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A rosa
...acho que agora tá fazendo um ano, não sei, antes eu me preocupava
mais com essa coisa de tempo, hora de dormir, hora de comer, ficava
olhando o relógio quando Rita não estava em casa, hoje não, às vezes até
me distraio com o movimento e acabo ficando aqui pra dormir. É
tranqüilo, não é? Eu também sou tranqüilo, gosto de coisas tranqüilas.
Rita? Ela não, ela é diferente de mim, muito diferente. Era, agora não
sei, sei como era antes, mas um dia ela acordou cedo, desperta, não era
dela acordar cedo, nem desperta, isso era sinal de novidade e novidade
traz fofoca. Eu não suporto a tal da fofoca, sabe, é perigosa, ataca
quando a gente menos espera. Mas o que me dá medo mesmo é a notícia,
porque notícia é definitiva, exige atitude.
- Tô indo, tá?
- Já?
- Tô atrasada, tchau.
- Atrasada pra que?
- Ginástica, shopping, dentista, mil coisas, tchau.
Rita estava mudada, estranha, ninguém muda assim, sem mais nem menos,
não é? Um amante, só podia ser isso, ela tinha um amante. Pensei,
prefiro morrer a vê-la nos braços de outro homem. Vagabunda, você não
merece a vida que eu lhe dou, não merece nem viver. Um só? Acho pouco,
Rita é mulher pra dividir com mais de cem e todo mundo ficar satisfeito.
Rita tem um amante. E agora?
Nos conhecemos por acaso, não é assim que todo mundo se conhece? Ela era
a Ninfeta e eu o Moreno, numa sala de bate-papo na internet. Ela disse
que eu fui o primeiro, eu disse o mesmo, e ficamos assim, por quase três
meses. Um dia, eu deixei a chave do apartamento com o porteiro, num
envelope amarelo. Garanti, fiz até promessa e jura de que não estaria em
casa, e assim foi. Rita ligou do meu telefone para dizer que estava
vendo meus livros, meus discos, olhando as fotos que ficavam num mural
da parede do meu quarto, deitando em minha cama, remexendo as gavetas,
escolhendo um cd e uma camisa que só iria devolver pessoalmente. Passou
a tarde inteira assim, e na saída deixou a calcinha branca, de algodão,
em cima do meu travesseiro. Tinha o cheiro de Rita, a calcinha, um
cheiro que só a lembrança me faz salivar.
Depois de uma semana, eu estava assistindo a um jogo de basquete pela
televisão, a campainha tocou, e quando abri a porta era ela, e a mala.
Estava assustada porque o noivo descobriu nosso romance, porque ele que
era tão pacato ameaçou matar a mim, que nem sabia que ela vivia com um
homem, nem que estava de casamento marcado, nem que ele tinha dado um
carro novo de presente no dia do aniversário dela.
Brigaram feio, ela disse, e levantou a saia para mostrar a coxa, que
machucou na quina da mesa quando ele ergueu o braço e ela recuou. Foi na
cozinha e trouxe um copo d’água para nós dois, ao banheiro e fez xixi
com a porta aberta, vestiu uma camiseta rosa com desenho de um gato
sorrindo, deitou no sofá com a cabeça no meu colo, e mudou o canal para
assistir à novela. Era só por uns dias, sabe, até arrumar um
apartamento, mas antes ela precisava de um emprego e como é difícil
arrumar um bom trabalho não é? Mas Rita não era mulher de se abater, ela
tinha energia, vitalidade, gostava de casa cheia, muitos amigos, alguns
que conheci quando ela me iniciou no naturismo, me deixavam constrangido
quando vinham à minha casa, é que eu ficava excitado ao ver as mulheres,
que antes tinha visto peladas, usando roupas. Como é sensual uma mulher
vestida, não é? Mas com o tempo me acostumei, e até aprendi a gostar.
Foi aí que ela resolveu acordar antes do almoço, inventando de passar o
dia na rua, e ainda esquecendo de avisar quando ia chegar tarde.
- O dia hoje foi um inferno, não tive tempo pra nada.
- Mas nem pra atender o celular?
- Ai, que neura essa agora, vai ficar me controlando é? Gosto disso não.
No dia seguinte, pela manhã, lhe dei um beijo antes de ir embora. Ela
resmungou, puxou o lençol e voltou a dormir. Desci apressado e na
garagem, como o carro dela estava atrás do meu, pedi ao porteiro que o
tirasse.
- Dona Rita não vai sair hoje, doutor?
- Por que você quer saber?
- É que se ela for ficar em casa eu lavo o carro dela, tá precisando.
A fofoca plantou semente. O garagista sabia que era no lixo que estavam
as pistas, os rastros do criminoso inexperiente.
- Lave o meu que eu vou sair com o dela.
Prendedor de cabelo, óculos de sol, lenço de papel, batom, panfletos de
imobiliária, uma pétala de rosa vermelha. Rita tem um amante. Eles se
encontram durante o dia, na hora do almoço, num motel, e ele aperta o
corpo dela com força, segura pelos cabelos, faz ela gozar três, quatro
vezes, finge carinho, romance, rosa vermelha, depois vai contar aos
amigos que está comendo aquela morena gostosa e o corno do marido nem
desconfia. E ela volta cansada, pensando que seria melhor que eu não
estivesse, porque eu nunca lhe dei rosas.
Nessa noite fiz questão de chegar tarde em casa, pensei que talvez ela
estranhando minha demora telefonasse mil vezes, mas não. Quando entrei
no quarto, a luz acessa, ela deitada de lado, nua, estava como se
tivesse sido largada assim. Era bonita a minha Rita, causaria uma grande
comoção a notícia, Mulher assassinada pelo marido enquanto dormia, e a
foto dela nua, o corpo perfeito maculado pelo ciúme. Bendito cansaço,
bendita covardia. Deitei. Ela, dormindo, me abraçou como se soubesse que
eu estava ali.
Parece até que o que eu tô lhe contando aconteceu agora mesmo, não é?
Por isso que eu parei de me preocupar com essa coisa de tempo. Antes eu
queria saber de tudo, controlar cada movimento, cada atitude dela. Rita
tem um amante? Fofoca. Rita tem um amante. Notícia. Se eu perdesse o
controle dos fatos perderia Rita. A notícia quem dá sou eu: Você tem um
amante. Passei a segui-la. Discretamente, é lógico. Aluguei um carro,
vidro preto, deixava o meu num estacionamento a poucas ruas da minha
casa e voltava à frente do prédio, esperando que ela saísse. Inútil.
Pensei no porteiro, talvez soubesse de alguma coisa e por um agrado,
não, mais fofoca. Invadi e-mail, conferi o extrato da conta do celular
número por número, revirei as bolsas, gavetas, até forjei uma falta
d’água repentina quando ela entrou no banheiro, para ver se encontrava
nas fezes algum resquício de bilhetes engolidos. Nada.
Lembro que era sábado, dormi além da conta. Ela preparou o café e deixou
na mesa um bilhete dizendo que ia à manicure, e que eu fosse encontra-la
na praia. Eu fui, ela não. Celular desligado, ninguém viu Rita em canto
algum. Sabe, chega um momento que cansa. Passei o resto do dia nos
cinemas, vendo um filme atrás do outro até a última seção. Depois sentei
no balcão de uma uisqueria, onde todo mundo cantava a menina que
oferecia uma garrafa de Johnny Walker no meio dos peitos, e esperei a
madrugada. Talvez ela nem voltasse pra casa, por que eu deveria ter
pressa? Saí do bar com uma garrafa de uísque ainda fechada. Estava
tentando encaixar a chave na porta do carro quando ouvi uma voz atrás de
mim,
- Companheiro, vais beber esse néctar sozinho?
e quando me virei, antes de dizer um palavrão, vi, no blazer do sujeito,
uma rosa vermelha de talo comprido enfiada na lapela. Apertei os olhos
tentando reconhecer aquele homem alto, magro, cabeça raspada e barba
grande, não conheço, ele me ofereceu um trago de cigarro e aceitei.
Sentamos ali mesmo, no meio-fio, ele derramou uísque numa caneca imunda
e bebeu, passou pra mim e eu bebi.
- “Das mulheres que conheci só uma me chamou atenção
tinha veludo na pele açúcar na boca, mas não tinha coração.
Um dia ela me disse, e foi aí que me prendeu,
não importam os homens do mundo, meu amor será só teu.”
Dor de corno, companheiro?
- O quê?
- Há! É a pior dor do mundo. Bem feito, quem mandou acreditar em mulher?
Até sua mãe mentiu quando disse que você era bonito. Há!
Tentei levantar me apoiando no capô do carro mas ele me puxou pela
calça.
- Senta aí, rapaz, pra que essa agonia? Olha, hoje faz três anos que eu
morri.
- O quê?
- Que eu morri, rapaz, três anos. Foi bem ali na frente, olha, um carro
me pegou. Pum! Eu ia fazer quarenta e sete anos, faltavam dois dias.
Agora faça as contas: quarenta e sete menos três, quarenta e quatro,
certo? Faltam quarenta e quatro anos pra eu nascer de novo. É tempo
demais não é? E você?
- Eu o que?
- Sua idade.
- Trinta.
- Há! Quando você nascer eu ainda vou estar na adolescência. Quarenta e
quatro menos trinta, catorze.
- Eu já vou.
- Peraí, rapaz.
- Não, eu preciso ir.
- Então toma teu uísque.
- Pode ficar com ele, presente de aniversário.
- Há!
Imagine só, ele tinha uma rosa vermelha na lapela e eu cheguei a pensar
que por conta disso ele e Rita, deixa pra lá, eu estava alucinado,
perturbado, confuso, tudo isso e mais um pouco. Rita tinha um amante.
Bobagem.
Entrei na garagem do prédio e o porteiro se chegou, olhando assustado.
Fui até o carro dela. O capô estava frio, chegou cedo, o banco do
motorista, tá errado, ela dirige quase colada ao volante, alguém mexeu
no banco. Foi ele. Rita e o amante, na minha casa. O flagrante. Não. A
notícia.
- Rita está em casa?
- Dona Rita?
- É.
- Bem, doutor, isso eu não sei dizer.
- E você não viu ela chegar? Quem estava na garagem?
- Era eu mesmo, doutor, mas é que o carro dela quem trouxe foi a
polícia.
- Polícia?
- Eles estavam procurando o senhor, passaram o dia inteiro aqui na
frente.
- E ela, cadê?
- Parece que dona Rita foi assaltada, doutor. A polícia deixou esse
papel, parece que é pro senhor comparecer na delegacia.
Ela foi baleada por um pivete, depois que sacou dinheiro no caixa
eletrônico para ir à manicure. Dois tiros no corpo da minha Rita. Morreu
assim. Minha Rita. Eu? Bem, na verdade nem me lembro direito, talvez
tenha sido um carro, o coração, não sei. Lembro de ter procurado por ela
no IML, olhei algumas mulheres que eles guardavam numa espécie de
geladeira, minha Rita não estava lá. Então eu saí procurando, é,
procurando. O pessoal daqui do cemitério já sabe, se chegar uma Rita,
bonita, morena, eles me avisam. Eles pensam que eu sou louco, sabia?
Essa gente não tem juízo. A rosa? É pra ela, todo dia venho aqui buscar
uma nova. Quando eu encontrar minha Rita quero lhe dar uma rosa vermelha
bem bonita. A outra? É pra mim, pois é, não fica bem um defunto andando
por aí sem nem sequer uma florzinha.
DANILO PORTELA tem 36 anos, pernambucano, é arquiteto para ganhar
a vida e escritor para salvar a alma. Teve o conto “Eu queria” publicado
no site Paralelos e “Praga de Urubu” publicado no livro “Contos de
Oficina”, coletânea organizada pelo escritor Raimundo Carrero
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