Alguém que, talvez, fui

Não costumo me arrepender do que faço.

Mas o que dizer de tudo que me aconteceu desde que iniciei esta viagem senão que deveria ter ficado, tranqüilamente, no útero, porque Leus já havia me alertado dias após?

Se decidi por ser depois foi uma coisa de minha alçada e não posso culpar ninguém. Talvez a nora que nunca tive, mas ela não poderia saber dos desdobramentos.

Tenho me esforçado por cumprir metas desde que entrei para a Companhia de Futuros. Vendi umas três aposentadorias no Caribe, dois corpos de manequim após o regime e até um escritor famoso. É importante ter em mente a possibilidade de cada um para que as coisas não dêem errado.

Se eu não percebesse que a gorda teria estes fragmentos temporais possíveis, acabaria com uma baleia encalhada no meu currículo e seria mortal para conseguir crescer dentro do útero.

Mas se não tivesse a maldita curiosidade me impelido a visitar o casal apaixonado, nada disto teria acontecido.

Você me perguntarão, não, vocês não me perguntarão porque, na verdade. não há vocês aqui. Eu me perguntarei: Por que? e não terei respostas para isto. Foi o que disse a Leus naquele início. Ele ativou meu futuro e me permitiu conhecer porque é meu amigo. E porque tem interesse em crescer comigo, mas isto é outra ramificação que evito freqüentar no depois. .

O casal era tão estranho.. jamais havia visto casais apaixonados de verdade no útero. Eram sempre experiências para o depois. Sabe como é? Você que não existe, senão na minha imaginação? Experiências. Mas aquele já se amava antes. Nem me pergunte - aliás não perguntará, ninguém perguntará - o motivo. Acontecem erros na programação genética dos ovos. E em futuros espera-se que as coisas se arrumem por elas mesmas. Vã ilusão, como pude perceber.

Estive lá amanhã e soube que se odiaram. Apanhei a chaga palpitante do peito dela, vi olhar assassino do ex-amante. Era óbvio. Eu estava certo, mas não me sentia feliz.

Colhi o frágil corpo, lacerado pelo sofrimento e tentei leve-la para ontem mas não adiantaria. Ia voltar o amor e a esperança e o engano.

Tinha que caminhar para a frente, tinha que ir ao adiante e levá-la comigo para o futuro.

Este foi meu erro fatal.

Era minha mãe biológica, percebe? Você que não existe porque não há nada em torno de mim só fragmentos de tempo espalhados por todos os lados. Um erro de programa, eis o que sou.

Ela foi demolida pela experiência do amor, me assassinou no seu corpo e eu não fui. Ontem já era e amanhã não serei mais.

Apenas por este breve momento, sou. Até voltar para o útero e ser destruído infinitamente.


Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira (BÁRBARA HELENA) é carioca, formada em jornalismo, artista plástica, professora de desenho, pintura e história da arte, largou tudo para se dedicar a escrever, trabalhando também como ghost-writer. Costuma dizer que é muitas e uma delas, Bárbara Helena, é colaboradora com crônicas e contos do site Anjos de Prata onde participou do livro Crônicas dos Anjos de Prata 2, 3 e 4. Como Maria Helena Bandeira teve seu conto Eu Mesmo escolhido Conto Brasileiro do Mês da revista Isaac Asimov Magazine em abril de 1992 e foi a vencedora no primeiro trimestre de 2001 do Concurso Permanente de mini-Contos do site português Simetria. Outros textos seus foram publicado na revista Blocos, como o melhor da quinzena em 2001, 2002 e 2003 e 2004, assim como uma mini-série literária de Ficção Científica. Escolhida pelos leitores da revista como uma das dez melhores na categoria prosa em 2003. Seu conto O Especialista (do site português E-nigma) foi indicado para o prêmio Argos 2002 de FC. Colaboradora da revista Scarium de Fantástico e FC (onde foi conto de capa do número de lançamento) teve também uma mini-serie policial publicada no Novos Talentos da Literatura.