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Ruptura
O jovem adulto, K., imagina-se dono do desejo da mulher amada. Vive na
ilusão de ter as suas pernas amarradas às dele, o seu peito habitado
pela ansiedade do amor que ela lhe tem. Por isso respira tranquilamente,
vai à tarde passear sozinho na cidade, às vezes à noite tomar café na
avenida. Lê, depois da "bica", poemas. E vê com prazer passar as
raparigas ao lado dos plátanos magníficos em frente do café. Às vezes
escreve num caderno as suas próprias reflexões, evoca para o futuro as
fachadas doiradas de pedra das casas que está a contemplar. Depois,
quando se cansa, caminha, ainda pensativo, pelas ruas que o levam a
casa. E a amada, fiel, espera-o. E a vida segue naturalmente, sem
esforço, o seu rumo. Maior felicidade não é possível.
Um dia, porém, partiu-se o vidro da janela e K. pensou: e se ela não me
ama, se eu estou iludido? As pernas dela, livres, corriam atrás da
borboleta fútil da aventura, a sua boca dizia ao ouvido do amante
palavras que ele nunca lhe ouvira dizer, com uma insensatez de que ele
não a adivinhava capaz. É essa a amada, é ela aquela que traz a luz do
sol aos meus dias cinzentos?
Para a interrogação não tinha resposta, uma dor apunhalou-lhe o peito.
Deixou o quarto onde meditava, dirigiu-se à casa de banho. Contemplou o
seu próprio rosto no espelho e achou-se outro, incomodou-o o reflexo da
sua imagem.
Foi à sala, ela estava sentada a ler. Olhou para ela silenciosamente.
Deu dois ou três passos e foi encostar-se à porta da varanda. Lá fora
passavam as mães com os filhos pequenos pela mão, vinham do jardim no
cimo da colina. Também ela passava horas com os filhos entre as árvores,
depois descia a encosta sorridente. Pensou: a nódoa negra nos joelhos
dela que significará? A imaginação, então, liberta, foi descobrindo
novos caminhos, arrastou-o por eles sem prudência. Horas depois estava
extenuado, um suor frio escorria-lhe da testa. Não quis jantar,
calou-se. Ela parecia inquieta.
Do que aconteceu depois mal se recorda. Perdeu o sentido da realidade e
passou dois dias no hospital. Mais tarde recuperou a serenidade e a
saúde, mas nunca mais as coisas puderam voltar a ser o que já tinham
sido. Agora recorda-a às vezes e aos episódios apaixonantes da tragédia
da ruptura. Afasta, porém, com a mão os pensamentos. O futuro, diz para
si mesmo, o futuro e não o passado é o tempo que me resta. E
concentra-se no trabalho, lê e escreve, na solidão.
JOÃO CAMILO
é diretor do Center for Portuguese Studies e responsável pelas suas publicações desde 1989. Fundou o jornal Santa Barbara
Portuguese Studies. É professor
de Literatura Portuguesa no Departamento de Espanhol e Português da
Universidade de Califórnia em Santa
Bárbara. Lecionou na França durante vários anos. Foi conselheiro cultural
da Embaixada de Portugal em Londres. Autor de vários estudos sobre
literatura portuguesa, dentre os quais se destacam: Carlos
de Oliveira et le Roman (Paris, Fundação Gulbenkian,1987);
Os Malefícios da Literatura, do Amor e da Civilização, Ensaios
sobre Camilo Castelo
Branco (Lisboa, Edições Fenda, 1992). Editor de Camilo
Castelo Branco, no Centenário da Morte (CPS, UCSB, 1995). Co-editor de O
Amor das Letras e das Gentes, em honra de Maria de
Lourdes Belchior Pontes (CPS, UCSB, 1996), e do The Portuguese
and the Pacific I (CPS, UCSB,
1996). Autor de uma novela, Retrato Breve de J.B.
(Porto, Editora Paisagem, 1975) e Uma
Sonata de Brahms e Outros Diálogos (Capital do Teatro, Covilhã,
1998), publicou vários livros de
poesia: Os Filmes Coloridos (Porto, Edições Árvore,
1978); O ruído fino ("antologia de poemas
inéditos") in A Jovem Poesia Portuguesa I (Porto,
Limiar, 1979); O T de TU (Coimbra, Edições Fenda, 1981); Na Pista, Entre as
Linhas (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983); Para a Desconhecida (Lisboa,
Edições Fenda, 1983); A Mala dos Marx Brothers (Lisboa, Editorial Caminho, 1989); A
Mais Nobre das Artes (Lisboa, Editorial Caminho, 1991); Nunca
Mais se Apagam as Imagens (Lisboa, Edições Fenda, 1996);
A Ambição Sublime (Lisboa, Edições Fenda, 2002) e uma antologia de minicontos: O
Grande Frémito da Paixão (Lisboa, Edições Fenda,
2002). Tem artigos, poemas e minicontos publicados em vários livros,
jornais e revistas literárias.
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