor medonho, nunca
vi nada igual). Então, o dia não é segunda, é quinta, e foi numa
quinta-feira que você achou essas coisas. Como? Quarta é melhor para
você? Sem problema, quarta para mim está ótimo, até porque essa
informação é completamente irrelevante no contexto. É claro que foi por
isso que te deixei escolher, por que seria? Afinal de contas, quem está
fazendo a parte mais pesada aqui sou eu e tenho o direito de deixar que
você interfira apenas nas questões sem importância, porque as que
realmente importam sou eu quem decide... ai ai ai, lá vem você de novo.
Será que você não se contenta em ler apenas sem tirar conclusões
precipitadas? Vem cá, se você acha que o que leu até aqui é um blá blá
blá sem importância, então por que ainda continua lendo? Lendo só não,
porque você não se contenta em ler apenas. Quer contar junto, montar uma
história paralela, que reflita a sua problemática existencial, seja lá
ela qual for. Quer cocontar. Ai, mas que cara chato, eu sei que não
existe essa palavra, também sei o que é cacofonia, mas é que você me
irrita demais e a palavra co-autoria me fugiu e se eu demorar muito com
isso você fica mais sem paciência ainda e eu também.
Olha só, eu comecei isso aqui como um jogo, no início até queria a sua
participação, mas vou te dizer, com essa sua cara de poucos amigos tô
vendo que o que você quer é guerra. Eu aqui na paz, pedindo a sua
colaboração, e você de repente entra numa paranóia delirante e
encasqueta que essa história é sua, fica enciumado. Com mulher você
também é assim é? O quê? Eu estabeleci uma cumplicidade com o texto e
deixei você de fora? Ih, tá ficando doido? Você é que se acha no direito
de mudar totalmente uma história pra ela se encaixar no seu modo de
pensar. Você quer se ler nela e eu só quero continuar com esta história
simples que comecei, só isso, mas tô vendo que desse jeito vai ser um
desastre. Está certo, está bem, eu te convidei pra participar, mas isso
não te dá o direito de se apropriar da história nem de me tratar com
esse desprezo crítico. Você acha que escrever é só encher uma folha de
papel? O quê? Ah não, aí você já foi longe demais com esse seu
sorrisinho que eu sei muito bem o que significa e não vou ficar aqui
traduzindo o seu próprio sorriso pra você. Quer saber? Se ainda insisto
nisso é porque tenho que terminar esta história, mesmo que ela não te
interesse a mínima.
A bolsa leva o pote do almoço, mas e as moedas? As moedas, se contadas,
poderiam totalizar o troco que a mulher recebeu ao comprar o bilhete do
metrô. Mas por que elas estariam jogadas dentro de um saco plástico
transparente? Talvez porque a mulher tivesse acabado de fazer as unhas e
não quisesse estragá-las ao guardar os níqueis na bolsinha que também
serve de chaveiro, então ela resolveu jogá-los de qualquer jeito dentro
da bolsa transparente. Na hora do almoço uma amiga talvez encontrasse as
moedinhas espalhadas dentro da bolsa e dissesse "olha, encontrei
dinheiro na sua bolsa de plástico transparente", ao que a mulher
imediatamente revelaria que aquelas moedas eram o troco que ela havia
recebido no metrô e, como não queria estragar as unhas recém-pintadas ao
colocá-las na bolsinha que serve de chaveiro, achou melhor jogá-las
dentro da bolsa de plástico. Guardá-las-ia depois no porta-níqueis. As
duas mulheres então almoçariam, pagariam dois sucos de laranja com as
moedas e...
Ei! Você está meio silencioso demais. O que houve, não gostou da
história? Mas eu ainda nem comecei! Ei, voltaqui! Tá bom, eu tiro a
mesóclise!
Leitor é fogo! Nem espera a gente pegar o ritmo.
ANA CLAUDIA CALOMENI
é carioca, formada em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Em
2000 participou da antologia de contos, crônicas e poesias TOTAL e em
2003 participou da antologia DEZ, ambas organizadas pelo poeta Cairo
Trindade. No final de 2000 recebeu menção honrosa no 11º Concurso de
Contos Paulo Leminski pelo conto "Por um fio de sangue". Atualmente
trabalha na Receita Federal e cursa pós-graduação em Educação Estética
na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO.
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