 |
 |
A Loba
Tradução: Roberto Schmitt-Prym
Era alta, magra; mas tinha um seio firme e vigoroso, de morena - embora
já não fosse criança - pálida como se tivesse sempre a malária, e
naquela palidez, uns olhos grandes e uns lábios frescos e rubros que
fascinavam.
No povoado chamavam-lhe "A Loba" porque nunca se saciava. As mulheres
persignavam-se ao vê-la passar sozinha como uma cadela, com aquele andar
errante e desconfiado de loba faminta; roubava filhos e maridos num
abrir e fechar de olhos, com seus lábios rosados, e levava-os colados
aos seus vestidos, com aquele olhar de Satanás, ainda que estivessem
ante o altar de Santa Agripina. Por sorte, a Loba não ia nunca à igreja,
nem pela Páscoa nem pelo Natal, nem para ouvir missa, nem para se
confessar. O padre Ângelo de Santa Maria de Jesus, um verdadeiro servo
de Deus, tinha perdido a alma por ela.
A pobre Marica, menina boa e desembaraçada, chorava às escondidas,
porque, filha da Loba, ninguém a queria por mulher, apesar de ter seu
enxoval na cômoda e seu pedaço de chão como qualquer outra moça do
povoado.
Um belo dia, a Loba enamorou-se de um belo rapaz que tinha voltado do
serviço militar e que ceifava feno com ela nos campos do notário; mais
do que se diz enamorar-se, sentia que lhe ardiam as carnes sob o fustão
do corpete, e provar, ao fitá-lo nos olhos a sede das cálidas tardes de
junho, em meio da planície. Porém ele continuava ceifar tranqüilamente,
atento aos feixes, e dizia-lhe: - O que há, dona Pina?
Nos campos imensos, onde só se ouvia o estridular do vôo dos grilos,
quando caía o sol a prumo, a Loba ceifava gavela após gavela e feixe
atrás de feixe, sem se cansar jamais, sem erguer nem um momento o corpo,
sem aproximar os lábios do garrafão, com o intuito de estar sempre nos
calcanhares de Nanni, que ceifava e ceifava, e lhe perguntava de quando
em quando: - O que quer, dona Pina?
Uma noite lhe disse, enquanto os homens dormitavam na eira, cansados, e
vagavam os cães pelo campo vasto e negro: - Quero você, que é bonito
como um sol e doce como o mel! Quero a ti!
- E eu quero a tua filha, que é mocinha - respondeu Nanni rindo.
A Loba levou as mãos à cabeça, coçou as fontes sem dizer palavra e, e se
foi, sem voltar mais na eira. Mas em outubro tornou a ver Nanni, quando
se extraía azeite, pois trabalhava perto de sua casa e o ranger da
prensa não a deixava dormir a noite inteira.
- Apanha o saco das azeitonas - disse à filha - e vem comigo.
Nanni empurrava com a vara as azeitonas para debaixo da mó, e gritava
"upa!" à mula para que não parasse.
- Gosta de minha filha Marica? - perguntou-lhe dona Pina.
- Que a senhora dá para a sua filha Marica? - perguntou Nanni.
- Tem tudo o que era do pai, e, além disso, lhe dou minha casa; a mim me
basta que me dê um canto na cozinha onde possa estender um colchão.
- Se é assim, falaremos para o Natal - disse Nanni.
Nanni estava todo besuntado e sujo do azeite e das azeitonas postas a
fermentar, e Marica não gostava dele de jeito algum; porém sua mãe
agarrou-a pelos cabelos, diante da casa, e lhe disse, apertando os
dentes:
- Se você não o pega, te mato!
A Loba parecia doente, e o povo dizia que o diabo quando fica velho se
faz ermitão. Já não vivia de lá para cá; já não se punha a soleira com
aqueles olhos de endemoninhada. O genro, quando ela lhe olhava com
aqueles olhos, desandava a rir, e tirava o escapulário da Virgem para se
benzer. Marica ficava em casa amamentando seus filhos, e sua mãe andava
pelos campos trabalhando com os homens, como um homem também, lavrando,
capinando, conduzindo o gado, podando as videiras, quer soprasse o
gregal, o levante de janeiro ou o siroco de agosto, quando mulas
abaixavam a cabeça e os homens dormiam de bruços ao abrigo do muro, do
norte. "Nessa hora, entre véspera e nona, em que não passeia mulher
direita", dona Pina era o único ser vivente a quem se via errar pela
campina, sobre os seixos abrasados dos caminhos, entre os secos
restolhos dos imensos campos, que se perdiam no cálido ambiente, longe,
muito longe, para o Etna nevoento, onde o céu pendia, pesado, sobre o
horizonte.
- Acorda - disse a Loba a Nanni, que dormia no valado junto da cerca
poeirenta, com a cabeça entre os braços. - Acorda, eu te trouxe vinho
para refrescar a garganta.
Nanni abriu os olhos atordoados, entre adormecido e desperto, e viu-a
ereta, pálida, prepotente, olhos negros como o carvão, e tocou-lhe as
mãos.
- Não! mulher direita não passeia entre véspera e nona! - disse Nanni,
escondendo o rosto entre as ervas secas da valada. - Vai, vai! não volte
mais a eira!
E a Loba se foi, de fato, reatando as formosas tranças, de olhar fixo
ante seus passos nos cálidos restolhos, com os negros como carvão.
Voltou, porém, muitas vezes à eira, e Nanni não lhe disse nada. E até
quando tardava a chegar, na hora, entre vésper e nona, ia esperá-la no
alto da senda branca e deserta, com o suor na fronte, e depois levava as
mãos à cabeça repetindo-lhe sempre:
- Vai, vai, e não volte mais à eira!
Marica chorava dia e noite, e plantava-se ante sua mãe, os olhos
ardentes de ciúmes e lágrimas, como uma lobinha, ela também, sempre que
a via voltar do campo, pálida e muda.
- Desalmada! - lhe dizia. - Mãe desalmada!
- Te cala!
- Ladra, ladra!
- Te cala!
- Vou contar ao brigadeiro!
- Vai!
E foi mesmo, com seus filhos nos braços, sem medo, sem verter uma
lágrima, como uma louca, porque agora também ela queria aquele marido
que lhe tinham dado à força, besuntado e sujo das azeitonas postas a
fermentar.
O brigadeiro mandou chamar Nanni; ameaçou-o até com a prisão e a forca.
Nanni desatou a chorar e a puxar os cabelos. Nada negou! Não tentou
desculpar-se! - É a tentação - dizia - é a tentação do inferno! - E se
se jogou aos pés do brigadeiro, suplicando-lhe que o metesse na cadeia:
- Por caridade, senhor brigadeiro, tire-me deste inferno! Que me matem!
Que me encarcerem; contanto que não a veja mais, nunca mais!
- Não! - argumentou a Loba ao brigadeiro. - Eu reservei para mim um
canto da cozinha para dormir, quando lhes dei minha casa como dote. A
casa é minha; não quero sair!
Pouco depois, Nanni levou um coice de mula, e estava para morrer; mas o
pároco recusou-se lhe levar o Senhor se a Loba não saísse da casa. A
Loba saiu, e seu genro pôde então se preparar para morrer como bom
cristão, e confessou-se e comungou com tais mostras de arrependimento e
de contrição, que todos os vizinhos e curiosos choravam junto ao leito
do moribundo. Melhor lhe teria sido morrer naquele dia, antes que o
diabo voltasse a tentá-lo e a meter-se-lhe na alma e no corpo se
restabeleceu.
- Me deixa! - dizia à Loba. - Por caridade, me deixa em paz! Vi a morte
com estes dois olhos! A pobre Marica está desesperada. Todo o povoado já
sabe! Quando não te vejo é melhor para ti e para mim...
Teria desejado arrancar os olhos para não ver os da Loba, que quando se
cravavam nos seus lhe faziam perder a alma e o corpo. Não sabia o que
fazer para livrar-se do feitiço. Pagou missas às almas do Purgatório;
pediu ajuda ao pároco e ao brigadeiro. Pela Páscoa se confessou e
arrastou-se em público, lambendo, em penitência, seis palmos de
ladrilhos do adro da igreja. Mas depois, como Loba voltasse a tentá-lo:
- Escuta! - disse-lhe - não volte mais à eira, porque se voltar para me
tentar, te mato; tão certo como há Deus.
- Me mata, - respondeu a Loba, eu não me importo; mas não vou ficar sem
você.
Quando a viu ao longe, em meio das verdes sementeiras, deixou de cavar
as vinhas e foi arrancar o machado do olmo. A Loba viu-o aproximar-se,
pálido, com olhos arregalados, de machado brilhando ao sol, e não recuou
um só passo; não baixou os olhos, continuou andando ao seu encontro, com
as mãos cheias de papoulas vermelhas, devorando-o com seus olhos negros.
- Ah, maldita seja tua alma! - balbuciou Nanni.
GIOVANNI VERGA, escritor italiano (Catânia, 1840 - 1922), um dos
criadores do verismo, uma espécie de versão italiana do naturalismo de
Zola.
|